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DE
LA RUA E MACHINEA: Eles apostam que o corte de gastos públicos
vai estimular a atividade
privada e atrair investimento externo
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Argentina
- Recessão e fúria
Pacote de ajuste
coloca o povo na rua e pode esfriar a economia
Ivan
Martins
Tarde
de quarta-feira, 31, em Buenos Aires. Em frente à Casa
Rosada, sede do governo argentino, uma multidão embandeirada
e barulhenta, estimada em 60 mil pessoas, urra ao ouvir as palavras
do caminhoneiro Hugo Moyano, líder da ala dissidente da
CGT peronista. Vamos fazer panelaços, apagões,
vamos bater onde lhes doa, diz ele, no comando de uma manifestação
contra a ditadura financeira do FMI. Vamos chamar
à desobediência fiscal para que o trabalho dos argentinos
não seja levado pela dívida externa.
Bem-vindo à Argentina do presidente Fernando de la Rua,
48 horas depois do pacote de US$ 500 milhões em cortes
de salários públicos e aposentadorias. Obrigado
a reduzir seus gastos para manter o déficit federal dentro
dos limites assumidos com o Fundo, o governo enfrenta, agora,
a ira do funcionalismo público e aposentados e pode,
na hipótese de uma recessão, incorrer no ressentimento
do restante da população. Depois do sucesso da manifestação
de quarta-feira, Moyano está convocando uma greve geral
para o próximo 9 de junho, com apoio até mesmo da
CGT moderada com a qual estava rompido. É a resposta
que os trabalhadores e o resto dos argentinos vão dar a
esta política de constante ajuste, explicou Rodolfo
Daer, secretário-geral da CGT oficial. Não adiantou
o presidente De la Rua afirmar que a greve geral é
negativa e não serve para nada e acusar os sindicalistas
de montarem uma conspiração para evitar o
saneamento da economia. A queda-de-braço começou
e vai ser decidida nas estatísticas econômicas dos
próximos meses. Se houver recessão prolongada, De
la Rua estará em apuros.
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BRAÇO
DE FERRO: Sucesso da manifestação contra o
FMI faz prever adesão à greve geral
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Liderado
pelo ministro José Luiz Machinea, o governo tem ressaltado
que as medidas de segunda-feira vão estimular a iniciativa
privada, que responde por 70% do PIB nacional. O único
exemplo, até o momento, são os serviços particulares
de saúde, que ganharam no pacote um presente de US$ 4 bilhões
anuais, com o fim do plano de saúde obrigatório
dos sindicatos. Era uma irracionalidade econômica,
afirma Ricardo Camandone, diretor do banco Suquia. Pessoas
e empresas tinham de pagar dois seguros porque o dos sindicatos
não funciona. A perda dessa verba gigantesca ajuda
a explicar, segundo o banqueiro, a unidade sindical contra o governo.
A grande esperança de crescimento, porém, recai
na possibilidade de o pacote conquistar a confiança dos
investidores estrangeiros e atrair duas espécies de dólar
o dos títulos, capazes de rolar a dívida
argentina, e o dos investimentos diretos, que podem reativar a
economia. A rolagem dos títulos, porém, depende
da evolução dos juros americanos. O dinheiro pode
vir ou não, a despeito dos esforços argentinos.
Quanto ao crescimento, ele foi estimado recentemente em 2,5% este
ano, mas desde a semana passada tornou-se uma incógnita.
O pacote em si não é recessivo, acredita
Fábio Giambiagi, economista do BNDES argentino. O
corte de US$ 500 milhões representa apenas 0,2% do PIB
argentino. É ridículo imaginar que causaria recessão.
Em Wall Street, as apostas são de que alguma retração
virá. É difícil ver como medidas desse
tipo possam não causar recessão no curto prazo,
afirma Ernest Brown, economista do Morgan Stanley para a América
Latina. Ele diz que a sinalização do pacote foi
correta, mas que a reação dos investidores pode
demorar. O investimento virá quando o trabalho se
tornar suficientemente barato, resume. No pacote de segunda-feira
o governo também anunciou a antecipação para
julho da abertura da telefonia à competição,
para apressar a entrada de dólares.
Qualquer
que seja o resultado dessa aposta, fica mais uma vez caracterizado
o paradoxo de Joseph Stiglitz, ex-economista chefe do Banco Mundial.
Em março ele criticou o FMI por exigir que países
em recessão adotem medidas econômicas restritivas
como elevação de juros e contenção
de gastos públicos em vez de agir de forma anticíclica,
estimulando o crescimento com juros baixos e gastos governamentais.
É o que está ocorrendo na Argentina com o
agravante de que a Lei de Convertibilidade, que congela a paridade
entre peso e dólar, impede o estímulo às
exportações pela desvalorização da
moeda. Assim, confrontada com a recessão, a equipe De la
Rua está sendo obrigada a reagir com medidas adequadas
a momentos de superaquecimento. É uma subversão
lógica feita com um pé na necessidade e outro na
esperança. Se não der certo, pode-se abrir uma crise
que, fatalmente, espirrará no Brasil.
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