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SIMONSEN:
”O importante é a velocidade da decisão, não a precisão
dessa decisão”
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Empresas
no Divã
Estudo inédito
analisa, caso a caso, perfil e desempenho das corporações
brasileiras
Joaquim
Castanheira
»Box:
Dicionário da competição
Nos
últimos tempos, o consultor Harry Simonsen Júnior,
da Simonsen Associados, praticamente abandonou as partidas de
tênis que costumava disputar no Clube Harmonia, em São
Paulo, e mergulhou em um emaranhado de papéis sobre as
empresas. Desse esforço, surgiu um estudo inédito
que desvenda o mundo de negócios no Brasil e revela os
principais traços das companhias com atuação
no País. Trata-se de um verdadeiro Raio X do universo empresarial
brasileiro e, como tal, além de demonstrar as dificuldades
das grandes corporações, permite vislumbrar as saídas
para superar esses obstáculos.
Batizado de Transição Empresarial, o estudo reúne
informações sobre 69 companhias de diversos setores.
Foram analisados o desempenho, a gestão e os recursos de
cada uma delas. Com base nos resultados, Simonsen chegou a oito
diferentes perfis de empresas: compradora, visionária,
filósofa, sonhadora, vendedora, artesã, oportunista
e míope. Na coleta de informações, utilizou
balanços, notícias de jornais, publicações
internas e relatórios de bancos. O resultado revela,
com boa precisão, como bancos, clientes, fornecedores,
o mercado enfim, vêem essas organizações em
um momento de transição, diz Simonsen. O surpreendente
do estudo é que ele não se limita a avaliar genericamente
os setores. Vai fundo na análise de empresas dando
inclusive os nomes em um universo representativo do todo,
nas diversas classificações. Os resultados mostram,
em resumo, que o mundo de negócios brasileiros encontra-se
no meio de uma profunda metamorfose. Das empresas pesquisadas,
36% são compradoras, ou seja, possuem gestão competente,
bons resultados e recursos suficientes o melhor dos mundos.
Já as empresas míopes e vendedoras, os patamares
mais baixos do ranking, somam juntas 29% do universo e
essas podem ter sérios problemas pela frente.
Observe o caso da CCE, uma empresa míope, na classificação
da Simonsen. A empresa mantém parcerias internacionais
com a Aiwa e a italiana Merloni, que lhe garantem uma fonte de
recursos tecnológicos. Também não parece
ter problemas de caixa. Mas quando o desempenho e a gestão
são analisados, as coisas mudam de figura. Criada há
34 anos, a CCE guarda os traços de seu criador, o empresário
Isaac Sverner: a discrição, a centralização
excessiva. Essa cultura incentiva a formação
de executivos dependentes e cumpridores de ordem e não
arrojados, diz um especialista do setor. Assim, as
decisões tornam-se lentas.
Velocidade.
Trata-se de um problemaço, sobretudo em um momento em que
a conjuntura pode dar guinadas de 180 graus em questão
de dias. Hoje é mais importante a velocidade da decisão
do que a precisão dessa decisão, diz Simonsen.
Essa distinção pode colocar em apuros empresas caracterizadas
por gestão problemática, como as oportunistas.
Que
não se percam pelo nome. Oportunistas, nesse caso, são
companhias que aproveitam uma situação favorável
de mercado, embora não tenham recursos adequados ou uma
gestão de primeira. A rede varejista Ponto Frio encaixa-se
na situação, diz o estudo. Problemas na sucessão
e no controle acionário não impediram que ela se
caracterize pelo bom desempenho. O motivo: entrou no vácuo
da quebradeira do setor varejista (leia-se Arapuã, Casa
Centro, Brasimac, entre outras). Mas, a longo prazo, as outras
duas pontas não resolvidas (gestão e recursos) podem
comprometer o negócio.
Empresas vendedoras vivem situação semelhante. Muitas
vezes, entram por esse caminho em função de uma
opção pela carreira solo, dispensando
parcerias que possam suprir suas deficiências. A Arteb,
fabricante de faróis e espelhos retrovisores, é
citada nessa classificação. A empresa decidiu não
buscar associações internacionais seguindo
na contramão do restante do setor de autopeças.
Sua gestão excessivamente centralizada na figura de Pedro
Eberhardt também não ajuda em sua análise.
As empresas vendedoras têm a companhia das artesãs.
