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RIZKALLAH:
Estamos perdendo o jogo. Esta é a chance de voltarmos
a ganhar
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Bovespa
é salva do naufrágio
Torpedeada na
guerra contra os ADRs, bolsa paulista se agarra a projeto de pregão
global para garantir sua sobrevivência
Lucia
Kassai
Que
o barquinho da Bovespa vem fazendo água há algum tempo,
não é novidade. Mas, no fechamento da movimentação
de maio, soou um alarme. Foi constatado que, desde o início
do ano, as operações com American Depositary Receipts
(ADRs) de empresas brasileiras totalizaram US$ 8 bilhões,
mais do que os US$ 7,3 bilhões registrados na Bolsa de São
Paulo. Na prática, isso significa que as ações
de companhias brasileiras são mais negociadas fora do que
dentro do País. Além disso, no mesmo período
de tempo, os estrangeiros tiraram US$ 2 bilhões do pregão
brasileiro, o pior resultado desde o início do plano Real.
Como num navio que está adernando, muitos correram para os
salva-vidas. Corretoras como BBA e Icatu, ou Fator e Doria Atherino
se associaram para sobreviver. Detalhe: enquanto a Bovespa é
invadida pelas águas, em outros mares os negócios
vão de vento em popa.
Em
meio à maré de más notícias, a Bovespa
anunciou na semana passada que está se agarrando a uma bóia
salva-vidas. Ela irá juntar-se ao Global
Market, o projeto que associará 10 bolsas de valores
em todo o mundo. Dela fazem parte os mercados de Nova York, Tóquio,
Toronto, Hong Kong, Austrália, Paris, Bruxelas, Amsterdã
e México que, juntas, negociam empresas avaliadas em US$
20 trilhões, o correspondente a 60% do mercado mundial de
ações. Estamos perdendo o jogo. Esta é
a oportunidade de voltarmos a ganhar, disse Alfredo Rizkallah,
presidente da Bovespa, com ares de quem dá uma cartada final.
No dia 19 de junho será assinado, em Nova York, o protocolo
que define a integração.
O
mercado global poderá levar anos para começar a funcionar,
na prática. Isso depende não só de detalhes
técnicos, como a integração dos sistemas de
negociação de todas as bolsas, mas, acima disso, da
boa vontade das CVMs e bancos centrais de cada país em se
adequar a regras comuns. Em um lugar como o Brasil, onde o controle
de capitais é utilizado como instrumento de política
monetária, as perspectivas são desanimadoras. A Bovespa
chegou a estudar uma associação com a Nasdaq, mas
desistiu quando percebeu que os americanos queriam que a Bovespa
fosse mais uma sob as asas da Nasdaq. A união
com a NYSE dá à Bolsa de São Paulo o status
de líder regional na América do Sul.
| QUEM
ESTÁ NO BARCO DO GLOBAL MARKET |
BOVESPA
Chegou a ter mais de US$ 1 bilhão em negócios
por dia em 1997. Perdeu força após a crise da
Ásia e hoje não chega a US$ 500 milhões |
NYSE
A nova economia não tirou da Bolsa de Nova York o posto
de maior do mundo. Foi palco de US$ 8,3 trilhões
em negócios no
ano passado |
BOLSA
DE TÓQUIO
Mais influente
mercado de
capitais da Ásia, indica tendências para a região.
Movimentou um total de US$ 6,3 bilhões em 1999 |
Enquanto
a união não sai, a Bovespa luta contra a migração
em massa dos negócios para Nova York. Na última década,
os programas de ADR de companhias em todo o mundo passaram de 352
para 1.800. Nesse bolo, o Brasil merece destaque, segundo relatório
do Bank of New York. Há 34 companhias brasileiras listadas
na bolsa americana, mas são justamente aquelas de maior liquidez.
E há outras a caminho, como a Sabesp, a Light e Vale do Rio
Doce. Existem pelo menos 10 empresas brasileiras aguardadas
ansiosamente em Nova York, entre elas o Banco do Brasil, comenta
um operador de Nova York.
Operar
em Nova York é mais barato, mais seguro e mais confortável.
Quem não quer?, diz Orlando Viscardi, diretor de ADRs
do Citibank. É mais barato porque não tem incidência
da CPMF. Mais seguro porque o investidor evita o risco cambial.
E mais confortável porque ele já conhece as práticas
de mercado americanas. Por conta dessa efervescência, muitas
corretoras brasileiras abriram escritórios em Wall Street
para atender principalmente os clientes de língua portuguesa.
BBA Icatu, Opportunity, CSFB Garantia, BBM e Fator estão
lá. A Indusval, de olho no aumento das negociações,
alugou uma cadeira na Bolsa de Nova York por US$ 300 mil. E colocou
um operador no pregão. Operamos diretamente no pregão,
sem intermediários. Com isso, ganhamos alguns segundos, vitais
no mercado financeiro, disse John Carioba, diretor da corretora.
A febre das ADRs não pode, porém, ser responsabilizada
por todos os males. O capital estrangeiro foi embora porque
é caro investir no País. Enquanto
essa estrutura não mudar, o dinheiro não volta,
acredita Viscardi. A Bovespa luta para sobreviver até lá.
Uma das propostas do Global Market é dar fim às ADRs.
Todas as ações seriam negociadas diretamente nesse
pregão global. Resta saber se a Bovespa vai se manter na
tona até lá.
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