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JOSÉ
MÁRIO ABDO
“Não
vamos ficar no escuro”
O diretor-geral
da Agência Nacional
de Energia Elétrica diz que não há risco
de
desabastecimento, desde que os investimentos no setor continuem
sendo feitos
Estela
Caparelli
O
engenheiro José Mário Abdo, 50 anos, não
tem medo de ficar no escuro. Mesmo com notícias de racionamento
de energia por parte de grandes consumidores e com as previsões
de cortes do fornecimento com o crescimento da economia, ele afirma
que tudo está sob controle. Verdade ou não, é
um alento, vindo de quem vem: Abdo é o diretor-geral da
Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, órgão
responsável por toda a fiscalização e regulamentação
do setor. Cabe à Aneel fazer com que as empresas de energia
estatais e privadas garantam o fornecimento para
todos os consumidores, da White Martins ao morador de um sítio
no interior de São Paulo. Não tem sido tarefa fácil.
Ao contrário do que muitos imaginavam, a privatização
não resolveu todos os problemas do setor de energia. Um
exemplo: os novos donos da Coelce o consórcio composto
pela Cerj, Endesa, Estelmar e Interocean conseguiram a
façanha de piorar os serviços da ex-estatal do Ceará.
Esse deslize pode custar a concessão obtida em leilão.
A Cerj, aliás, pode seguir a mesma linha da empresa que
controla no Ceará. Abdo disse à DINHEIRO que a distribuidora
do Rio iria receber no final da semana passada uma multa de R$
2,9 milhões por fechamento de postos de atendimento e problemas
de controle de tensão.
Outra prova de que a situação não está
brilhante são as milhares de reclamações
ainda feitas por consumidores insatisfeitos. Na média,
conseguimos melhorar o atendimento. Mas não estamos satisfeitos.
Com energia, não se dorme em berço esplêndido
em momento algum. Abdo, que saiu da Eletronorte em 1997
para dirigir a agência, diz que não consegue relaxar.
Um dos raros momentos de sossego acontecem quando cuida de seu
gado, no Tocantins. A seguir, trechos da entrevista concedida
na sede da Aneel na semana passada.
DINHEIRO
O Brasil corre o risco de ficar no escuro?
JOSÉ MÁRIO ABDO O Brasil vive uma
situação de normalidade na área de energia.
Não há riscos de desabastecimento. Nossa capacidade
instalada é de 65 mil megawatts. O Brasil cresceu 3,6 mil
megawatts novos e fez frente à exigência do mercado.
Ou seja, crescemos três Bolívias em termos de energia.
Em países como EUA, a expansão é de 0,2%
ao ano. No ano passado, plantamos 4 mil megawatts por meio
de outorgas de concessão que serão usados
este ano. Com um detalhe: uma outorga não é mais
uma ação entre amigos, é um processo público.
DINHEIRO
O sr. quer dizer que tudo estará sob controle mesmo
que o País cresça a taxas de 7% ao ano?
ABDO Não há riscos, mas é preciso
suar muito a camisa, é muito trabalho. Com energia, não
se dorme em berço esplêndido em momento algum. Todo
ano tem de investir, tem de expandir. O desafio não é
só aumentar oferta, mas atender o consumidor em um ambiente
de transição. É importante que entrem muitas
usinas hidrelétricas e a Aneel está licitando 29
delas.
DINHEIRO
Então podemos ficar tranqüilos?
ABDO Há um processo de mudança
que faz com que tenhamos confiança. Toda semana autorizamos
novas usinas térmicas. Vamos leiloar no próximo
dia 27 de julho, na Bolsa do Rio, três mil quilômetros
de linhas de transmissão. Mesmo com todo esse esforço,
não dá para dormir. Além disso, é
preciso entender que os processos de energia elétrica são
de longa maturação. Esses projetos não são
para especuladores. Quem vem para a energia elétrica assina
um contrato de 35 anos. Não adianta vir como especulador
achando que haverá retorno em um curtíssimo espaço
de tempo. Não terá. Por isso, o investidor deve
vir com a visão de que aqui as tarifas ao consumidor são
reguladas. Os investidores aplicam no setor porque é um
negócio estável, com receita garantida. No caso
da transmissão, é um contrato de transmissão
de 30 anos. Do dia para noite, ninguém fica rico nesse
negócio.
| "A
Coelce, do Ceará, era melhor antes da privatização.
Agora, podemos até cassar a concessão" |
DINHEIRO
O que a Aneel está fazendo para evitar problemas
como o dos apagões. O blecaute ocorrido em março
do ano passado gerou prejuízo para milhares de consumidores.
ABDO Está havendo ampliação
das linhas de transmissão, programa para construção
de termelétricas e investimentos em sistemas inteligentes
na rede. Na outra frente, existem as penalizações.
A Aneel puniu com multas Furnas e CPTE três meses depois
do apagão de março. E, pela primeira vez, o consumidor
foi ressarcido. Cerca de nove mil consumidores, domésticos
e industriais, receberam R$ 1,5 milhão.
DINHEIRO
Quando o governo vendeu as empresas de energia, vendeu
a idéia de que a privatização iria melhorar
muito as empresas do setor. Casos como o da Coelce mostram que
a situação não é bem essa. Qual é
a sua avaliação sobre o setor depois das privatizações?
ABDO A Coelce não é a regra. O saldo
é indiscutivelmente positivo. Os indicadores de interrupção
de energia elétrica e da duração dessas interrupções
de 1996 e 1999 fora reduzidos em 25%, em média. Ou seja,
o número de horas de desligamento e de quantidade de vezes
que a energia era desligada teve uma redução dessa
ordem. É claro que há exceções. Mas
a tendência é positiva. A melhoria está sendo
baseada em uma mudança estrutural, que teve a ajuda das
privatizações.
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