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ECONOMIA/CIDADES INVENTADAS
Foto: Anderson Schneider
REFORMA GERAL: Obras patrocinadas pelo Estado da Bahia, com mais de 700 construções, transformam um lugarejo na cidade Luís Eduardo Magalhães
Nasce um município
Criação desenfreada de novas localidades vai esbarrar em lei que acaba com vantagens

Fabiane Stefano

O Brasil tem 5.507 municípios. Isso segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral esse número é de 5.548. Por enquanto. Essa discrepância se explica pela facilidade encontrada na Constituição para a criação de novos municípios. De 1988 para cá, foram criadas 1.327 cidades, mas nem todas têm sua vida legal reconhecida. Essa máquina de inventar cidades está produzindo um novo município que pretende figurar no mapa brasileiro: Luís Eduardo Magalhães. No oeste da Bahia e vizinho ao Estado de Tocantins, ele leva o nome do deputado falecido em 1998, filho do presidente do Senado Federal, Antônio Carlos Magalhães. Mas, antes mesmo de sair de fato do papel, a nova cidade com 18 mil habitantes e arrecadação mensal de R$ 800 mil é notório alvo de críticas. “É um processo viciado e inconstitucional”, disse Saulo Pedrosa, deputado federal pelo PSDB e pré-candidato à Prefeitura de Barreiras, cidade que cedeu 38% de seu território para a nova cidade. Durante o processo de emancipação, apenas os futuros cidadãos “eduardenses” foram consultados, embora a Constituição determine que todos os habitantes do município em processo de divisão opinem sobre a questão. Até o prefeito de Barreiras, Antonio de Souza Moreira, que perdeu território, receita e eleitores, aplaudiu.

Embora o caso de Luís Eduardo seja atípico, pela presença política do senador ACM, a proliferação de municípios é um problema conhecido, a ponto do senador Geraldo Althoff defender um projeto de emenda constitucional que iniba a criação desenfreada. Dos 1.327 novos municípios – 24,1% do total do País – , metade tem menos de 5 mil habitantes. E para cada nova cidade criada, uma administração municipal é empregada. “São nove vereadores, um prefeito e um subprefeito, no mínimo”, fala o pesquisador Gustavo Maia Gomes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), autor de um estudo sobre o tema. Ou seja, foram criados 14,6 mil novos postos de trabalho, sem contar os inúmeros secretários, assessores e burocratas que compõem as folhas de pagamento das prefeituras. Toda essa estrutura é mantida pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que no ano passado recebeu R$ 13 bilhões do Tesouro Nacional. O critério para o acesso à verba do FPM é populacional, mas quanto mais municípios são criados, a fatia do bolo para cada um emagrece. Uma das conclusões da pesquisa do Ipea é que esses recursos estão sendo consumidos nos pagamentos dos salários de vereadores, funcionários e políticos. Sobrando menos dinheiro, o investimento em serviços públicos, como educação, saúde e segurança pública, mingua. Para o senador Althoff, do PFL de Santa Catarina, há um claro abuso. “Estão sendo criados currais eleitorais, sem nenhuma viabilidade econômica.” Seu projeto prevê novas regras para o tema. A comunidade candidata a se transformar em cidade deve ter 40% da população e 10% da receita tributária do município original. E não é só isso. Se aprovado, o projeto propõe que quem não for capaz de se sustentar, vai voltar para a cidade de origem. “Quem não tem competência, deverá ser reaglutinado”, diz Althoff.

OS CUSTOS DAS CIDADES
Gastos são maiores no micro e nos mega municípios
Número de habitantes no município Total de receita própria arrecadada Gastos em reais por habitante com o legislativo a cada ano Custo em reais de um habitante a cada ano
até 5 mil 8,9% 20,6 431,3
5 mil a 10 mil 10,1% 13,7 269,4
10 mil a 20 mil 12,3% 11,0 220,2
20 mil a 50 mil 17,5% 10,5 208,3
100 mil a 500 mil 34,2% 14,7 271,4
mais de 1 milhão 55,9% 15,6 405,8

Promessa de pai. Por enquanto, a população de Luís Eduardo Magalhães aguarda para esta semana a decisão do TSE que garanta o primeiro pleito da cidade. Mas ninguém tem dúvida que a aprovação virá. A nova cidade conta com um padrinho poderoso e dedicado a perpetuar a memória do filho. “Enquanto tiver vida, vou dedicar parte da minha vida ao êxito do município Luís Eduardo Magalhães”, disse ACM na inauguração do busto do filho no trevo de acesso à cidade, na BR-424. O subprefeito garante que não houve nenhum interesse dos moradores do antigo distrito de Mimoso do Oeste em adotar o nome ilustre. “Não ganhamos nem pedimos nada”, conta Edaléio Barbosa de Souza, técnico agrícola que administra temporariamente a cidade. Pode ser coincidência, mas a cidade inteira está em obras e parte dos recursos é patrocinada pelo cofre do Estado.

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