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JOHN CAGE
“A Microsoft
assassinou a inovação”
Diretor científico
da Sun Microsystems condena os produtos da arqui-rival e prevê
grandes transformações na maneira como o mundo vai fazer
negócios
Luiz
Fernando Sá
John Gage
é um homem de múltiplos talentos. Doutor em economia e
matemática, é diretor científico da Sun Microsystems,
um dos maiores fabricantes de computadores do planeta, e leva em seu
currículo a paternidade da linguagem Java, criada em 1995 para
ser uma espécie de esperanto na babilônia da Internet.
Mas, acima de tudo, Gage é um vendedor. Há cinco anos,
cunhou uma frase que entraria para a história como um dos mais
conhecidos slogans da indústria da informática: A
rede é o computador. E, depois de Scott McNealy, o polêmico
presidente da Sun, é uma das principais estrelas do marketing
da companhia. Gage viaja o mundo proferindo conferências em que
anuncia o futuro, na visão da sua companhia, é claro.
Por conta disso, é dono de uma acurada visão das questões
econômicas e das mudanças que o avanço da tecnologia
pode trazer às empresas e aos países. Confira trechos
da entrevista concedida por Gage a DINHEIRO:
DINHEIRO
Como está a Sun em meio ao turbilhão das ações
de tecnologia?
JOHN GAGE Continuamos em ascensão. Nosso faturamento
cresceu 35% no último trimestre e ganhamos mercado sobre concorrentes
como Compaq, IBM e HP. Nós temos as máquinas que as pessoas
amam na Internet. Por isso, nossa receita subiu de US$ 12 bilhões
para US$ 16 bilhões.
DINHEIRO
De que forma tecnologias como a Java e a Gini contribuíram
para esse resultado?
GAGE Na verdade, essas tecnologias não nos rendem
muito dinheiro. Mas consolidam nossa reputação. As pessoas
estão muito ocupadas e têm cada vez menos tempo para saber
quem está mentindo ou dizendo a verdade. Elas trabalham em cima
de reputação. Nos últimos 18 anos nós temos
dito que a rede é o computador (The network is the computer,
slogan da Sun Microsystmes). Não importa o que a pequena caixa
colocada à sua frente faz. O que interessa é de que maneira
ela está ligada a outras milhões de caixas ao redor do
mundo. Agora é que a maioria das pessoas está entendendo
o que isso significa. O que dissemos este tempo todo é que a
rede mundial de computadores é a chave para mudar a Daimler-Chrysler,
a Volkswagen do Brasil, a Fiat, a Embraer ou qualquer outra empresa.
Também não foi de um dia para o outro que marcas como
IBM ou Microsoft ganharam credibilidade. Por que seria diferente com
a Sun?
DINHEIRO
Grande parte da notoriedade da Sun veio da rivalidade com a Microsoft.
Como o sr. analisa a possibilidade de divisão da empresa de Bill
Gates?
GAGE É curioso. Quatro ou cinco anos atrás,
Scott McNealy (presidente mundial da Sun) começou a dizer publicamente
o que todo técnico da área de software dizia de maneira
reservada: A Microsoft faz softwares ruins, cobra demais por eles
e Bill Gates usa táticas criminosas para vender seus produtos.
Na primeira vez que o ouvi dizendo isso, achei até mesmo grosseiro.
DINHEIRO
Mas o sr. discordava dele?
GAGE De forma alguma. Sempre achei que a Microsoft é
a assassina da inovação, mais do que qualquer outra entidade
do mundo da computação. O que ocorreu, em seguida, é
que por toda parte começaram a tratar o Scott como o arqui-rival
de Bill Gates. Como há muita gente que não gosta da Microsoft,
a idéia pegou. Foram feitas reportagens nos cinco continentes
sobre isso e então as pessoas, que conheciam a Microsoft, foram
ver quem era esse pessoal da Sun.
DINHEIRO
Na sua opinião, Bill Gates foi o melhor garoto-propaganda
que a Sun poderia ter?
GAGE Parece uma piada. Como eu disse, no início
pensei que o Scott estava sendo grosseiro. Mas hoje acredito que ele
fez a coisa certa. Olhando com o distanciamento que o tempo nos permite,
temos a impressão que o Scott bolou uma brilhante estratégia
de marketing. Mas naquele tempo, acho que nem ele mesmo sabia onde aquilo
poderia levá-lo. De fato, essa associação com o
nome da Microsoft deu-nos notoriedade. Agora que se provou que Bill
Gates agia de forma ilegal, ganhamos ainda mais credibilidade.
DINHEIRO
Se os softwares da Microsoft são tão ruins, por
que ficaram tão populares?
GAGE A única razão para explicar por que
tanta gente usa softwares da Microsoft é que aqueles que não
sabem muito sobre computadores geralmente perguntam a quem não
entende muito sobre computadores: O que você está
usando? E ouve como resposta: Bem, estou usando Microsoft.
Foi dessa forma que o Windows se tornou um padrão, o que não
quer dizer que seja um bom software.
DINHEIRO
Não está na hora da Sun trocar de lema e, em vez
de a rede é o computador passar a usar a rede
é o computador, o telefone celular, o palm top ou até
mesmo o forno de microondas conectado à Internet?
GAGE Sem dúvida, você tem razão. A
questão crucial, desde que os cientistas começaram a usar
os circuitos integrados para fazer coisas interessantes, lá nos
anos 40, é que dar cada passo sempre custou muito caro. Muitas
das coisas que estamos usando hoje, inclusive a Internet, já
eram possíveis nas décadas de 50, 60 ou 70. A diferença
é que hoje existem aparelhos dotados de alguma inteligência,
capazes de conversar entre si. Isso permite que ganhemos escala e tornemos
economicamente viáveis descobertas feitas há 20 ou 30
anos. O que é fantástico é ver a reação
desses jovens cérebros de nossos tempos quando ficam sabendo
que seu trabalho hoje já estava, em grande parte, escrito lá
atrás.
DINHEIRO
E qual será o próximo passo?
GAGE O próximo passo será o desenvolvimento
de processadores cada vez menores e mais baratos, com circuitos que
poderão ser impressos em uma folha de papel ou no tecido de sua
camiseta. E, então, fazer todos esses chips se comunicarem entre
si. Há 160 anos surgiu o telégrafo, há 124 anos
o telefone. Antes disso havia os sinais de fumaça, os tambores
etc. Sempre existiu uma maneira de comunicação à
distância. O que estamos fazendo é torná-la cada
vez mais rápida, combinando as tecnologias disponíveis.
E as combinações estão ficando tão intensas
que hoje já não há grande diferença tecnológica
entre um telefone celular e um palm top. Eles são praticamente
idênticos: um processador, alguma memória, uma pequena
tela e um teclado. Assim, a questão se resume a design, ou seja,
como torná-los mais úteis às pessoas.
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