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ECONOMIA/CADE
Arte: Jayme Leão
MENSAGEM CIFRADA: “Sei lidar com pressões e tenho tradição, mas não sou perfeito”
Missão Impossível
O juiz João Grandino Rodas diz estar pronto para os riscos de seu novo cargo, a presidência do explosivo Cade

Fabiane Stefano

Otimismo em pessoa, o jurista João Grandino Rodas considera-se feliz por entrar num silo de pólvora com um pavio aceso. Ele aposta que sairá ileso das inevitáveis explosões. Impossível? Acompanhe os capítulos desta aventura nos próximos dois anos, período em que Rodas cumprirá o mandato de presidente do Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica encarregado de julgar interesses conflitantes representados hoje por 300 processos à espera de definição. “Não sou perfeito, mas tenho boa vontade”, afirma este paulistano de 53 anos que nos últimos oito perdeu o filho único num acidente de carro, nos Estados Unidos, e, mais tarde, no Brasil, viu a própria mulher falecer. “Sei lidar com pressões.”

Caso se confirmem as previsões de aprovação na sabatina a ser feita no Senado, que pode ocorrer nesta semana, o Cade terá um presidente de currículo robusto e forte inclinação para frases dúbias. “Eu tenho tradição como juiz e acho que devemos deixar o Cade com um caráter de tribunal administrativo, onde se aplica a lei, como em qualquer outro tribunal administrativo, mas que tem especificidades bastante grandes, próprias do direito antitruste”. Para ele, um dos aspectos “primordiais” de toda a resolução é que ela venha pronta. “A resolução tardia não resolve.”

O novo homem do Cade, de saída, resolveu um problema interno do governo. A indicação de seu nome evitou uma pendenga que ameaçava se instaurar entre os intocáveis Pedro Malan e José Serra, cada um com um candidato diferente para a mesma cadeira. Além de agradar aos dois, o delfim sacado das relações pessoais do ministro José Gregori tem em seu antigo professor Fernando Henrique Cardoso um ídolo do qual guarda com carinho uma foto autografada. “Ela vai comigo para Brasília”, diz. Com este rol de amigos e conhecidos no poder, Rodas admite que foi um dos primeiros a imaginar a chance de ser indicado para o lugar que pertenceu, nos últimos quatro anos, ao economista Gesner de Oliveira. “Foi felling. Quando tomei conhecimento, concordei plenamente.”

O principal juiz das causas antitruste em curso no País é visto por um de seus amigos como um “diplomata estratégico, nada operacional”. Trocando em miúdos, o que mais se comenta entre os que conhecem Rodas é que se trata de um bom coordenador de equipes, mais inclinado a tomar decisões em grupo do que sozinho. Ele confirma. “O Cade é um conselho com sete membros, não há uma decisão solitária”, reflete. “É por isso que há pessoas mais dedicadas ao Direito e outras à Economia, porém existem muitas decisões administrativas que são apenas do presidente. Essas eu vou tomar sozinho, mas são as menos relevantes para a economia, para o Brasil".

BARRIL DE PÓLVORA
Governo X Laboratórios de Medicamento
O Ministro da Fazenda acusa as fabricantes de remédios Roche e Basf de formação de Cartel
Médicos X Empresas de Medicina de Grupo
Associação médica Brasileira diz que honorários pré-estabelecidos são desrespeitados pelas administradoras de planos de saúde.
Setor de Autopeças X Siderurgicas
Fornecedores da indústria automobilística denunciam empresas siderúrgicas por cartelização de preços de matéria-prima.

Como o Cade está sem quórum para se reunir, todas as previsões dão conta de que a aprovação pelo Senado deva ocorrer rapidamente. Atento à proximidade da data, Rodas já pediu demissão do cargo de diretor do curso de Direito da Universidade da Cidade, mas não pretende abrir mão da cadeira de titular de Direito Internacional da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde leciona há 30 anos. Nas horas vagas, está debruçado sobre dois tipos de leitura. Em história, avança pelos costumes da civilização inca nos instantes anteriores à invasão espanhola. Em relatórios, dedica-se a estudar as últimas decisões do Cade. “De forma genérica, verifico que eles trabalharam bastante.”
– E trabalharam bem?
“É difícil dizer no momento, ainda não me detive com grande detalhamento nos processos.”

Não será fácil para ele manter em seu novo cargo este estilo ambivalente. Na semana passada, a última disputa a dar entrada no Cade foi uma acusação de formação de cartel, feita pelas empresas de autopeças contra as indústrias siderúrgicas. São esperadas como peças de resistência aquisições, fusões e associações entre companhias que, seguindo a tendência internacional, primeiro fecham negócio para depois enfrentar os protestos dos governos e da concorrência. “A globalização não é um fenômeno novo e tem aspectos positivos, mas nem sempre a mesma solução serve para todos os casos”, adianta o professor e juiz federal que nos últimos cinco anos faz parte do grupo de 11 integrantes da Comissão Jurídica Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA). Experiência, fibra e jogo de cintura ele tem de sobra. Resta saber se, mesmo assim, conseguirá cumprir sua próxima e emocionante missão.

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