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FHC:
Orgulhoso da inventividade brasileira, o presidente
deixa as explicações
nas mãos do segundo escalão
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O
Rolo de Hannover
Governo esbanja
10 milhões de dólares sem licitação
em pavilhão da Expo e se atrapalha ao justificar os gastos
Expedito
Filho, de Hannover
Na
semana passada, o presidente Fernando Henrique Cardoso desembarcou
em Hannover para participar da abertura da Exposição
Universal a Expo e a missão de desembrulhar
um rolo da ordem de 10 milhões de dólares. A dinheirama
foi utilizada para edificação, construção,
administração e manutenção de um prédio
de dois andares ao longo de dois mil metros quadrados da feira
alemã, que este ano vem com o tema-enredo o homem, a natureza
e a tecnologia. Detalhe: tudo sem licitação, com
a desculpa de que esta foi a única alternativa do governo
brasileiro diante da não aprovação do orçamento
da União. Foi uma dessas discussões nacionais que
se arrastam por dias sem que se conclua se houve danos ou não
aos cofres do contribuinte. O procurador da República,
Luiz Francisco Fernandez de Souza saiu em defesa do erário
e suspendeu, após entendimento com a Embratur, o pagamento
da última parcela de pouco mais de um milhão de
dólares. O episódio em si já continha combustível
suficiente para jogar o estande brasileiro pelos ares. Do lado
chapa branca da questão, estava o ministro do Esporte e
Turismo, Carlos Mellis. Ex-relator da Comissão de Orçamento,
Mellis foi guindado ao primeiro escalão pelo presidente
do PFL, Jorge Bornhausen, que tinha filha e sobrinho como proprietários
da Artplan Prime, empresa que levou a bolada sem licitação.
A explosividade aumentou quando Paulo Henrique Cardoso, filho
do presidente da República, também apareceu na Alemanha
para explicar e defender o embrulho.
Na condição de comissário-geral adjunto do
empreendimento, PHC não mexeu nas verbas. Também
não efetuou pagamentos para os que participaram da criação
do estande. Sua responsabilidade se limitou ao entusiasmo em torno
do trabalho artístico da produtora cultural Bia Lessa.
Inexperiente, PHC sequer bancou o advogado do diabo, quando a
Embratur, por meio de seu presidente, Caio Carvalho, assegurou
ao comissariado que a Artplan Prime estava legalmente qualificada
para tocar o pavilhão brasileiro. Para ele, como para a
grande maioria dos intelectuais ligados a FHC, o importante era
o Brasil mostrar-se forte na feira, como potência capitalista
emergente. A licitação era um mero detalhe. Não
havia má-fé, mas a convicção de que
estava em jogo uma oportunidade real de vender a imagem do Brasil.
A Bia Lessa é ilicitável, proclama o
historiador Jorge Caldeira. As redações cometeram
um crime contra o Brasil, reclamava PHC com os jornalistas.
Pacote.
A primeira batalha perdida pelo governo foi a da transparência.
Em lugar das boas intenções, justificou-se o desleixo
com base nas normas legais que regem as licitações.
Se a lei é ruim, muda-se a lei. É melhor do que
burlá-la com manobras jurídicas marotas. O governo
perdeu uma outra, fundamental, conseqüência da primeira
derrota. Não soube explicar, como pretendia, que a participação
brasileira em Hannover não foi um gasto, mas sim um investimento,
que poderá trazer ganhos e dividendos no curto e médio
prazo, em setores como turismo e comércio bilateral. Até
a semana passada, o governo não tinha sequer um levantamento
enumerando as vantagens de participar de um evento do porte da
Expo.
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DIPLOMACIA:
FHC mostra a criatividade brasileira ao chanceler Schröeder
(dir.)
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Ao
contrário, em Hannover o que se viu foi um festival de
informações desencontradas. O presidente da Embratur
culpou a não liberação do orçamento
pela não realização da licitação.
Estava, em última análise, culpando seu próprio
chefe: o ministro Carlos Mellis, ex-relator do orçamento.
Foi mais longe. Como não soube explicar por que uma obra
prevista há dois anos somente foi agora orçada.
Por fim, escorregou mais ainda quando decidiu investigar a participação
brasileira na Expo de 1998, que custou aos cofres públicos
a bagatela de 5 milhões de dólares, ressaltando
que, aí sim, teve roubalheira. Por pouco não
caiu no ridículo. Salvou-se ao assumir a responsabilidade
pelo pagamento da maior parte dos gastos, um total de 13 milhões
e 700 mil reais, ponderando que concordara com o procurador na
suspensão da última parcela. O detalhe deselegante
do episódio foi contado de forma educada e com punhos de
renda sobre a mesa. Escalado para explicar a dinheirama gasta
em Hannover, o embaixador Cesário Mellantônio acabou
revelando detalhes sórdidos de como se decide com base
na absoluta falta de critérios. Confidenciou
que o Brasil resolveu torrar dois milhões de dólares
para alugar um espaço de 2 mil metros quadrados porque
soube que a falimentar Argentina já tinha adquirido um
terreno do mesmo tamanho. A decisão é semelhante
como a de mandar o craque Ronaldinho tratar do joelho em Cuba,
somente porque o argentino Maradona está se tratando em
Havana da dependência de cocaína.
Inventividade.
A diferença ficou por conta da produtora cultural Bia Lessa.
Ao contrário dos profissionais de primeiro escalão
que se escondiam por trás dos números, Bia Lessa
revelou detalhes do seu contrato, dizendo que dos 10 milhões
de dólares, sua equipe tinha ficado com apenas 580 mil
reais, pela concepção e criação do
pavilhão, sendo que desse total ela ficou apenas com 160
mil que serão pagos ao longo de nove meses. Onde será
que foi parar o resto do dinheiro? Enquanto isso não se
responde, fica o gosto, a esta altura um pouco amargo, de apreciar
o trabalho da artista.
Ele chamou a atenção pela criatividade e simplicidade,
e foi um dos mais visitados de toda a feira. Fiquei orgulhoso
com a inventividade, unindo ciência e arte, disse
Fernando Henrique, logo após apresentar o pavilhão
ao chanceler alemão Gehard Schröeder. E há
quem aposte que se o espaço fosse menor a inventividade
seria ainda maior, e talvez os gastos se apresentassem com o tamanho
de investimento.
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