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WELTEKE:
Os países que realizaram privatizações
estão num nível econômico melhor
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ERNST
WELTEKE
Um
banqueiro contra o crime
Presidente do
poderoso Banco Central da Alemanha vem ao Brasil sem convite oficial
para verificar se a criminalidade e a corrupção são fortes o suficiente
para atrapalhar investimentos
Marco
Damiani
Aprendiz
de mecânico de máquinas agrícolas na adolescência,
o alemão Ernst Welteke tornou-se, aos 57 anos, um dos homens
mais fortes da economia mundial. Ele tem um metro e noventa de altura
e ostenta um porte físico de lenhador, mas isso é
o de menos. A força de Welteke vem do cargo que ocupa desde
setembro do ano passado, presidente do Banco Federal da Alemanha,
o Bundesbank, âncora da reestruturação econômica
pela qual passam a Europa e seu processo de unificação.
Com ficha assinada no partido social-democrata do chanceler Gerhard
Schroeder, ex-deputado e, sucessivamente, ministro da Economia,
Transportes, Tecnologia e Finanças do Estado de Hesse, ele
tem exercido seu poder atual com determinação. Welteke
gosta de falar mal de juros altos e tem-se mostrado coerente com
o discurso. Já derrubou em mais de três pontos porcentuais
a taxa de juros alemã, estipulada atualmente em 3,9% ao ano.
Contribuiu diretamente, assim, para a redução a um
dígito da taxa de desemprego no país, que insistia
em oscilar entre 11% e 12%, mas agora está na casa dos 9%.
A cada manhã de quinta-feira, quando não está
viajando, Welteke se reúne com os ministros da Fazenda e
da Economia e manipula cordéis que podem alterar o rumo das
coisas lá e alhures. Afinal, um gesto seu pode fazer com
que as multinacionais alemãs espalhadas pelo planeta reorientem
bilhões em investimentos. Além disso, ele participa
pessoalmente de todas as reuniões de autoridades econômicas
dos países mais ricos, cuja influência sobre os destinos
dos recursos do Banco Mundial é decisiva.
Este
homem está preocupado com o Brasil e o futuro da nossa economia.
As notícias daqui que lhe chegam na Alemanha tem mais a ver
com criminalidade, corrupção e crise social do que
com estabilidade da moeda, controle de inflação e
cumprimento das metas do FMI. Por isso, mesmo sem ter sido convidado
por ninguém, ele aproveitou na semana passada uma visita
à Argentina esta sim realizada a pedido de banqueiros
locais para conhecer pela primeira vez a cara do Brasil.
Ao chegar, soube que o cônsul alemão em São
Paulo, Hans Benesch, havia sido atingido por uma bala perdida em
fevereiro, durante uma tentativa de assalto em Interlagos, bairro
da violenta zona sul paulistana. Escapei da morte graças
aos médicos brasileiros, contou o cônsul, que
necessitou de duas operações no estômago para
ser salvo. Na quarta-feira da semana passada, Welteke jantou em
São Paulo com representantes de empresas alemãs. Na
noite seguinte, antes de embarcar de volta para seu país,
dividiu talheres no Rio de Janeiro com o presidente do Banco Central,
Armínio Fraga. Entre esses encontros, abriu sua agenda para
uma entrevista exclusiva à DINHEIRO, na suíte do hotel
em que ficou hospedado. Estava de ótimo humor, insuficiente,
porém, para pronunciar frases adocicadas. Com seu jeito calmo
e pausado, chamou mais atenção pelo maneira franca
de ser. Em lugar de uma entrevista politicamente descompromissada,
ora em inglês, ora em alemão, ele optou pela sinceridade.
DINHEIRO
Qual é a imagem do Brasil na Alemanha?
Ernst Welteke Muitas cabeças alemãs
têm na memória a crise do Brasil de dois anos atrás,
quando o real sofreu uma forte desvalorização frente
ao dólar. Isso é um problema. Essas cabeças,
agora, não têm a informação de que aqui
está melhor. Não sabem o que se passa na economia
de vocês. Mas eu estou vendo que a situação
aqui está melhor e tenho interesse em passar essa mensagem
adiante.
DINHEIRO
O que mais o sr. pode dizer?
Welteke Criminalidade e corrupção.
Todos na Alemanha conhecem sobre criminalidade e corrupção
no Brasil. Para investimentos europeus aqui, isso é perigoso.
DINHEIRO
Há mais algum problema que tenha chamado sua atenção
nesta primeira visita ao Brasil?
Welteke Sim, as diferenças entre salários
dos trabalhadores. Uma pessoa tem salário muito alto, outra,
muito baixo. A diferença é enorme. Os grupos de pessoas
são absolutamente distintos. Isso é uma fonte para
uma crise social e, também, econômica.
DINHEIRO
O atual cenário brasileiro pode inviabilizar novos
negócios entre a Alemanha e o Brasil?
Welteke A Europa como um todo tem interesse em
cooperar com o Brasil, e a Alemanha, em particular, também;
afinal o Brasil domina o mercado na América do Sul. Fiquei
feliz pela presença do Brasil em Hannover e também
pela presença pessoal do presidente Cardoso lá. Foi
uma garantia muito boa para o futuro.
DINHEIRO
Mas o que está melhor no Brasil hoje do que no passado?
Welteke As autoridades governamentais brasileiras
são de alto nível e têm demonstrado muita responsabilidade
na condução da economia. Estive pessoalmente por três
vezes com o ministro Pedro Malan, em Frankfurt, Tóquio e
Washington, durante encontros internacionais, e ele sempre demonstrou
muita coerência sobre as posições brasileiras.
DINHEIRO
Há perspectivas de investimentos diretos da Alemanha
para o presente?
Welteke Não vou falar em números.
A Alemanha tem no Brasil pelo menos 20 companhias de grande porte.
Essas empresas estão localizadas em diferentes regiões
do País e têm realizado investimentos constantes. São,
certamente, programas que irão prosseguir normalmente. Como
os investimentos são privados, não posso falar sobre
números, pois não os tenho.
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