 |
|
RECORDE: No ano em que FHC foi reeleito a venda de asfalto
chegou a 2 milhões de toneladas
|
Asfalto
que dá voto
Era verdade: estudo
da Petrobras comprova que em ano eleitoral o ritmo da pavimentação
aumenta. Quando os eleitores vão às urnas,
as empreiteiras fazem mais obras
Fernando
Thompson
Todo
ano de eleição é a mesma coisa. Eleitores vão
às urnas e as empreiteiras, às obras. Um estudo inédito
da Petrobras comprova em detalhes uma suspeita de todos os brasileiros:
as obras públicas aumentam em anos eleitorais. DINHEIRO teve
acesso a um gráfico elaborado por técnicos da estatal
que mostra a produção de asfalto no Brasil desde 1954.
Como se trata da única fabricante do produto no País,
a análise da venda comprova que as encomendas aumentam nos
anos eleitorais e diminuem nos anos em que não há
eleições. Os anos de 1988, 1992, 1994 e 1998 foram
os que registraram os picos no consumo de asfalto. Não por
acaso, anos eleitorais. O recorde nacional de produção
e venda de asfalto aconteceu em 1998, justamente o ano de reeleição
de Fernando Henrique Cardoso para a Presidência da República
e de escolha de governadores, senadores, deputados federais e estaduais.
Naquele ano, a venda de asfalto chegou às alturas: dois milhões
de toneladas.
Segundo
a Asssociação Brasileira de Distribuidores de Asfalto
(Abeda), este ano o consumo do produto deve crescer 20% em comparação
a 1999, por conta das eleições municipais. Ilonir
Antônio Tonial, engenheiro responsável pela área
de produtos asfálticos da Petrobras concorda com essa previsão.
O estudo da empresa mostra que no ano passado foi consumido 1,5
milhão de toneladas. Para este ano, a estatal estima que
a produção deve chegar a 1,8 milhão de toneladas.
Os técnicos da Petrobras estão apostando que no ano
de 2002, quando os brasileiros voltam às urnas para escolher
quem vai substituir FHC, deve-se registrar o novo recorde de produção,
algo acima de dois milhões de toneladas. Antônio Tonial
explica que a Petrobras tem dez unidades de produção
de asfalto espalhadas pelo País. Ao todo, a estatal tem capacidade
para produzir 3,5 milhões de toneladas por ano, mas o consumo
nacional não ultrapassa os dois milhões de toneladas
anuais. Realmente registramos o aumento do consumo em anos
de eleições, confirma o engenheiro.
A
proximidade da ida às urnas tem levado governos de todo o
País a anunciar novas obras. No Rio de Janeiro, um fato inédito:
o governador Antony Garotinho (PDT) e o prefeito Luiz Paulo Conde
(PFL) uniram-se para fazer um pacote conjunto de obras, orçado
em R$ 100 milhões. Na esfera federal, a história se
repete. Eleições à vista é sinônimo
de mais estradas pavimentadas. No Departamento Nacional de Estradas
de Rodagem (DNER), a informação é de que o
orçamento do Ministério dos Transportes, órgão
ao qual o DNER é subordinado, está sendo revisto para
se adequar ao corte de gastos determinado pelo governo federal.
Segundo a assessoria de imprensa do órgão, no ano
passado foram gastos R$ 418,7 milhões com a recuperação
e manutenção de estradas federais. Outros R$ 474,6
milhões foram utilizados para duplicação e
construção de novas rodovias da União. A
pressão eleitoral acaba provocando o acúmulo de obras
perto das eleições, admite o deputado Manoel
Castro (PFL/BA), presidente da Comissão de Tributação
e Finanças da Câmara e ex-prefeito de Salvador. Pelo
orçamento original, os gastos deste ano devem quase dobrar.
Com a manutenção e conservação, o volume
deve chegar a R$ 835 milhões, um aumento de 99,4% em apenas
um ano. Com a ampliação das rodovias, os gastos previstos
são de R$ 812,2 milhões, o que representa um crescimento
de 95,9% em relação ao orçamento de 1999.
Aumento
de preço. Os eleitores, além de terem de ver as
cidades transformadas em canteiros de obras, também estão
pagando mais caro pela pavimentação e construção
de novas estradas. Segundo a Abeda, o preço do asfalto já
subiu 23% este ano. E a conta pode ficar ainda mais salgada, já
que a Petrobras pretende pedir à Agência Nacional de
Petróleo (ANP), que controla o preço do produto, mudanças
na fórmula que fixa o valor da tonelada do asfalto. O gerente
de produtos asfálticos da empresa explica que o preço
de venda do asfalto nacional é fruto de uma complicada fórmula
paramétrica que acompanha a variação da cotação
do produto nos Estados Unidos. Atualmente, o preço da tonelada
do asfalto nacional é vendida pela Petrobras para as distribuidoras
brasileiras por US$ 131. No mercado norte-americano, esse valor
sobe para US$ 184. A estatal quer receber mais pelo asfalto que
vende. O diretor-presidente da ANP, David Zylberzstajn, assegura
que ainda não recebeu nenhum pedido de reajuste da estatal.
Mas se o aumento sair, as distribuidoras já decidiram: repassam
o reajuste.
|