Balança
sem equilíbrio
O País
já exporta produtos de alta tecnologia, como aviões,
mas ainda quer vender o que o mundo não quer comprar
Joaquim
Castanheira
Como
acontece todos os meses, a Secretaria de Comércio Exterior
publicou na semana passada a lista com as principais
empresas exportadoras do País. Durante anos, tratou-se
de uma tarefa rotineira, beirando a monotonia no que se refere
a novidades. Desta vez, porém, duas surpresas sinalizam
com uma possível mudança no rumo das exportações
brasileiras.
A primeira é sobretudo simbólica: o anúncio
foi feito pelo BNDES e pode ser interpretado como um sinal de
que o banco oficial está realmente assumindo um papel de
peso no financiamento das exportações brasileiras.
A segunda surpresa: a Embraer, fabricante de aviões, assumiu
a dianteira no ranking dos exportadores, superando a líder
histórica, a Vale do Rio Doce. Mais do que uma simples
mudança de posições, o fato mostra que um
produto de alta tecnologia torna-se o principal item das vendas
externas do Brasil, derrubando uma commodity.
É significativo que o BNDES assuma a divulgação
da lista justamente no momento dessa mudança. Nos últimos
meses, o governo tem repetido que uma das prioridades do banco
é o apoio às exportações. O presidente
da instituição, Francisco Gros, tem sido o principal
porta-voz dessa decisão. Há uma maior conscientização
em torno desse esforço, diz Marco Antônio de
Araújo Lima, diretor do BNDES-Exim, o braço do banco
para financiamento às exportações. O
País ficou afastado do mercado internacional, mas agora
vai retomá-lo.
| MENU
DE EXPORTAÇÃO |
| MINÉRIO |
| QUASE
PARANDO. Um dos principais itens das exportações
brasileiras, o minério de ferro estagnou no mercado
internacional. Não cresce mais de 0,5% ao ano.
A saída: utilizar a abundância dessa matéria-prima
para lançar produtos de valor agregado |
|
| CAFÉ |
| GOSTO
AMARGO. O café é um setor em declínio, mas que não
pode ser desprezado pelo Brasil, um dos maiores produtores
do mundo. Pode se tornar uma fonte de receita ainda
melhor, com um forte trabalho de marketing em outros
países, como fez a Colômbia |
|
| AVIÕES |
| CÉU
DE BRIGADEIRO. O avião é um dos poucos setores de
crescimento no comércio mundial em que o Brasil tem
uma excelente posição, graças à Embraer. Apesar das
queixas do Canadá, o BNDES continua financiando as vendas
externas do produto |
|
| PETRÓLEO |
| OURO
NEGRO? O petróleo já não faz muito sucesso no comércio
mundial, mas o Brasil é grande exportador. Poderia usar
seu know how no setor para exportar equipamentos de
exploração e refino. Isso, sim, está dando dinheiro |
|
| AUTOMÓVEIS |
| PÉ
NO ACELERADOR. Volks, Fiat e GM estão entre
os maiores exportadores brasileiros. Bom sinal. O comércio
mundial de automóveis cresce 8% por ano. Falta
ao Brasil melhorar a infra-estrutura (portos etc.) para
ser um dos grandalhões nesse negócio |
|
Valor
agregado. Nesta nova fase, o BNDES-Exim quer incentivar principalmente
as vendas de produtos de maior valor agregado para o exterior.
Os setores aeronáutico, agroindustrial e de equipamentos
de petróleo se encaixariam nesse conceito, segundo Lima.
Parece o caminho certo para o País. Mas, se o governo quiser
entender melhor o que ocorre hoje com as exportações,
poderia examinar um levantamento concluído pelo Instituto
de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, o Iedi. Batizado
A pauta de exportação brasileira e os objetivos
da política de exportação, o trabalho
lança novas luzes sobre o comércio exterior. Os
técnicos do Iedi estudaram a evolução nas
vendas internacionais de 250 grupos de produtos em dois períodos:
1982/1984 e 1996/1998. A partir disso, classificaram esses grupos
em cinco categorias: muito dinâmicos (com crescimento superior
a 10%), dinâmicos (entre 7,5% e 10%), intermediários
(entre 5% e 7,5%), em regressão (entre 2,5% e 5%) e em
declínio (inferior a 2,5%). A classificação
mostra o potencial de venda de cada produto nos próximos
anos, diz o economista Júlio Sérgio Gomes
de Almeida, coordenador do estudo.
As conclusões são preocupantes. Apenas 41% das exportações
brasileiras são de produtos muito dinâmicos ou dinâmicos,
contra uma média mundial de 69%. O restante das vendas
externas do Brasil está nas categorias com menor crescimento
no comércio internacional. Ou seja, o Brasil está
vendendo justamente aquilo que o mundo não está
comprando. Um exemplo: o minério de ferro, principal item
de exportação do Brasil, tem registrado um aumento
inferior a 0,5% em suas vendas mundiais. Um produto estagnado,
enfim. Outros países em desenvolvimento apresentam números
muito mais atraentes. México e Espanha retiram 70% de suas
receitas externas dos dinâmicos e muito dinâmicos.
No caso da Coréia, esse índice é de 75%.
Não se trata de ignorar as mercadorias intermediárias,
em regressão e em declínio, pois elas sustentam
as exportações, diz Almeida. É
necessário tratá-las melhor e incentivar a vendas
externas de produtos dinâmicos e muito dinâmicos.
O estudo do Iedi desfaz um dos mais persistentes mitos do comércio
exterior. Necessariamente os bens de maior crescimento em vendas
no mercado internacional não possuem alta tecnologia ou
alto valor agregado. Exemplos: vidro, bebidas alcoólicas,
tabaco e calçados estão entre os produtos cujas
vendas crescem continuamente. Até mesmo tricô e crochê
fazem parte desse grupo uma excelente notícia para
as mulheres rendeiras dos estados nordestinos. As exportações
desses produtos podem ser incrementadas, sem a necessidade de
grandes investimentos.
Mas, a longo prazo, o foco deve se voltar para a tecnologia. É
evidente que temos de desenvolver os setores com mais conteúdo
tecnológico, diz Almeida. Mas isso requer recursos,
investimentos e sobretudo tempo. Então não podemos
contar com isso no curto prazo. Almeida acredita que não
deve haver uma política única de exportação.
O correto é ter uma política para cada grupo
de produtos, diz. Afinal, as necessidades de cada
um deles são muito diferentes.
Colaborou
Simone Goldberg
|