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ECONOMIA/COMUNICAÇÃO
Foto: Gustavo Lourenção / Biô Barreira
MARINHO E SAAD: “Há conversas com todo mundo”, diz o sócio da Globo. “Muita gente me procura”, ecoa o dono da Band
O Novo enigma
Empenho pessoal do presidente, consenso entre empresários e base de apoio político foram insuficientes para levantar o manto da reserva de mercado nas comunicações. Por quê?

Marco Damiani

Box: Na internet já pode

Um enigma está plantado no centro da vida econômica brasileira. Como pode emperrar um projeto de modernização que tem apoio pessoal do presidente, suporte entusiasmado da iniciativa privada e obteve aval das lideranças no Congresso? Pois foi o que aconteceu na quarta-feira 14, quando o País se preparava para ver cair a última porteira setorial: aquela que impede a entrada de capital estrangeiro na área de comunicação. Havia no plenário da Câmara 440 deputados prontos para votarem a emenda que modifica o artigo 222 da Constituição, aquele onde se aloja o anacronismo. Ele estabelece que a propriedade de jornais, revistas, rádios e tevês está limitada às pessoas físicas com nacionalidade brasileira. Esperava-se que esse artigo começasse a ser trocado, na semana passada, por uma emenda que prevê a entrada de investidores estrangeiros nas empresas de comunicação até o limite de 30% e também possibilita a presença de pessoas jurídicas de capital nacional em até 100% na mídia impressa e 30% na eletrônica. “A lei vai passar como está. Eu não vetarei”, avisou o presidente Fernando Henrique na terça-feira 13, no Rio, durante o Congresso Mundial dos Jornais. Ele próprio havia coordenado as conversas entre empresários e, com eles, num jantar na casa do presidente da Câmara, Michel Temer, um mês atrás, alinhavou os últimos detalhes sobre os porcentuais da abertura ao capital estrangeiro e nacional. Enigmaticamente, a lei não passou. Uma manobra parlamentar do deputado Aloizio Mercadante, do PT de São Paulo, remeteu o assunto para a pauta do próximo dia 28. A prevalecer o retrospecto, a emenda poderá sofrer adiamentos que a levaria a ser apreciada apenas depois do segundo turno das eleições municipais. Apesar, repita-se, do consenso empresarial e do apoio da base governista. Como?

Entre empresários do setor, o adiamento e as incertezas despertaram consternação. À frente de um negócio que fatura cerca de US$ 7 bilhões ao ano, e inclui-se como sexto colocado no ranking mundial de faturamento publicitário, eles são unânimes em reconhecer que a lei atual, inspirada por um decreto getulista baixado em 1934, tem de ser derrubada. Para o bem do setor. “Tal como está no texto a ser votado pela Câmara, a mudança constitucional vai beneficiar a todos”, disse a DINHEIRO o vice-presidente das Organizações Globo, José Roberto Marinho. “Da mesma forma que permite imaginarmos associações aqui, ela nos anima a pensar novamente em investir lá fora”. A Globo tem recebido nas últimas semanas acenos dos grupos Televisa, do México, e Cysneros, da Venezuela, interessados em participar da empresa cujo valor é estimado em US$ 15 bilhões. “Na verdade, todo mundo conversa conosco”, diz José Roberto. De fato. “Um canal brasileiro é altamente prioritário para nós”, declarou na semana passada, em Atlanta, o presidente da Turner Broadcast System (TBS), dona do canal de notícias CNN. “Estamos conversando com a Globo, o SBT e outras, mas não há nada específico.” Paulo Cabral, diretor-presidente do jornal Correio Braziliense e presidente da Associação Nacional dos Jornais, diz que a mudança constitucional permitirá que as empresas brasileiras se “fortaleçam” financeiramente. “Não temos medo de concorrência”, afirma Rodrigo Mesquita, diretor da Agência Estado. Com a proposta de abertura do setor também concorda a Editora Abril. O empresário Roberto Civita foi um dos mais empenhados em trabalhar por sua aprovação. Na quarta-feira 14, ele telefonou duas vezes ao relator Henrique Alves. “Roberto queria até o fim chegar aos 49%, mas aceitou o texto original”, diz o relator. Civita compreendeu que àquela altura mexer em qualquer ponto delicado poderia abalar o consenso firmado anteriormente. Com tanto apoio, vindo dos principais interessados, o que poderia derrubar um projeto como esse?

Foto: Anderson Schneider / Ciete Silvério
ALVES E MESQUITA: “Melhor adiar”, falou o relator. “Não temo a concorrência”, garante o diretor do Grupo Estado

No mesmo dia em que Civita ligava para Brasília, teve início, a partir das duas da tarde, uma reunião entre líderes de todos os partidos no gabinete de Temer. Ao final, os integrantes da base governista fecharam questão a favor do relatório do deputado Henrique Alves. Mas nem todos os políticos à mesa estavam felizes. Mercadante apresentou a idéia de incluir na emenda a criação de uma agência reguladora para fiscalizar as empresas do setor, nos moldes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Quem garante que os novos sócios das empresas brasileiras não vão provocar desemprego?”, questionou. Ele também argumentou que, do jeito que está, o texto permite a uma só empresa estrangeira adquirir 30% de quase todas as empresas nacionais. Ao acionar os motores da máquina oposicionista e rapidamente atrair as bancadas do PC do B e do PDT, Mercadante simultaneamente acendeu uma luz amarela entre os líderes governistas. “Se não houver pelo menos 460 deputados em plenário, é melhor adiar”, dizia o relator Alves. No plenário da Câmara, eram sete da noite quando a contagem indicou que faltavam 20 parlamentares para que fosse atingido o quórum considerado seguro. Foi dada a ordem, então, de adiamento da votação. Por que, no limiar de um processo de mais de um ano de negociações, ainda assim não havia segurança para se colocar a matéria a voto?

“Foi uma grande decepção”, comentou José Antônio Nascimento Brito, diretor-presidente do Jornal do Brasil. “Estamos esperando esse projeto sair há anos e mais uma vez ele foi adiado.” O grupo carioca já abriu negociações com um grupo canadense e com o brasileiro Opportunity, mas Nascimento Brito nega que algum acordo já tenha sido fechado. O empresário Johnny Saad, presidente da Rede Bandeirantes de Televisão, também desanimou. “Para este ano, não acredito mais”, disse ele à repórter Fabiane Stefano, na sede da emissora, em São Paulo. “Acho que não fizemos direito nossa lição de casa.” Nos últimos meses ele tem recebido visitas de muita gente interessada em investir em seu negócio. “Há, de fato, muito interesse do capital estrangeiro.”

Logo após comandar a retirada da emenda da pauta de votações, o relator Alves já aceitava modificar o texto e incluir a criação da agência reguladora. Esse acréscimo, porém, pode esfarelar o consenso entre os empresários. “É uma idéia absolutamente anacrônica”, critica o diretor-superintendente do Grupo Folha, Antonio Manuel Mendes Teixeira. Há problemas à vista. “Já sabíamos que não haveria quórum e também não haverá no dia 28”, prevê o deputado federal Bispo Rodrigues, do PL do Rio. Ele é líder da bancada evangélica na Câmara e representante da rede Record. Até o dia 28, o enigma permanece.

Colaborou Fernando Thompson

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