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SEU DINHEIRO/CONSUMIDO
Foto: Gustavo Lourenção
ARAÚJO: 8 carros, 4 motos, 12 celulares e muita sede para gastar
Consumo além da conta
Comprar sem parar pode ser doença

Marta Barbosa, Laura somoggi
e Fabiana Godoy

Oito carros e quatro motos. Doze telefones celulares nos últimos oito meses. Cinco CDs e três gravatas por mês. Esses números revelam os hábitos de consumo do publicitário paulistano Fernando de Araújo. Consumista assumido, Araújo não gosta de ter dinheiro no bolso, ou melhor, gosta do dinheiro para gastar. Tanto que uma das duas últimas motos que comprou foi vendida sem nunca ter rodado. A outra está numa praia na Bahia, também sem uso. Se gosta de uma camisa, compra logo duas caso uma estrague. É um viciado em classificados e sites de leilão na Internet. Recentemente vendeu sete dos oito carros para arrematar um apartamento em Higienópolis, bairro de classe alta de São Paulo. “Já me arrependi muito de coisas que comprei”, diz ele. “Olho na loja, gosto, compro e quando chego em casa me arrependo.” Esse comportamento tem um diagnóstico: consumismo compulsivo.

É mais comum do que você imagina e pode estar acontecendo com você ou com seu vizinho. Atenção: isso não depende do tamanho de sua conta bancária. Também nem todo mundo que escapa do orçamento é um compulsivo (confira teste na página 81). Segundo um estudo da Associação Americana de Psiquiatria, 1,1% da população mundial sofre desse mal. “Como comprar é um hábito socialmente aceito, as pessoas nunca consideram isso um problema”, diz o psicólogo Sérgio Wajman, professor da PUC de São Paulo. “Não é bem assim. Consumir desenfreadamente é sinal de que algo não vai bem. É uma tentativa de compensar alguma carência.”

Foto: Gustavo Lourenção
ADRIANA: “Fui para Nova York com três malas e voltei com oito”

Pode parecer óbvio. Mas as pessoas têm dificuldade em enxergar isso. Sempre encontram uma justificativa para comprar algo. Dificilmente alguém percebe que o consumismo se tornou um problema enquanto o saldo no banco estiver positivo. “O compulsivo só cai na real quando acaba o dinheiro”, diz a psicóloga Tania Casado, do Programa de Varejo (Provar) da USP. Às vezes, você tem dinheiro para gastar ou até para pagar os juros do cheque especial, mas não consegue poupar nada. Araújo, por exemplo, teve de sacar de seu plano de previdência para saldar dívidas. O problema se tornaria realmente grave se ele não tivesse uma reserva.

Segundo um estudo do Grupo Unidos, empresa de recuperação de crédito, 10,6% dos consumidores brasileiros se tornam inadimplentes por gastarem mais do que podem. Devem, mas adquirem um novo crédito. Mais: 30% ficam endividados por gastos com supérfluos, de acordo com a Associação Nacional dos Devedores das Instituições Financeiras (Andif). Nos Estados Unidos, paraíso do consumo, o débito com cartão cresceu 30% nos últimos seis anos. Os americanos devem até 10 vezes mais do que possuem. Esse fenômeno já levou à criação de grupos de auto-ajuda, bem parecidos com os Alcoólicos Anônimos. Lá, as pessoas que sofrem deste mal são chamadas de “shopping addicted”. Aqui, esse movimento de apoio começou a engatinhar, com o surgimento de uma associação batizada de Devedores Anônimos.

Foto: Ciete Silvério
WAJMAN: “Consumo desenfreado é uma tentativa de compensar carência”

Se você teme se tornar um freqüentador do grupo, saiba que há uma saída. Ou melhor, duas: disciplina e mudança de estilo de vida. O primeiro passo é elaborar um orçamento doméstico. Comece dividindo seus gastos em fixos (os inevitáveis, como prestação da casa, plano de saúde e escola das crianças) e variáveis (cinema nos domingos, jantares em restaurantes e viagens de fim de semana). Depois, some seu rendimento e veja quanto dele está comprometido por mês. Separe no mínimo 10% do que você ganha para uma poupança. Se você gasta mais do que recebe, refaça tudo e comece a cortar gastos variáveis. “Não considere o limite de cheque especial ou de cartão de crédito como renda”, afirma o advogado Donizete Piton, da Andif. “Os juros são uma grande armadilha.”

Experimente, por exemplo, fazer e obedecer uma lista de tudo que você precisa comprar no supermercado. Se vai passar pelo shopping e não pode gastar, tire o cartão de crédito e o talão de cheque da bolsa. Não faça compras por impulso. Antes de desembolsar, volte para casa. Só volte à loja se, dois ou três dias depois, você continuar achando que pode pagar aquele preço. Outra boa dica é traçar um objetivo, como a compra de um carro ou uma viagem, para forçar uma economia. “Estabeleça metas e prazos, como numa empresa”, diz a educadora financeira Cássia D’Aquino.

A pedagoga Adriana Gouveia, que sempre gastou tudo o que ganhava – ou até mais –, deveria seguir essa receita. “Entrar no cheque especial não é desesperador porque consigo pagar todo mês”, afirma. Mas Adriana já perdeu o controle. Durante uma viagem para Nova York, em 1997, gastou o equivalente a sete salários em vinte dias. “Eu e meu marido fomos com três malas e voltamos com oito”, diz ela. “Nem paramos para fazer as contas porque íamos nos arrepender”. O casal demorou seis meses para quitar as dívidas dos cinco cartões de crédito usados.

Foto: Ciete Silvério
NESA: Meditação para voltar ao equilíbrio e não estourar o orçamento

A decoradora Nesa César só passou a levar a sério essas recomendações quando entrou no vermelho. “Antes, meu dinheiro nunca era suficiente, quanto mais eu ganhava, mais eu gastava”, diz ela. “Hoje, procuro respeitar o meu orçamento.” Figura constante nas colunas sociais, Nesa foi dona das lojas Workout e Nesa César. O mundo era seu shopping center. Vendedoras de lojas de Paris e Tóquio a conheciam pelo nome. Chegou a pagar por um lençol com fios de ouro o valor de um carro. “Caí na real porque joguei muito dinheiro fora, perdi muito e até chegou a faltar”, diz ela. Nesa considera que o excesso de consumo é um desequilíbrio. “Quanto mais equilibrada fico, menos consumista eu sou”. Para atingir esse estágio, passou a fazer ioga e meditação.

Encarar o consumismo como uma doença nem sempre é um exagero. A psicóloga Dora Lorch, de São Paulo, relata o caso de uma senhora carioca que gastava tanto, mas tanto, que precisou comprar uma casa ao lado da sua para colocar tudo o que adquiria. “Ela tinha geladeira industrial, comprava peças de carne inteiras”, diz Dora. Trata-se de um caso extremo. Ninguém deve chegar a este estágio para começar a se preocupar. Mas se você não consegue ficar sem um objeto de desejo de jeito nenhum, talvez o problema seja sério. Sério mas com cura, nem que seja no divã de um terapeuta.

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