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NEGÓCIOS/TRANPORTES
Foto: AE / Pedro Agilson
SEM APOIO: Falco (à esq.), da TAM, e Gandra, do SNEA, não acreditam que concorrentes estrangeiros sobrevivam aos custos brasileiros
Novos ares na aviação
Projeto no Congresso propõe que companhias estrangeiras concorram com as empresas nacionais na disputa pelos vôos domésticos

Paula Pacheco

De tempos em tempos, surge em Brasília um remédio para tentar aplacar a crise no setor aéreo. O mais novo antídoto é a abertura dos céus brasileiros às companhias estrangeiras. Isso mesmo. Está tramitando no Congresso um projeto de lei do deputado mineiro Eliseu Resende propondo, além da criação da Agência Nacional dos Transportes, que as empresas internacionais possam fazer os vôos domésticos. Para isso, elas teriam de abrir uma firma local e assim passariam a concorrer com a TAM, Transbrasil, Varig e Vasp. Difícil imaginar, mas seria o mesmo que criar uma United ou uma British do Brasil.

À primeira vista, a idéia do deputado Resende parece ser um prato cheio para os estrangeiros. Com custos mais baixos do que os concorrentes locais, elas teriam condições de arrebanhar os turistas brasileiros que só não viajam mais de avião por causa do preço da passagem. Hoje no Brasil apenas 25% dos passageiros viajam a lazer; a maioria usa o transporte aéreo a trabalho. Mas americanos e europeus não estão lá muito interessados na oferta – pelo menos este é o discurso inicial. Segundo Christophe Didier, diretor da Delta para o Mercosul, a tendência no mundo é de as empresas reduzirem seus custos buscando associações, como a que criou a Star Alliance, formada pela Varig, United, Lufthansa e Air Canada, entre outras. A própria Delta está se associando à Air France, Korean Airlines e à Aeroméxico para a formação de um novo pool, do qual a TAM também poderá fazer parte. Ou seja, é mais econômico fazer associações estratégicas do que sair montando operações pelo mundo. É o que pensa também o diretor geral da Air France no Brasil, Francis Richard. “Quando uma empresa opera rotas de 10 mil quilômetros de distância, é difícil pensar que ela fará o mesmo em vôos domésticos. Além disso, o mercado brasileiro tem quatro concorrentes e está bem atendido”, diz o executivo. Para o presidente da Continental no Brasil, Eric Papadelis, apesar de ainda não haver uma definição sobre o futuro dos vôos domésticos, se a sua companhia decidir investir em trechos como Manaus–Recife vai ter primeiramente de fazer adaptações, como, por exemplo, no atendimento de bordo.

Quem também não quer nem saber dessa história de estrangeiro voando por aqui é o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (SNEA). “Queria ver se os Estados Unidos permitiriam que nós voássemos no território deles”, provoca o brigadeiro Mauro Gandra, ex-ministro da Aeronáutica. Hoje, o que a lei permite é o chamado acordo de reciprocidade entre os governos. Nele, uma freqüência é concedida para um estrangeiro voar até o Brasil desde que o mesmo possa ser feito por uma companhia local no outro país. Em outras palavras, toma lá, dá cá. No momento, os Estados Unidos estão usando 102 freqüências por semana para o Brasil, enquanto que as companhias locais, apesar de terem autorização para usar a mesma quantidade, oferecem apenas 50. Esse número está tão aquém do limite autorizado porque os vôos estão saindo daqui com uma taxa de ocupação baixa. Quem precisa viajar, é óbvio, procura tarifas mais baratas. Como as empresas brasileiras têm custos mais altos, não conseguem dar descontos muito grandes no preço das passagens e perdem a preferência para a concorrência internacional. “Se tiverem de concorrer por aqui nas mesmas condições que as empresas nacionais, elas não vão agüentar os nossos custos”, diz Luiz Eduardo Falco, vice-presidente da TAM.

Por enquanto, a única empresa que mostrou interesse no projeto do deputado mineiro foi a Lan Chile, que já fez uma operação semelhante no Peru e está prestes a fazer o mesmo na Argentina. Com a iminência de falência da Aeroperu, a lei daquele país foi mudada e a Lan Chile pôde se associar com o grupo peruano Souza para a criação da Lan Peru, da qual tem 49% do capital. “Acho que a entrada dos estrangeiros ajudaria o usuário e melhoraria a qualidade do serviço”, diz Joaquim Gonçalves, diretor da Lan Chile. “Mas é claro que se tivermos de enfrentar o custo Brasil, a eficiência não será a mesma.”

Outro assunto que vem sendo debatido em Brasília é a possibilidade de aumentar de 20% para 25% a participação das companhias estrangeiras no capital das empresas aéreas brasileiras. A discussão é antiga e sempre esbarrou no fato de se tratar de uma área de segurança nacional. Mas dessa vez o governo tem pressa de encontrar uma solução por causa da crise no setor. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, não esconde a indisposição de dar qualquer ajuda financeira para salvar as empresas. Quer que elas saneiem suas finanças sozinhas e depois comecem um processo de pulverização do capital, hoje muito concentrado nas mãos dos acionistas majoritários. Seria uma maneira de começar um processo de profissionalização da aviação brasileira. Mas se depender do capital estrangeiro, a proposta não vai passar de intenção. “Quem é que vai pôr a mão no bolso para não poder influenciar nas decisões?”, questiona o executivo de uma dessas empresas.

Antes que qualquer uma dessas propostas decole, já começa a surgir resistência. A senadora Emília Fernandes, do Rio Grande do Sul, presidente da Comissão de Infra-estrutura, vai pedir na próxima semana a criação de uma subcomissão para discutir os assuntos ligados à aviação. “Antes de aprovar a participação dos estrangeiros no mercado brasileiro, é bom saber se as companhias locais poderão usufruir das mesmas condições competitivas. Senão, é o mesmo que decretar a falência delas”, analisa a senadora.

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