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ARMÍNIO
FRAGA
Números
de Fraga
O presidente
do Banco Central diz que o vendaval ainda não acabou, mas
sustenta que o País está no caminho de ganhar credibilidade
e cobrar taxas de juros menores
Expedito
Filho, Ivan Martins e Estela Caparelli
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O presidente
do Banco Central do Brasil está tranqüilo, muito tranqüilo.
Na sua vasta sala, o único vestígio de fumaça
é emitido por um vaporizador, que tenta mitigar a secura
do outono no cerrado. Como tudo mais em volta da mesa de Armínio
Fraga, também isso já estava lá quando ele
chegou, em março de 1999, em meio ao vendaval da desvalorização
do real e da saída de seu antecessor, Francisco Lopes. Só
trouxe para esta sala o retrato dos meus filhos, diz o economista
de 42 anos. Na verdade, Fraga trouxe para o BC um tanto mais do
que isso. Ele e sua equipe de jovens acadêmicos e raposas
do mercado imprimiram ao BC uma concepção pragmática,
liberal, em franca harmonia com as idéias vigentes nas mesas
de operação e nas grandes instituições
internacionais. Disso resultou um punhado de resultados que o ex-executivo
de George Soros exibe com orgulho mal contido: queda da inflação,
câmbio estável e economia em crescimento. Fraga diz
também que a taxa básica de juros e os juros reais
cobrados ao tomador final caíram, mas nessa avaliação
ele está mais ou menos sozinho. O Brasil tem o juro real
mais alto do mundo e o setor produtivo precisa desesperadamente
de um respiro, que ainda não veio. No final da tarde da quarta-feira,
dia 7, um Fraga feliz e bem humorado disse à equipe de DINHEIRO
que o alívio virá: Estes últimos meses
foram terríveis e o País resistiu bem. Mas a situação
vai melhorar e os juros vão cair. O presidente do BC
espera, agora, uma definição do cenário americano
para seguir na trajetória de queda da Selic, interrompida
em março. O Brasil espera com ele. E tem pressa.
DINHEIRO
O Banco Central acaba de anunciar mais uma redução
do compulsório, de 55% para 45% dos depósitos bancários.
A que percentual o sr. pretende chegar?
FRAGA Nós reduzimos o compulsório dos
depósitos a prazo para zero e o dos depósitos a vista
caiu de 65%, lá atrás, para os 45% agora. O melhor
é que desde que começamos este processo, em novembro
de 1999, observamos uma queda no spread bancário. Ele caiu
52% para um número preliminar em maio abaixo de 40%. É
bom lembrar que o spread chegou a um pico de 68%, dois anos atrás.
A trajetória e boa, sabemos onde queremos chegar e temos
aproveitado as oportunidades.
DINHEIRO
Fala-se que o compulsório pode ficar entre 15% e 25%
dos depósitos...
FRAGA É isso.
DINHEIRO
Quem garante que essa liberação do crédito
vai chegar ao tomador final?
FRAGA O que garante que esse desconto vai ser repassado
ao consumidor é a competição. A lógica
desse processo é dar mais margem e trabalhar com a concorrência,
para que essa margem seja transferida ao consumidor. Até
agora, todos os sinais que temos é de que isso está
acontecendo.
DINHEIRO
O sr. acredita que a economia vá crescer 4% do PIB
este ano?
FRAGA A minha expectativa quatro ou cinco meses atrás
era de um crescimento superior a 4%. Em função do
que tem acontecido no ambiente internacional taxa de juros
subindo muito, o petróleo dobrou, problemas na América
do Sul o que eu achava que era tranqüilamente superior
a 4%, agora acho que está razoável em 4%. Apesar desse
vento contra fortíssimo que estamos pegando, este cenário
ainda é razoável.
DINHEIRO
Onde o vento contra está nos pegando?
FRAGA No caso do petróleo, é um problema
de oferta. A elevação de preços traz custos
para a sociedade, para o consumidor, reduzindo o nível de
renda, aumentando custos. No caso do juros, afeta os canais financeiros
tradicionais, exerce influência em nosso prêmio de risco.
Também atinge o câmbio, que tem impacto na inflação.
