|
O
ponto da ruptura
Até
quanto o corte de um orçamento pode ir sem esbarrar no
limite da ruptura social? Os países vizinhos Brasil e Argentina,
em condições e circunstâncias diferentes,
colheram na semana passada exemplos de quão arriscado pode
ser o teste desse limite. E, em ambos os casos, a reação
foi de surpresa e indignação, por parte dos governantes,
com a explosão das ruas. Entre os portenhos, o corte de
30% do salário de funcionários públicos e
nas aposentadorias entornou o caldo. O que era expectativa por
soluções do novo presidente de la Rua, transformou-se
em revolta. Panelaços, apagões, greves. O povo argentino
está dizendo não quando chamado, novamente, a dar
a maior cota do sacrifício. No mais rico Estado brasileiro,
São Paulo, os protestos, a revolta, tomaram forma de anarquia.
O governador Mário Covas, em mais de uma ocasião
no espaço de duas semanas, foi confrontado, agredido, a
golpes de pedradas, paus, tinta, laranja, o que surgisse à
mão do opositor. Covas, antes receptivo, dizendo compreender
a causa dos professores públicos alguns com salários
congelados até por quatro anos , tomou-se de fúria.
A leitura imediata dos acontecimentos, no Brasil e na Argentina,
traz a óbvia lição de que não existe
tolerância infinita, de qualquer que seja o lado, tanto
dos manifestantes como do que virou alvo. Sucessivos governantes
foram em busca sempre da mesma fonte para cobrir buracos e deram
combustível para o estouro da paciência. Toda forma
de violência é condenável, mas no quadro em
que uma maioria se sente absolutamente injustiçada surge
espaço para que minorias de várias matizes aproveitem.
Na experiência brasileira, a conseqüência é
mais grave: dia a dia vem se criando no País a mentalidade
de que o funcionalismo público é nocivo, quando
na verdade ele sobreviveu como fundamento, base, da melhor parte
da burocracia do Estado.
Carlos
José Marques
|