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NEGÓCIOS/TERCEIRO SETOR
Foto: Gustavo Lourenção
CASA DO ZEZINHO: Parceria com multinacional leva aulas de dança e teatro a crianças carentes

Volta olímpica na violência
Xerox monta vila esportiva na periferia paulistana

Ricardo Osman

O Parque Santo Antônio, em Campo Limpo, periferia de São Paulo, é um dos locais mais pobres e violentos da cidade. Na delegacia da região, registra-se um homicídio a cada dois dias e um roubo de carro a cada seis horas. À noite, as mães não permitem que as crianças andem nas ruas, por causa dos constantes tiroteios. À luz do dia, o tráfico tenta seduzir os adolescentes, contratando-os por R$ 50 para entregar drogas. Nas redondezas está o Jardim Ângela, endereço de maior criminalidade de São Paulo. Ao todo, são 300 mil habitantes espalhados por 55 favelas, e nenhuma área de lazer – nenhuma! Neste cenário desolador, será erigido um templo ao esporte. A Xerox vai construir ali, ainda este ano, uma Vila Olímpica, com capacidade para atender até duas mil crianças e adolescentes. Os acertos finais para o início das obras estão sendo feitos com o governo do Estado, que deverá ceder terreno da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Pistas de atletismo, campo de futebol, piscinas vão colorir a paisagem da periferia. Somente para a manutenção da Vila, no ano que vem, data da inauguração, estão previstos US$ 500 mil.

PARA COLABORAR
Casa do Zezinho
0xx11-5512-0878

O projeto será idêntico ao que funciona há 15 anos no morro da Mangueira, no Rio. A primeira Vila foi prestigiada, em 1997, com a visita do presidente americano, Bill Clinton, e de Pelé. É um projeto bem-sucedido que absorve hoje US$ 1 milhão por ano. A versão paulista será em parceria com a Casa do Zezinho, uma cooperativa educacional que atende a 320 crianças e adolescentes nesta região e é dirigida pela pedagoga Dagmar Garroux, a tia Dag. A Casa já é parceira da Xerox em projetos culturais, como aulas de música, dança e cerâmica para os jovens – um patrocínio de R$ 448 mil. “Nossa meta agora é São Paulo. Até o fim deste ano a Vila Olímpica estará pronta, vai funcionar de segunda a segunda também como local de recreação”, conta José Pinto Monteiro, diretor de Assuntos Corporativos da Xerox. “Para dar certo, o projeto vai exigir o envolvimento de toda a comunidade.” A empolgação na Casa do Zezinho já é grande. “Com a Vila, nossas crianças vão subir ao pódio na Olimpíada de 2004”, assegura tia Dag. As competições de Sydney, em setembro, serão assistidas pela televisão com atenção redobrada.

Juliana Aparecida Ramos, de 10 anos, é uma freqüentadora típica da Casa. Ela vive com a mãe e dois irmãos “em um quartinho” no Parque Santo Antônio, acorda de madrugada para ir ao colégio e à noite é responsável pela limpeza doméstica. À tarde, tem a folga da dura realidade: almoça, descansa e tem aulas de piano bancadas pela multinacional. Juliana e suas amigas Gisele Ribeiro, 9 anos, Daiane Alves, 9 anos, e Carol de Souza, 10 anos, têm em comum o temor da violência das ruas. “Sempre ouvimos tiros à noite”, conta Daiane. A Casa do Zezinho e a Xerox querem formar Cidadãos, com C maiúscula. Para Monteiro, a criança que aprende a tocar um instrumento, não pegará jamais em armas. Com o esporte, o raciocínio é o mesmo. Em vez da correria das ruas, a vitória nos cem metros, e em vez das brigas, a garra nas quadras. Surge na periferia de São Paulo, em meio a um cenário de absurda violência, a oportunidade dos sonhos olímpicos das crianças carentes.

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