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ECONOMIA/COMUNICAÇÃO
NO TOPO: Sônia deixou Wall Street para crescer a partir do Brasil
Mulheres no controle
Pesquisa inédita revela que nos últimos dez anos as mulheres estão chegando aos cargos mais altos das empresas numa velocidade quatro vezes maior que a apresentada pelos homens. Elas exibem, em média, quatro anos de estudos a mais que eles. Inquietas, usam a diferença a seu favor para trocar bons empregos por melhores

Marco Damiani

Box: Existem diferenças

Olhe para cima, lá estão elas. Um passo de salto agulha após o outro, as mulheres escalam por todos os lados as torres de cargos das grandes corporações, mas nem assim parecem satisfeitas. “Em Wall Street e na City, hoje, a dúvida dos grandes banqueiros não é mais conter ou incentivar a escalada feminina em suas estruturas”, diz a mexicana Sônia Dulá, diretora na década de 90 da Goldman Sachs em Londres e Nova York. “O problema deles é até onde aumentar o teto para que as mulheres não saiam de suas empresas depois de 10 ou 12 anos.” Ela própria, após acumular alguns milhões de benefícios em sua conta bancária, abdicou do mercado financeiro internacional e aterrissou no Brasil. Em poucos meses ajudou a fundar o portal iG e, a convite, tornou-se CIO do site Obsidiana, um negócio de US$ 7,5 milhões para o qual contratou, é claro, muitas mulheres. “Quero gente com o meu perfil, movida a desafios.”

É à base desses impulsos que muitas outras profissionais qualificadas têm mudado de endereço nos últimos tempos. Atentas a essa inquietação, as pesquisadoras Florencia Ferrer, do Departamento de Sociologia da USP, e Zilma Borges, mestre em Economia pela Fundação GetúlioVargas, ficaram ressabiadas ao ler, seis meses atrás, um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O documento destrinchava a maciça presença das mulheres no mercado de trabalho, mas acentuava que isso acontecia em maior escala nas funções que exigiam baixa qualificação profissional. “Em campo, vimos que a mulher brasileira se insere cada vez mais em todos os escalões das empresas, mas a velocidade de ocupação é muito maior na parte superior das estruturas”, diz a professora Zilma. “Há uma tendência brutal de feminização de cargos de gerência, planejamento e direção”, conta sua colega Florencia. Ao confrontarem estatísticas oficiais de emprego e dados de vagas qualificadas abertas nos útimos 10 anos no município de São Paulo, elas descobriram que a presença feminina nestes cargos cresceu mais de 40% desde o início do período. No caso dos homens, o mesmo índice variou para cima apenas 10%. O trabalho estará no livro Organização e Sexualidade, a ser editado pela FGV este ano.

OLHAR PRAGMÁTICO: Franziska deixa o escritório com as mulheres e a gerência da fábrica aos homens

Um motivo objetivo ajuda o fenômeno do aquecimento da mobilidade que, a olho nu, qualquer observador verifica nas grandes companhias. Ao se apresentarem no mercado de trabalho, as mulheres brasileiras ostentam em média um histórico escolar de 11 anos completados, contra sete anos para a média masculina. “A mulher chega à empresa melhor qualificada e colhe os frutos desta vantagem ao longo da carreira”, entende Florencia. Além disso, sobram razões subjetivas. Afirmações que soavam como lendas tempos atrás, como assegurar que a mulher tem mais capacidade de adaptação e concentração no trabalho do que o homem, hoje merecem o status de teses comprovadas. “Estamos absolutamente satisfeitos com a ascensão profissional das mulheres em nossa estrutura”, assegura o diretor de Recursos Humanos da multinacional Gillete do Brasil, Mauro Ney. A empresa fabrica produtos eminentemente masculinos e sempre foi vista no mercado como um rincão fechado a engravatados de barba feita.

Empurradas pela necessidade existencial ou financeira, muitas mulheres descobriram que o momento é propício para executar gestos profissionais ousados. A economista Ana Luíza Carbonari bateu a porta atrás de si no Banco Real, após uma carreira de oito anos iniciada como escriturária e encerrada na condição de gerente de administração e finanças. Saiu rubra. “A estrutura do banco era machista e impedia que eu subisse mais”, acredita. Com o currículo na bolsa, teve boas chances de escolher um campo de pouso seguro e chegou ao que na ótica das feministas pode parecer uma filial do paraíso – uma empresa em que não há patrão, mas patroa. “Mulheres como Ana Luíza são perfeitas para comandar o escritório”, garante a empresária Franziska Hübener, cuja empresa de calçados e acessórios que leva seu nome deve faturar, este ano, R$ 6 milhões. Mas é claro que entre seus 88 funcionários Franziska tem espaço para o trabalho masculino. “Os dois gerentes da fábrica são homens. Os sapateiros não obedecem ordens de mulher de jeito nenhum.”

O arranhão no machismo é ainda mais fundo em outros setores. “Para não generalizar, digo que 90 por cento dos meus clientes querem ser atendidos por professoras, jamais por professores”, calcula a empresária Carla Zindel, da Holdinng, uma estrutura de ensino de línguas a altos funcionários de multinacionais com ramificações por 30 grandes companhias. “Quando mergulha no trabalho, a mulher é mais detalhista e os homens percebem isso.”

Há, sim, muitas reclamações femininas quanto a existência nas empresas de barreiras invisíveis à sua escalada. “A cultura machista das grandes companhias está mudando, mas ainda há muito mais privilégio para os homens subirem na carreira do que para as mulheres”, reclama a advogada Tallulah Carvalho, da Associação das Mulheres de Negócios. Tanto assim que a massa salarial deles ainda é bem maior (leia quadro abaixo). “Numa mesma empresa, mulheres que ocupam o mesmo cargo de outros homens recebem salários e benefícios menores.” Empresas multinacionais e bancos são os principais suspeitos desta prática diferenciada ilegal. Em lugar, porém, de saírem às ruas queimando sutiãs em protesto, as mulheres de hoje estão mais pragmáticas. Silentes, dão pulos de gatas e deixam ao patrão macho o ônus da busca. E isso porque Hillary Clinton ainda não é presidente dos EUA!

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