Enfim, é um conjunto. Apesar disso, as coisas, na minha avaliação,
estão bem posicionadas. Pegamos essa turbulência toda,
mas estamos investindo na direção certa. Nos preparamos
para a festa, choveu um pouco no dia, mas é assim mesmo.
DINHEIRO
Como o sr. vê o estudo do BIS divulgado esta semana
sobre a vulnerabilidade dos países emergentes?
FRAGA O BIS falou do déficit em conta corrente.
O nosso está em torno de US$ 23 bilhões, mas chegou
a US$ 34. Diminuiu bastante e hoje tem cobertura total do investimento
direto. Claro que vai ter um ciclo, que isso vai diminuir, mas eu
não creio que o Brasil hoje tenha, num horizonte de curto
prazo, sequer de médio prazo, perspectiva de uma grande queda
no investimento direto. Não vejo isso.
DINHEIRO
Mas há o problema da fragilidade externa...
FRAGA Que fragilidade?
DINHEIRO
O passivo de US$ 23 bilhões e a necessidade...
FRAGA Me desculpe, mas é aí que eu volto
ao ponto anterior: por que estamos hoje no meio dessa tormenta,
mas seguindo firme na direção desejada? Porque a questão
fiscal foi corrigida. O maior fator de vulnerabilidade não
é o fato de você estar absorvendo a poupança
externa, é a forma como você absorve essa poupança
externa. E a absorção no Brasil está sendo
feita da maneira correta, que contribui para o desenvolvimento do
País. Não é um dinheiro de curto prazo financiando
consumo.
DINHEIRO
Por que, então, nós ainda temos a maior taxa
de juros do mundo? Não é por causa da vulnerabilidade
à turbulência externa?
FRAGA Você tem que ver de onde nós viemos.
O Brasil saiu de uma taxa de juros real de vinte e tantos por cento
e hoje está com uma taxa em torno de 10%. Você tem
de olhar a trajetória. Não tenho a menor dúvida
que temos o problema de credibilidade, que está diretamente
ligado à nossa história recente. Isso é ponto
pacífico. Mas se você pensar nas variáveis fundamentais
que determinam este resultado, elas estão sendo corrigidas.
Me parece que hoje é uma questão de persistirmos nesse
caminho.
DINHEIRO
Mas não é possível que se faça
toda a lição de casa, que tenha indicadores perfeitos,
mas aconteça alguma coisa com os juros americanos e todo
esforço vá por água abaixo?
FRAGA Isso já aconteceu. Já vivemos
isso no início deste ano, de fevereiro para cá. ,Pode
piorar? É claro, você sempre pode imaginar um cenário
pior, mas este é bastante ruim. Estou tentando demonstrar
com dados que a nossa economia continua seguindo numa trajetória
positiva, de crescimento, emprego, investimento, exportações.
Esse arcabouço econômico vai nos dar uma trajetória
de juros real decrescente.
"Eu
não controlo o preço do petróleo, os juros
americanos e nem as nossas
exportações" |
DINHEIRO
Vários economistas acreditam que o juro não
vai cair, por causa do modelo de financiamento externo.
FRAGA Eu já fiz um exercício com analistas
competentes, perguntando o seguinte: imagine você num país
com as características que acabei de descrever. Qual é
o prêmio de risco que esse país paga? Certamente é
um prêmio de risco menor do que o nosso. A pergunta é
por quê? Porque é um momento de transição,
de se acumular credibilidade. É um processo gradual, mas
que está acontecendo.
DINHEIRO
Um dos fatores fundamentais da credibilidade é o superávit
primário, e ele está custando um sacrifício
bárbaro do ponto de vista do serviço público.
FRAGA Comparado com o quê? Qual a alternativa?
DINHEIRO
O próprio presidente disse na semana passada que esse
esforço de ajuste não pode ser mantido indefinidamente.
FRAGA Veja bem, acho que não podemos cair na
ilusão de que dá para tirar coelho da cartola, recursos
do nada. É aquela velha regra da finitude do PIB. A longo
prazo, à medida em que o País adquira credibilidade,
não será necessário esperar um superávit
primário de 3% do PIB. É só fazer contas. Para
manter a estrutura de dívida em dia, não é
preciso manter um superávit primário do tamanho do
nosso. De certa forma, pagamos os pecados daquilo que ocorreu na
década de 80 e no início da década de 90. Não
dá para apagar essa história com a borracha.
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