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Foto: Gustavo Lourenção

O ponto da ruptura

Até quanto o corte de um orçamento pode ir sem esbarrar no limite da ruptura social? Os países vizinhos Brasil e Argentina, em condições e circunstâncias diferentes, colheram na semana passada exemplos de quão arriscado pode ser o teste desse limite. E, em ambos os casos, a reação foi de surpresa e indignação, por parte dos governantes, com a explosão das ruas. Entre os portenhos, o corte de 30% do salário de funcionários públicos e nas aposentadorias entornou o caldo. O que era expectativa por soluções do novo presidente de la Rua, transformou-se em revolta. Panelaços, apagões, greves. O povo argentino está dizendo não quando chamado, novamente, a dar a maior cota do sacrifício. No mais rico Estado brasileiro, São Paulo, os protestos, a revolta, tomaram forma de anarquia. O governador Mário Covas, em mais de uma ocasião no espaço de duas semanas, foi confrontado, agredido, a golpes de pedradas, paus, tinta, laranja, o que surgisse à mão do opositor. Covas, antes receptivo, dizendo compreender a causa dos professores públicos – alguns com salários congelados até por quatro anos –, tomou-se de fúria. A leitura imediata dos acontecimentos, no Brasil e na Argentina, traz a óbvia lição de que não existe tolerância infinita, de qualquer que seja o lado, tanto dos manifestantes como do que virou alvo. Sucessivos governantes foram em busca sempre da mesma fonte para cobrir buracos e deram combustível para o estouro da paciência. Toda forma de violência é condenável, mas no quadro em que uma maioria se sente absolutamente injustiçada surge espaço para que minorias de várias matizes aproveitem. Na experiência brasileira, a conseqüência é mais grave: dia a dia vem se criando no País a mentalidade de que o funcionalismo público é nocivo, quando na verdade ele sobreviveu como fundamento, base, da melhor parte da burocracia do Estado.

Carlos José Marques

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