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IMPACTO DO FED Box: Jantar no apê de Armínio, foie Gras e vinho do Mercosul
A cada dígito que sobe depois da vírgula, na taxa de juros americana, o Brasil perde dólares a rodo. Na semana passada, Alan Greenspan, comandante do FED, o Banco Central americano, anunciou o maior índice dos últimos nove anos. E decretou para o Brasil uma sangria não apenas de capital especulativo, mas do produtivo também. O sinal de alerta foi aceso no Banco Central, nos mercados financeiros, em quase toda a economia. A dependência excessiva de financiamento externo voltou a cobrar seu preço. E a discussão agora é: de onde sairá o dinheiro? As exportações são a saída, respondem nove em cada dez analistas. Mas os últimos resultados da balança comercial não chegam a entusiasmar. Na semana passada, o novo e sorridente gerente-geral do FMI, Horst Köhler, passou pelo País deixando claro que a linha de recursos continua mais disponível do que nunca para o bom pagador (veja box). Há menos de dois meses o Brasil pagou adiantado uma parcela de US$ 10,2 bilhões que devia do empréstimo-ponte de US$ 41,5 bilhões, e o presidente Fernando Henrique anunciou, com estardalhaço, que o País estava saindo do cheque especial. Desta vez, se em alguns meses as exportações não explodirem, a conta do déficit pode levar o governo de volta ao mesmo caixa do Fundo. O FMI fala agora em investimento com contrapartidas sociais, defende um maior peso dos países emergentes nas decisões mas continua com a velha fórmula de apertar nas exigências. O Brasil encontra-se, de novo, na incômoda situação de quem está entre a cruz e a espada, entre exportações com resultados tímidos e o FMI como um credor no patamar de agiotagem. Os economistas, por enquanto, tratam o assunto como tabu. Mas não há uma saída fácil à vista.
O aumento da taxa de juros americana não foi surpresa. Todos fizeram questão de dizer que não houve susto. Mas a apreensão mora no longo prazo. Como o objetivo de Greenspan é diminuir a disponibilidade de dinheiro nos Estados Unidos, o volume que aquele país investe em todo o mundo deve reduzir-se. E as bolsas do Brasil, desde o início do ano, já viram ir embora 58% do volume de investimento que havia sido recuperado ao longo de 1999. Evaporaram-se R$ 1,288 bilhão, um quarto disso apenas na primeira dezena de maio, antes do anúncio dos 0,5%. Mas só se saberá exatamente o efeito Greenspan sobre a Bovespa nesta semana, porque a conta de entrada e saída é atualizada a cada dez dias. Fato é que, no dia seguinte ao anúncio do FED, a bolsa fechou em baixa com o menor volume do ano. Desaceleração.
O ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, foi o primeiro a evocar
o espectro: Haverá desaceleração da atividade
econômica no Brasil. Ele acrescentou que, se o BC for obrigado
a elevar a taxa de juros, para enfrentar a instabilidade do real diante
do dólar, a situação irá piorar ainda mais.
E há um agravante geográfico. No mercado mundial, o Brasil
é empacotado no contêiner dos países emergentes.
Dentro dele, é encaixotado com o resto da América Latina.
Pois bem, a tendência do continente, com a alta de juros, é
perder espaço para a Ásia. Na semana passada o Morgan
Stanley Dean Witter rebaixou a projeção de crescimento
do PIB da Argentina e do México. O Brasil é sério
candidato a próximo rebaixado. Outro sinal de mudança
de rumo: o indicador do banco para medir o desempenho dos mercados emergentes
também diminuiu a participação do Leste Europeu
e da América Latina (reduzida em 6%), para valorizar mais os
mercados asiáticos (cujo peso aumenta 13%).
Enquanto o FED luta para reduzir a marcha da economia, o Brasil deve ter dificuldades para atingir suas metas de crescimento. Como é difícil que a taxa de juros caia, a maioria dos bancos já trabalha com perspectiva de crescimento do PIB abaixo da cifra oficial, de 4%. Para Gustavo Loyola, 3% parece um número mais plausível. Para o empresariado nacional, a coisa ficou difícil. Pela primeira vez nos últimos anos, as taxas pagas pelos bônus de companhias brasileiras estão pouco competitivas em relação às americanas. Quando a diferença entre lá e cá chega à casa dos 1% a 2%, é difícil convencer um investidor americano a comprar papéis de uma companhia exótica, como CSN ou Bradesco, em lugar de um nome familiar como IBM, Coca-Cola ou GM. As empresas brasileiras devem adiar o lançamento de papéis, porque não conseguem concorrer, explica Mailson da Nóbrega. Assim, deixa de entrar dinheiro no País, e o fluxo de saída permanece inalterado. O final dessa equação foi anunciado pelo presidente do BNDES, Francisco Gros. Ele admitiu que, para atrair investimentos estrangeiros, será preciso emitir papéis a taxas de juros maiores. E, a médio prazo, isso tornará a situação externa mais grave, porque aumentará as remessas de juros e dividendos, engordando o déficit externo. A solução para isso, argumentou Gros, é exportar. Mas, como os juros no Brasil não devem cair, a indústria nacional continuará sem competitividade para conseguir isso. Odair Abate, economista-chefe do Lloyds TSB no Brasil, acrescenta um outro detalhe. Exatas 23% das exportações do País vão para os Estados Unidos. Se o consumo diminuir por lá, também ganha-se menos por aqui. Déficit em alta. Em abril, o Brasil teve um déficit de US$ 3 bilhões nas transações correntes. É o pior resultado desde janeiro do ano passado, o mês da desvalorização cambial. As contas externas não são nada confortáveis. Há um déficit de US$ 10 bilhões no balanço de pagamentos este ano. Até abril, o déficit era segurado pelos investimentos estrangeiros. Mas a torneira está secando. O BC diz que em abril o resultado foi ruim porque ingressaram apenas US$ 108 milhões relativos a privatizações. Só que os próximos meses não prometem ser muito melhores. Leilões como o do Banespa e do IRB estão atrasados, e outros, como os dos setores elétrico e de saneamento, marcados para o segundo semestre, podem também atrasar devido a liminares e confusões jurídicas. Então, há a possibilidade de entrar no cheque especial. Mas o governo e a maioria dos economistas prefere não pensar na idéia. Na quinta-feira, preocupado em reforçar a imagem do Brasil junto aos investidores externos, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, convocou a imprensa para dar boas notícias. Anunciou que o Planalto estima um aumento de R$ 4,1 bilhões em sua receita líquida neste ano. O motivo é prosaico a mudança na avaliação do PIB nominal. Mas, quando o importante é aparecer bem, serve. Para complementar, Bier anunciou que o orçamento federal, recém-aprovado pelo Congresso, será cortado em R$ 7,46 bilhões. Dá-lhe austeridade. E reza brava, para não precisar bater na porta do agiota novamente. |
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