 |
|
EMÍLIO
ODEBRECHT: Expansão, diversificação
e muitas dívidas
|
Capital
fechado
A Odebrecht
decide recolher suas ações em poder do mercado e dá
mais um passo rumo ao enxugamento do grupo
Joaquim
Castanheira
Na
terça-feira, 30, às 9 horas, um grupo de cerca de
25 pessoas reuniu-se no 29º andar do Edifício Suarez
3, sede do grupo Odebrecht, em Salvador, na Bahia. Depois de apenas
45 minutos, sob uma salva de palmas protocolar, a pauta do encontro
estava aprovada: a Odebrecht fechará seu capital, numa
operação que consumirá entre US$ 80 milhões
e US$ 150 milhões. Não se trata de uma operação
isolada. O fechamento é mais uma etapa no profundo processo
de enxugamento, iniciado há mais de um ano por Emílio
Odebrecht, maior acionista desta que é uma das maiores
(e mais polêmicas) corporações empresariais
do País. A redução no portfólio de
negócios inclui a venda de suas participações
na Veracel, uma associação com os suecos da Stora
Enzo para a produção de celulose no sul da Bahia,
e no setor petroquímico.
O fechamento de capital pode ser um primeiro passo na busca de
um sócio estrangeiro para os negócios petroquímicos,
os mais problemáticos do grupo. Isso explica porque a Odebrecht
gastará um bom dinheiro em um momento em que está
mergulhada em dívidas. Além
disso, as ações no mercado não garantiam
uma fonte de recursos. Esses papéis não tinham
liquidez e a valorização era muito pequena,
diz Roberto de Paula Nunes de Campos, diretor da Kieppe, holding
que abriga os negócios da família Odebrecht. Os
investidores não queriam colocar seu dinheiro em uma empresa
que, ao mesmo tempo, atuava em mercados tão diferentes
como o petroquímico e o de construção pesada.
Encontrar
compradores será uma tarefa árdua. A Veracel, por
exemplo, é um projeto de US$ 1,8 bilhão, dos quais
US$ 300 milhões já foram consumidos na aquisição
da área e no plantio de eucaliptos. A Odebrecht aceita
qualquer negócio vende desde um pedaço até
a participação integral. Provavelmente não
arrecadará uma fortuna, mas se livrará de um negócio
com constante apetite por dinheiro, um artigo raro no grupo hoje
em dia.
 |
|
ROBERTO
CAMPOS: A ênfase em setores de capital intensivo assusta
os investidores
|
Além
disso, a Odebrecht venderá a participação
no Pólo Petroquímico de Camaçari. O principal
candidato à compra é outro grandalhão do
setor empresarial brasileiro, o Grupo Ultra. Só que esse
negócio está vinculado a uma ampla reestruturação
do setor petroquímico. Nela os participantes estabeleceram
uma espécie de jogo de xadrez para desembaraçar
o emaranhado de participações e cruzamentos entre
os diversos grupos. Nosso interesse é concentrar
as forças no Pólo de Triunfo, no sul do País,
diz Campos. Mas vamos sair de Camaçari de forma cautelosa.
Traduzindo: a Odebrecht vai vender caro seu pedaço no pólo
baiano.
Essa decisão carrega pouco de estratégia empresarial
e muito de pragmatismo. O grupo não teria bala na
agulha para manter os pés nos dois pólos e colocar
o dinheiro exigido pelo negócio petroquímico,
diz um especialista do setor. Eles optaram pelo Sul, pois
lá fabricam resinas, que são mais rentáveis
do que o PVC produzido na Bahia.A solução
encontrada por Emílio desagradou os baianos alguns
deles poderosos. O senador Antônio Carlos Magalhães
telefonou para Emílio. Em minha opinião, essa
decisão não é boa para a Bahia, disse
o político ao empresário. Emílio explicou
que se tratava de uma decisão de negócios e que,
como tal, pensara no desempenho da empresa. ACM não gostou
e foi a público dizendo que a melhor opção
para a Bahia era o Grupo Ultra.
O encolhimento da Odebrecht tem sua origem no endividamento do
grupo. São mais de US$ 2 bilhões, contraídos
em função de uma arrojada estratégia de expansão
e diversificação desenhada por Emílio há
mais de uma década, quando assumiu o comando em substituição
ao pai e fundador do grupo, Norberto. Para Emílio, a concentração
dos negócios apenas na área de construção
pesada, com todas as implicações políticas,
era um risco, sobretudo com o fim do período de grandes
obras públicas.
O raciocínio, em parte, era correto. Os Odebrecht possuem
hoje 63 empresas, com faturamento de R$ 6,4 bilhões e 43
mil funcionários. Mas Emílio escolheu setores de
capital intensivo, como o petroquímico, o de celulose e
o de concessões de rodovias. Todos exigem investimentos
constantes. Odebrecht foi buscar dinheiro no Exterior. A desvalorização
do real, no início do ano passado, pegou o grupo no pico
da dívida. Resultado: um prejuízo recorde em 1999
de R$ 326 milhões. Hoje, conseguimos alongar o perfil
da dívida, diz Campos. Os vencimentos começam
dentro de 18 meses. De qualquer forma, a renegociação
não evitou a necessidade de uma dura travessia em direção
a um conglomerado menor e mais eficiente.
|