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-COMMERCE/MITCH DIGITAL
Foto: Gustavo Lourenção
SHIMIZU, DO TUTOPIA: é hora de garantir
a sobrevivência
A primeira fez TCHAN
Falta de receita força portal brasileiro
a demitir e encerrar produção de conteúdo

Juliana Simão

Box: Amazon, símbolo da nova economia, não convence investidor

O furacão que varreu a Internet nos Estados Unidos não demorou a chegar ao Brasil. Na última semana, o Mitch digital – como vem sendo chamado o estrago devastador da Nasdaq na Nova Economia – fez sua primeira vítima local. O portal Tutopia, que chegou ao Brasil há cinco meses, encerrou suas atividades como provedor de conteúdo. A partir de agora, se limitará a ser um provedor gratuito de acesso à rede. Não fechou as portas, por enquanto. Mas demitiu 9 dos 24 profissionais que trabalhavam na filial brasileira da empresa. E outras dezenas de funcionários nos 36 escritórios ao redor do mundo. “Aos olhos do mercado, pode parecer que a festa acabou. Estamos apenas tentando garantir nossa sobrevivência”, afirmou Heitor Shimizu, diretor de conteúdo do portal. O “reposicionamento da empresa no mercado”, conforme anunciaram seus executivos, visa a concentrar esforços em publicidade e comércio eletrônico. Ou seja, as áreas que geram receitas. A meta é transformar o Tutopia em uma empresa rentável ou, pelo menos, diminuir o vermelho em que ela se encontra. “Todas as empresas de Internet têm caixa negativo. Nós buscamos rentabilidade num prazo mais curto”, diz Michel Hannas, presidente do Tutopia Brasil. Público não falta, garante ele. O Tutopia conta hoje com 950 mil usuários cadastrados. No Brasil, são 200 mil. Resta saber se é possível continuar sendo um provedor de Internet sem ter conteúdo próprio. “O que gera clientes é conteúdo", lembra Luciana Hayashi, analista do Yankee Group. “Essa mudança vai contra os objetivos da Tutopia.”

A decisão não espantou a concorrência. “A tendência é adequar modelos de negócios. Cortar gastos é conseqüência”, afirma Marcos Aranha, presidente do O Site. Contrariando boatos do mercado, este portal pretende concentrar seus negócios em conteúdo próprio e diferenciado. A área editorial cresceu 70% nos últimos meses e, segundo Aranha, a tendência é aumentar mais. A estratégia de combate emergencial do Tutopia foi traçada semanas antes. E não só para o Brasil. O portal, que opera em 10 países, foi lançado pela IFX Corporation, empresa de capital aberto com ações em Nasdaq. Logo após a abertura de capital, em agosto de 99, as ações da empresa valiam US$ 17. Entre janeiro e março, a IFX valorizou 100%. Em maio a trajetória era outra. Os papéis caíram para US$ 10. E, antes de abandonar o navio, a empresa mudou a estratégia. “É melhor alterar o foco da empresa enquanto ainda há dinheiro, do que esperar ele acabar para tomar medidas”, diz Silvio Genesini, sócio da Andersen Consulting.

Há duas semanas, a Tutopia comemorava um aporte de US$ 20 milhões do UBS Capital Americas. A verba seria aplicada na expansão de serviços e em ações de marketing e vendas. Qual a lógica? Exatamente a (cruel) lógica de mercado. Em tempos de verbas escassas, é preciso se adaptar e ter fluxo positivo, para continuar merecendo investimentos. “Se não dá para ser um portal, e competir com gigantes, tem que definir me-lhor o foco”, afirma César Monteiro, da Ernst & Young. “É corajoso realinhar os negócios a esta altura, mas é isso que os investidores esperam.” Na semana passada, depois do anúncio da Tutopia, um calafrio percorreu a espinha dorsal do setor. O que se comenta é que este será o anus terribilis da Net brasileira: quando empresas sem fôlego terão de mudar ou sair do mercado, ou ambos. A Tutopia pode ter sido apenas a primeira.

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