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FINANÇAS/CRÉDITO
Arte: Tato
CEF: O banco contabilizava apenas R$ 2 bilhões em créditos em fase de cobrança judicial

No olho do Furacão Financeiro
Novas normas do BC expõem os buracos nas contas de bancos públicos e a Caixa pede mudança de regras para não quebrar

Marcelo Aguiar

A nova regulamentação do Banco Central para os créditos dos bancos pôs a Caixa Econômica Federal contra a parede. Pela letra da lei, todos os empréstimos atrasados há mais de seis meses devem ser lançados no balancete trimestral como “podres” (classificação H), e, seis meses depois, ser registrados como prejuízos. A novidade gerou muita dor de cabeça aos administradores dos bancos estatais. Segundo levantamento do BC, eles concentram 3 em cada 4 reais em crédito podre no mercado brasileiro. Mas o caso da CEF é ainda mais grave. Ela teria de admitir de uma só vez um prejuízo de R$ 7 bilhões, nos demonstrativos de junho e setembro. E foi pega no contrapé: não há um centavo sequer separado como provisão, em suas contas, para cobrir um rombo desse porte. A Caixa contabilizava apenas R$ 2 bilhões em créditos em fase de cobrança judicial, no seu último balanço, e agora terá de lidar com quase R$ 9 bilhões de financiamentos dados como perdidos, pelos novos critérios do BC. Do jeito que as regras estão, o futuro preocupa. São dois os cenários: ou o controlador da instituição, o Tesouro Nacional, entra com os bilhões necessários para cobrir o buraco, ou o BC simplesmente desobriga a Caixa de lançar essa montanha de créditos como perdidos. É nessa última hipótese que os diretores do banco apostam: a CEF negocia há três meses com o BC a criação de uma regra especial, mais branda, para enquadrar os créditos de longo prazo – como os financiamentos habitacionais, responsáveis por 99% do buraco.

O projeto corre nas engrenagens do BC em regime de urgência. A idéia é ter a decisão tomada no máximo até o fim de junho, quando a nova regra entra oficialmente em vigor. Isso daria tempo à Caixa de publicar seu balanço semestral já com as contas aliviadas do fardo de um volume tão alto de créditos mandados para liquidação. O balancete do primeiro trimestre do ano, já adaptado às regras que valem agora para todo o setor bancário, aponta um total de R$ 8,8 bilhões em operações enquadradas no nível de risco H. O que mais assusta é que os “Hs” têm que ser levados para liquidação seis meses depois de sua classificação. Por isso, precisam ser cobertos por uma provisão igual a 100% do seu valor. Ou seja: se a quantidade de créditos mandados para cobrança judicial cresce R$ 7 bilhões, o banco precisa tirar essa quantia de seus ativos e deixar reservada à parte, para cobrir o prejuízo.

O que a Caixa está pedindo é que os financiamentos de longo prazo tenham prazos mais largos para que sejam dados como atrasados ou perdidos. Os bancos comerciais, como Bradesco e Itaú, já mandavam para liquidação os empréstimos com seis meses de atraso mesmo antes de o BC mudar a regulamentação, mas a Caixa, assim como o Banco do Brasil, preferia seguir a regra das declarações à Receita Federal e só mandava baixar um crédito quando a inadimplência chegava a dois anos. O tempo médio até o vencimento dos empréstimos na carteira da instituição é de 5 anos, devido aos créditos para os mutuários, e há operações que chegam a ter o dobro do prazo. “Três meses de atraso em um empréstimo de dez anos não é a mesma coisa que em um financiamento de seis meses. Por isso queremos um tratamento mais adequado”, defende Valdery Albuquerque, diretor-financeiro da Caixa. “Não somos o mesmo bicho que um banco comercial”, diz. Apenas bancos públicos costumam se aventurar no longo prazo. “Esse ajuste interessa também ao BNDES”, diz Albuquerque. A diferença é que a inadimplência, na agência de fomento, é de apenas 3% do total de empréstimos.

Se o acordo com o BC não vier, o Tesouro vai ter que cobrir o rombo do atraso nas prestações dos mutuários. Seria uma catástrofe: o Proes, a versão do Proer para os bancos estaduais, já custou R$ 90 bilhões aos cofres públicos, e o Banco do Brasil já absorveu R$ 8 bilhões em um aumento de capital de emergência feito em 1995. “A sociedade tem que decidir se quer agora subsidiar os mutuários inadimplentes”, provoca Albuquerque. A CEF, em caso de fracasso, ficará obrigada a promover uma enxurrada de ações na Justiça para tentar retomar os imóveis dos inadimplentes. Além de impopular, a medida tende a ser pouco eficiente. “As oscilações bruscas de juros causam desequilíbrios nos contratos. A Justiça sabe disso e costuma ser benevolente com os mutuários”, admite.

Já o Banco do Brasil, que passou por uma faxina financeira em 1995, entra na nova fase sem tantos sustos. O BB misturava em uma conta única de “créditos em atraso e em liquidação” um total de mais de R$ 10 bilhões, nos seus últimos balanços, mas não separava os empréstimos perdidos dos atrasados. Pela nova regulação, porém, não há o que separar: os financiamentos ficam todos classificados como perdidos. As finanças do banco, porém, sofreram um golpe de apenas R$ 200 milhões na transição de um sistema para o outro, porque os créditos com atraso de mais de seis meses, até então registrados como “não ajuizados” (ou seja, não cobrados na Justiça) já eram quase todos cobertos por provisões. O BB promete acabar com a excentricidade dos “não ajuizados” até agosto, um mês antes de publicar o balancete do terceiro trimestre. “Estamos ajustando os sistemas para isso”, diz o diretor de Controle e Relações com o Investidor, Antônio Luís Rios da Silva. Os R$ 10 bilhões classificados como de alto risco sumirão de uma vez do balanço, reduzindo a carteira de crédito do banco em 25%, para R$ 30 bilhões. Resultado: o banco terá um prejuízo contábil espantoso, embora a movimentação financeira seja pequena. Já o Banespa, sob intervenção do BC desde 1995, ainda tem 26% de toda sua carteira apodrecida. Mesmo após sucessivos saneamentos, o banco ainda tem R$ 1,67 bilhão da carteira classificados no risco H. O que é providencial para sua privatização. Quando o banco for a leilão, eles já terão sido absorvidos como prejuízo no último balanço.

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