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DEBATE Simone Goldberg
Em linguagem popular, a tônica dos debates no XII Fórum Nacional, realizado semana passada na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, poderia ser resumida pela expressão fritar o peixe com um olho no gato. Ou, em economês polido, conciliar avanços sociais com crescimento econômico sustentado, sem pôr em risco a estabilidade da moeda. O tema não é novo em encontros deste tipo, até porque essa dificuldade constitui a Esfinge do Real. Em seis anos de vigência, o Plano foi incapaz de transformar a estabilidade de preços em prosperidade para a maioria. Este ano, porém, o debate no BNDES foi um pouco diferente. Sobretudo pela ênfase justificatória do discurso de abertura de Fernando Henrique Cardoso, que acabou dando o tom da reunião. Nele não faltaram gráficos e tabelas para tentar mostrar como a preocupação social do governo tornou o Brasil melhor. Para o presidente, o Brasil evoluiu, apesar da alta taxa de desemprego, do alargamento do abismo de renda, do custo absurdo do crédito, da explosão das contas públicas e do crônico desequilíbrio das contas externas. Baseado num relatório de 35 páginas, ele mostrou ao auditório lotado de economistas e empresários, que o percentual de pobres caiu de 44,2% antes do Plano Real para 32,7% em 1998. Destacou ainda a redução do analfabetismo, a retomada do crescimento industrial e o aumento da renda familiar. E então cunhou a frase da semana: "Você pode não dizer que está indo de mal a melhor. Mas está indo de mal a menos mal". Depois de quase uma hora e meia de palestra, FHC havia pavimentado o terreno para que o ministro Pedro Malan demonstrasse seu interesse pelas classes menos favorecidas e a pobreza. "É um problema dramático, que deveria incomodar mais as nossas elites", disse o ministro.
Apesar do calhamaço estatístico, muitos participantes estavam convencidos de que as metas alcançadas até agora não são suficientes e é preciso investir mais no social, estimular o crescimento com um sistema de crédito, cuidar do ajuste fiscal e apoiar exportações. Ou seja, a agenda de praxe. O ajuste fiscal, segundo o especialista em contas públicas Raul Velloso, ainda é precário, porque está baseado na hipertrofia da receita tributária - que não pára de subir desde 1996, de acordo com seus cálculos. Quanto a reduzir os juros e facilitar o crédito, não há unanimidade, principalmente depois da decisão do Fed, Banco Central americano, de elevar a taxa nos EUA. O ex-presidente do Banco Central, Afonso Celso Pastore, e o ex-ministro Mailson da Nóbrega defenderam uma atitude banho-maria: não aumentar nem reduzir as taxas brasileiras, o que significa não dar combustível a uma retomada mais consistente da atividade econômica. Mas houve discordâncias. "Para manter a estabilidade é preciso crescer. E nenhuma economia cresce sem crédito", disse o ex-secretário da Camex, José Roberto Mendonça de Barros. Mas mesmo ele recuou e admitiu que, diante da pressão da taxa americana, esse não é o melhor momento para acelerar a queda dos juros. Juros altos significam restrição à atividade produtiva e ao consumo. Travam a economia, atrapalham o crescimento e estrangulam aplicações nas áreas sociais. "A carga de juros pesa nas contas do governo e impossibilita investimentos em saúde e educação", disparou o economista do PT, Aloizio Mercadante. O deputado deu o tom da oposição no debate. Criticou a dependência de capitais externos e a maneira como o governo trata as questões sociais. Sua intervenção provocou reação e o clima esquentou. O desemprego é o único indicador social que se deteriorou nos últimos cinco anos, devolveu o secretário de Política Econômica, Edward Amadeo. Provavelmente, este indicador não pesa muito nas estatísticas em que o presidente Fernando Henrique se baseia para dizer que no Brasil as coisas vão de mal a menos mal. |
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