Para elas, a dificuldade em obter recursos, sobretudo tecnológicos,
pode ser um gargalo para seu crescimento. Por exemplo, aponta
o levantamento: o Laboratório Aché é o líder
no mercado de medicamentos no Brasil. Mas o fato de ser uma empresa
brasileira coloca uma pedra no meio do caminho. O desenvolvimento
de um princípio ativo consome no mínimo US$ 400
milhões e cerca de três anos de pesquisa. Não
temos esses recursos, diz Júlio César Gagliardi,
diretor de marketing do Aché. A saída é adquirir
patentes de medicamentos que nem sempre são o top de linha
no mercado mundial e firmar parcerias com gigantes internacionais
como Merck Sharp e Schering Plough. A empresa aproveita sua principal
vantagem competitiva, um batalhão de 2 mil propagandistas.
É o dobro de qualquer um de nossos concorrentes,
diz Gagliardi.
Há também boas notícias no estudo de Simonsen.
É evidente que há um esforço grande
por parte das empresas em se adaptar a um ambiente de mais competição
como o atual, diz ele. Muitas estão conseguindo.
São 36% do universo pesquisado pela consultoria. Esse grupo
é formado pelas compradoras, a elite de ouro do mundo dos
negócios no Brasil. Para entrar nesse time, a Sadia fez
a lição de casa nos últimos quatro anos.
Investiu em produtos de maior valor agregado e voltou seus olhos
para o mercado externo. Por isso, em 1997, vendeu seus negócios
de esmagamento de soja e abate de bovinos. Em contrapartida, lançou
mais de 100 novos produtos, na grande maioria de pratos prontos.
Queremos estar cada vez mais pertos do consumidor final,
diz Luiz Furlan, presidente da Sadia. O resultado dessa estratégia:
em 1997, a Sadia tirava 20% de seu faturamento dos commodities.
Hoje, a participação de produtos primários
é zero.
Casa
do inimigo. A Sadia também investiu no mercado externo.
Seus produtos podem ser encontrados em mais de 50 países
e, no ano passado, deram ao grupo cerca de 30% do faturamento
de R$ 2,8 bilhões. O lucro foi de R$ 60 milhões.
Não tínhamos outra alternativa, além
de ir para o mercado externo, diz Furlan. Às
vezes, o melhor lugar para enfrentar o inimigo é dentro
de sua casa.
A
transição, por vezes, é dolorosa e pode levar
a resultados ruins. Empresas nessa situação
são chamadas de filósofas, diz Simonsen. Segundo
ele, possuem boa gestão, bons recursos, mas rentabilidade
insatisfatória. Entre 1996 e 1998, nosso foco não
estava direcionado para resultados, diz Victor Foroni, um
dos sócios da Método, considerada uma empresa filósofa.
A empresa estava envolvida em um trabalho de reposicionamento
estratégico, em suas palavras.
A
Método abandonou o setor de obras públicas, que
chegou a representar 80% de suas receitas, e concentrou-se em
três grandes especializações: escritórios,
hotéis e edifícios residenciais para a classe média.
Outros negócios, como telecomunicações e
incorporação de imóveis, foram inteiramente
separados da construtora. Com isso, nos tornamos a maior
empresa do setor de edificação do País,
diz Foroni. Segundo ele, a empresa apresenta hoje custos imbatíveis.
A Torre Norte, maior edifício de escritórios da
América Latina, construído pela Método em
São Paulo, teve um custo de R$ 800,00 por metro quadrado,
contra a média de mercado de R$ 1.000,00.
Para
Simonsen, a ponta do tripé mais importante é a gestão.
Um grupo dirigente talentoso pode consertar as duas outras,
diz ele. Por isso, as chamadas empresas sonhadoras, carentes de
bom desempenho, mas com boa gestão, têm as condições
necessárias para promover uma virada. Mas, para isso, segundo
Simonsen, talvez não possam contar com a antiga geração
de executivos. A Philip Morris, fabricante de cigarros e dona
da Lacta, é citada como um caso de empresa sonhadora. Por
isso, um de seus objetivos é manter o time de diretores
e gerentes em constante renovação. A média
de idade desse pessoal é 29 anos, diz Augusto Nacarini,
vice-presidente de recursos humanos para o Mercosul. A empresa
também transferiu sua administração de São
Paulo para Curitiba. Assim, os custos serão reduzidos em
25%, além de melhorar a capacitação de sua
mão-de-obra gerencial. Em São Paulo, cerca
de 75% de nosso pessoal administrativo tinha nível superior.
Em Curitiba, esse índice sobe para 90%, afirma Nacarini.
O estudo da Simonsen pode ajudar a apontar caminhos para as empresas
brasileiras. Um questionário disponível na home
page da consultoria ajuda na classificação da
empresa em um dos oito perfis. E o criador dessa metodologia?
Ele a aplicou em seu próprio negócio? Sim, e o resultado
não foi muito animador. Nossa empresa é artesã,
diz ele. Mas estamos repensando todos nossos conceitos e
nossa estratégia para torná-la uma compradora.
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