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ECONOMIA/PERFIL
Foto: Carlos Goldgrub/Reflexo
BOCA DURA: um sistema de tantas liminares é
um manicômio jurídico

Paredão do governo
Quem é Gilmar Mendes, o barulhento advogado-geral que tem a tarefa de defender a União em 600 mil processos.

Estela Caparelli

» Galeria de Fotos: chefes e xerifes das finanças públicas

O mato-grossense Gilmar Mendes assumiu há seis meses o comando da defesa jurídica do governo, mas já está entrando para os autos como o advogado-geral da União mais briguento dos sete anos de existência do cargo. Ele faz as defesas pessoalmente nos tribunais, leva membros da equipe econômica nas conversas com juízes, usa (e, segundo desafetos, abusa) de Medidas Provisórias e rebate com força as críticas de adversários. Tudo para driblar uma montanha de 600 mil processos contra o governo. Na pilha de ações estão casos como a correção do FGTS, as indenizações para o setor aéreo e, claro, sua mais recente pedra no sapato: a privatização do Banespa.

Foi em janeiro deste ano que Mendes, 44 anos, deixou a subchefia da área jurídica da Casa Civil para assumir a advocacia geral da União. Logo que colocou os pés no escritório, localizado em um dos anexos do Palácio do Planalto, ganhou a missão de rebater a montanha de ações judiciais que pediam a correção das contas do FGTS. Ele fez a defesa do caso de viva voz, perante os ministros do Supremo Tribunal Federal, acostumados com impessoais dissertações enviadas pelo correio. Com sua barba grisalha, voz grave e estilo passional, convenceu os juízes a examinar o caso. Os ministros do Supremo que votaram deram razão ao governo no caso do FGTS em dois dos cinco planos econômicos. “Manter as finanças rígidas é bom para todos. O FGTS poderia comprometer a estabilidade”, diz ele.

Nem tudo, porém, são vitórias para Gilmar Mendes, um torcedor apaixonado do Santos. No mês passado, o Tribunal Regional Federal em São Paulo votou pela liminar contra a venda do Banespa pedida pelo Sindicato dos Bancários. Mendes recorreu da decisão em uma instância superior, o STJ, mas, no último dia 5, teve que retirar por cinco dias o pedido de suspensão, dizendo que queria ler com mais atenção o processo. Mendes sabia que a decisão no STJ seria desfavorável para o governo. “Um sistema de tantas liminares é um manicômio judiciário”, afirma. Ele planeja suas ações na madrugada (o advogado dorme às 23 horas e acorda religiosamente às 3 horas da manhã) ou em seu escritório, ao lado de uma escultura de Nossa Senhora da Conceição. Uma das suas táticas freqüentes é utilizar Medidas Provisórias. “Benditas as MPs que combatem o estelionato pela via judicial”, diz. O uso desse instrumento jurídico está enfurecendo muita gente. No Ministério Público, Mendes é chamado de Darth Vader, vilão do filme Guerra nas Estrelas. No mês passado, o jurista Fabio Konder Comparato escreveu um artigo para a Folha de São Paulo batendo em Mendes e chamando as MPs de “estrupícios normativos”. O advogado-geral preparou uma réplica que promete atear fogo no meio acadêmico. “Ele é um esquizofrênico moral”, acusa Mendes, que diz não temer desafetos ou impopularidade. Como ele quer ser lembrado? “I did it my way”, afirma, lembrando a música que ficou conhecida na voz de Frank Sinatra.

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