 |
|
ARAÚJO:
8 carros, 4 motos, 12 celulares e muita sede para gastar
|
Consumo
além da conta
Comprar sem parar
pode ser doença
Marta
Barbosa, Laura somoggi
e Fabiana Godoy
Oito
carros e quatro motos. Doze telefones celulares nos últimos
oito meses. Cinco CDs e três gravatas por mês. Esses
números revelam os hábitos de consumo do publicitário
paulistano Fernando de Araújo. Consumista assumido, Araújo
não gosta de ter dinheiro no bolso, ou melhor, gosta do dinheiro
para gastar. Tanto que uma das duas últimas motos que comprou
foi vendida sem nunca ter rodado. A outra está numa praia
na Bahia, também sem uso. Se gosta de uma camisa, compra
logo duas caso uma estrague. É um viciado em classificados
e sites de leilão na Internet. Recentemente vendeu sete dos
oito carros para arrematar um apartamento em Higienópolis,
bairro de classe alta de São Paulo. Já me arrependi
muito de coisas que comprei, diz ele. Olho na loja,
gosto, compro e quando chego em casa me arrependo. Esse comportamento
tem um diagnóstico: consumismo compulsivo.
É
mais comum do que você imagina e pode estar acontecendo com
você ou com seu vizinho. Atenção: isso não
depende do tamanho de sua conta bancária. Também nem
todo mundo que escapa do orçamento é um compulsivo
(confira teste na página 81). Segundo um estudo da Associação
Americana de Psiquiatria, 1,1% da população mundial
sofre desse mal. Como comprar é um hábito socialmente
aceito, as pessoas nunca consideram isso um problema, diz
o psicólogo Sérgio Wajman, professor da PUC de São
Paulo. Não é bem assim. Consumir desenfreadamente
é sinal de que algo não vai bem. É uma tentativa
de compensar alguma carência.
 |
|
ADRIANA:
“Fui para Nova York com três malas e voltei com oito”
|
Pode
parecer óbvio. Mas as pessoas têm dificuldade em enxergar
isso. Sempre encontram uma justificativa para comprar algo. Dificilmente
alguém percebe que o consumismo se tornou um problema enquanto
o saldo no banco estiver positivo. O compulsivo só
cai na real quando acaba o dinheiro, diz a psicóloga
Tania Casado, do Programa de Varejo (Provar) da USP. Às vezes,
você tem dinheiro para gastar ou até para pagar os
juros do cheque especial, mas não consegue poupar nada. Araújo,
por exemplo, teve de sacar de seu plano de previdência para
saldar dívidas. O problema se tornaria realmente grave se
ele não tivesse uma reserva.
Segundo
um estudo do Grupo Unidos, empresa de recuperação
de crédito, 10,6% dos consumidores brasileiros se tornam
inadimplentes por gastarem mais do que podem. Devem, mas adquirem
um novo crédito. Mais: 30% ficam endividados por gastos com
supérfluos, de acordo com a Associação Nacional
dos Devedores das Instituições Financeiras (Andif).
Nos Estados Unidos, paraíso do consumo, o débito com
cartão cresceu 30% nos últimos seis anos. Os americanos
devem até 10 vezes mais do que possuem. Esse fenômeno
já levou à criação de grupos de auto-ajuda,
bem parecidos com os Alcoólicos Anônimos. Lá,
as pessoas que sofrem deste mal são chamadas de shopping
addicted. Aqui, esse movimento de apoio começou a engatinhar,
com o surgimento de uma associação batizada de Devedores
Anônimos.
 |
|
WAJMAN:
“Consumo desenfreado é uma tentativa de compensar carência”
|
Se
você teme se tornar um freqüentador do grupo, saiba que
há uma saída. Ou melhor, duas: disciplina e mudança
de estilo de vida. O primeiro passo é elaborar um orçamento
doméstico. Comece dividindo seus gastos em fixos (os inevitáveis,
como prestação da casa, plano de saúde e escola
das crianças) e variáveis (cinema nos domingos, jantares
em restaurantes e viagens de fim de semana). Depois, some seu rendimento
e veja quanto dele está comprometido por mês. Separe
no mínimo 10% do que você ganha para uma poupança.
Se você gasta mais do que recebe, refaça tudo e comece
a cortar gastos variáveis. Não considere o limite
de cheque especial ou de cartão de crédito como renda,
afirma o advogado Donizete Piton, da Andif. Os juros são
uma grande armadilha.
Experimente,
por exemplo, fazer e obedecer uma lista de tudo que você precisa
comprar no supermercado. Se vai passar pelo shopping e não
pode gastar, tire o cartão de crédito e o talão
de cheque da bolsa. Não faça compras por impulso.
Antes de desembolsar, volte para casa. Só volte à
loja se, dois ou três dias depois, você continuar achando
que pode pagar aquele preço. Outra boa dica é traçar
um objetivo, como a compra de um carro ou uma viagem, para forçar
uma economia. Estabeleça metas e prazos, como numa
empresa, diz a educadora financeira Cássia DAquino.
A
pedagoga Adriana Gouveia, que sempre gastou tudo o que ganhava
ou até mais , deveria seguir essa receita. Entrar
no cheque especial não é desesperador porque consigo
pagar todo mês, afirma. Mas Adriana já perdeu
o controle. Durante uma viagem para Nova York, em 1997, gastou o
equivalente a sete salários em vinte dias. Eu e meu
marido fomos com três malas e voltamos com oito, diz
ela. Nem paramos para fazer as contas porque íamos
nos arrepender. O casal demorou seis meses para quitar as
dívidas dos cinco cartões de crédito usados.
 |
|
NESA:
Meditação para voltar ao equilíbrio e não estourar o orçamento
|
A decoradora
Nesa César só passou a levar a sério essas
recomendações quando entrou no vermelho. Antes,
meu dinheiro nunca era suficiente, quanto mais eu ganhava, mais
eu gastava, diz ela. Hoje, procuro respeitar o meu orçamento.
Figura constante nas colunas sociais, Nesa foi dona das lojas Workout
e Nesa César. O mundo era seu shopping center. Vendedoras
de lojas de Paris e Tóquio a conheciam pelo nome. Chegou
a pagar por um lençol com fios de ouro o valor de um carro.
Caí na real porque joguei muito dinheiro fora, perdi
muito e até chegou a faltar, diz ela. Nesa considera
que o excesso de consumo é um desequilíbrio. Quanto
mais equilibrada fico, menos consumista eu sou. Para atingir
esse estágio, passou a fazer ioga e meditação.
Encarar
o consumismo como uma doença nem sempre é um exagero.
A psicóloga Dora Lorch, de São Paulo, relata o caso
de uma senhora carioca que gastava tanto, mas tanto, que precisou
comprar uma casa ao lado da sua para colocar tudo o que adquiria.
Ela tinha geladeira industrial, comprava peças de carne
inteiras, diz Dora. Trata-se de um caso extremo. Ninguém
deve chegar a este estágio para começar a se preocupar.
Mas se você não consegue ficar sem um objeto de desejo
de jeito nenhum, talvez o problema seja sério. Sério
mas com cura, nem que seja no divã de um terapeuta.
|