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DESCOBERTA
AGITA MERCADO: A Celera investe
US$ 3 bilhões no Projeto Genoma, valoriza ações em 1.400%
e prevê receita anual de US$ 800 milhões
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Bilionário
DNA
Seqüenciamento
genético abre portas para cura de várias doenças e lucro de empresas
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Biochip contra o Câncer
Paula
Pacheco
Coincidência
ou não, a data da conclusão de uma das mais importantes
descobertas da ciência foi sexta-feira, dia 23, o mesmo número
de pares dos cromossomos humanos. O anúncio do Projeto Genoma,
nome do estudo de mapeamento genético humano, foi feito na
última segunda-feira na Casa Branca pelo presidente americano
Bill Clinton, que deslumbrou-se: Este é o mapa mais
importante e maravilhoso já criado pela humanidade.
Cientistas e políticos compararam a novidade à invenção
da roda, à teoria da relatividade e à chegada do homem
à Lua. Mas não é só o mundo da medicina
que está agitado. O dos negócios também. A
Celera Genomics, dona de um dos mapas genéticos descobertos,
tem ações negociadas na Bolsa de Nova York que em
um ano valorizaram quase 1.400%. Não era para menos. A empresa
simplesmente redescobriu a vida. Estima-se que o laboratório
gastou US$ 3 bilhões nas pesquisas. Até agora, no
entanto, nada de lucro. No ano passado o faturamento foi de US$
12,4 milhões. Para este ano o quadro deverá ser outro.
Laboratórios como a Novartis e a Amgen já pagaram
US$ 25 milhões para ter acesso às informações
da Celera, o que, segundo os especialistas, poderá gerar
uma expectativa de receita de US$ 800 milhões em 2004. O
seu concorrente, o consórcio que reuniu pesquisadores de
seis países, desembolsou US$ 300 milhões durante os
estudos. Os analistas dizem que as empresas de biotecnologia são
hoje as vedetes do mercado de capitais, deixando para trás
as representantes da Nova Economia. Na Nasdaq, as companhias de
biotecnologia tiveram nos últimos 12 meses uma valorização
de pouco mais de 140%, três vezes mais do que o próprio
Índice Nasdaq, que no mesmo período subiu 46,7%.
As
apostas nas empresas de biotecnologia não estão sendo
feitas apenas em função do que ocorreu nesta semana,
mas principalmente pelo que ainda está por vir. Uma das possibilidades
que o mapeamento genético vai permitir dentro de 10 ou 20
anos é que as doenças possam ser identificadas antes
que seus sintomas apareçam. Há quem diga até
que num futuro bem menos ficcional do que se pensava os pais vão
poder escolher as características físicas dos filhos.
E quem com dinheiro no bolso não vai querer tirar uma casquinha
do que a ciência está reservando para o futuro? Quem
investe na Nasdaq ou na Bolsa de Nova York provavelmente já
ouviu a frase all cash toward genomics, algo como todo
dinheiro em direção ao genoma. A primeira letra
de cada uma dessas palavras em inglês usa as mesmas iniciais
A, C, T e G das quatro substâncias encontradas no DNA. A brincadeira
tem fundamento. No ano passado, a indústria do genoma foi
avaliada em US$ 5 bilhões nas bolsas.
Mas
se a incidência de doenças poderá ser reduzida,
qual será o destino dos laboratórios farmacêuticos?
Vamos acompanhar essas mudanças e tratar o que o mapeamento
dos genes identificar nas pessoas, explica o presidente da
Abifarma (Associação Brasileira da Indústria
Farmacêutica), José Eduardo Bandeira de Mello. O relatório
sobre biotecnologia do Salomon Smith Barney, braço de investimentos
do Citicorp, diz que os laboratórios farmacêuticos
vão colocar no mercado soluções desenvolvidas
pelas empresas de biotecnologia. Os empregos, dizem alguns especialistas,
também poderão mudar. A dúvida é saber
se algum patrão vai querer contratar um funcionário
ao descobrir previamente que ele tem problemas cardíacos.
Também não dá para antever qual será
o comportamento dos planos de saúde ao conhecerem previamente
os problemas de seus clientes. A lei brasileira não
permite que usuários de planos sejam discriminados porque
têm uma doença, então ninguém será
excluído. As empresas terão de se adaptar e oferecer
tratamentos preventivos, diz Antônio Jorge Kropf, diretor
técnico da Amil.
A
Cinderela do genoma. Não são apenas as comunidades
acadêmicas internacionais que estão alvoroçadas
com as pesquisas sobre o genoma. O Brasil também está
inserido neste novo momento. Recentemente a Science Magazine, uma
das mais respeitadas revistas de ciências do mundo, comparou
o que está acontecendo no País à história
da Cinderela. Até dois anos atrás, os estudos brasileiros
sobre o genoma eram inexpressivos. Em janeiro deste ano o jogo virou.
O Brasil saiu na frente e foi o primeiro no mundo a mapear geneticamente
uma bactéria, a Xilella fastidiosa, responsável pelo
amarelinho, doença que contamina 30% dos laranjais brasileiros
e causa perdas anuais de US$ 100 milhões. Uma bactéria
semelhante afeta as videiras da Califórnia e o Ministério
da Agricultura dos EUA se interessou pelos resultados brasileiros.
O projeto foi desenvolvido por 54 laboratórios que formam
hoje a ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis),
um instituto virtual que estuda o genoma e é coordenado pela
Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo). Segundo o diretor científico da fundação,
José Fernando Perez, desta vez o País não está
na cozinha do mundo científico. No Brasil
as coisas começam atrasadas, mas agora podemos dizer que
estamos no tempo certo, não na lanterninha, diz Perez.
A
Fapesp está coordenando outras pesquisas de genoma: a do
metabolismo da cana-de-açúcar e a da bactéria
Xanthomonas citri, que provoca o cancro cítrico nos laranjais.
A mais importante, no entanto, é a do genoma do câncer,
feita em parceria com o Instituto Ludwig, espalhado por 10 filiais
no mundo e que vai investir US$ 8,5 milhões; mesmo valor
bancado pela Fapesp. O Instituto trabalha em parceria com o Hospital
do Câncer, de São Paulo. Quando os estudos apresentarem
os primeiros resultados práticos, o hospital vai economizar
no próprio bolso. Poderemos oferecer desde novos aparelhos
até novas possibilidades terapêuticas, afirma
Ricardo Brentani, presidente do hospital e diretor do instituto.
Como disseram durante o anúncio do Projeto Genoma
e assim todos esperam , talvez os filhos dos nossos filhos
usem a palavra câncer apenas como referência a uma das
constelações do zodíaco.
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