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CAPA DA SEMANA

POLÍTICA
Quem escolhe Malan?
O ministro da Fazenda descobre a questão social e ganha espaço como candidato a presidente. Seu problema é não ter eleitores nem currículo para pedir votos

Ivan Martins e Expedito Filho

Foto: Joedson Alves
MALAN: Projeção positiva para fora do País, mais que para o interior, segundo FHC

“Sabe quando Pedro Malan vai sentar na minha cadeira? Nunca”. A frase é de ninguém menos do que o presidente Fernando Henrique, e foi dirigida a um dos seus interlocutores freqüentes no Palácio do Planalto. Outra frase, sobre o mesmo assunto, vem do economista João Manoel Cardoso de Mello, da Unicamp, que conhece o atual ministro desde a década de 70, quando ambos integravam o grupo de economistas que se opunha ao governo militar: “Acredito que ele não pode ser candidato porque não é brasileiro. Trata-se de um americano que ocupa o Ministério da Fazenda”. O empresário Abraam Szajman, presidente do grupo VR, é um pouco mais generoso. “Se Malan subir no lombo de um burro e se tornar popular, tem todo direito a se candidatar”, diz Szajman. Entre os líderes sindicais, sim, a idéia do candidato Malan gera entusiasmo. “Ele deveria se candidatar para saber o que o povo pensa dele”, provoca Paulo Pereira da Silva, da Força Sindical, a mais moderada das centrais brasileiras. “Malan é o homem mais insensível do governo. É um funcionário do FMI. Que fez cortes em todas as área sociais.”

Isso posto, cabe a pergunta: quem apóia a pretensão de Pedro Sampaio Malan de tornar-se presidente da República? Fernando Henrique, a quem ele serve lealmente há cinco anos, não tem dúvida de que Malan sonha com a Presidência, mas a percepção do presidente é que Malan projeta uma imagem positiva para fora do País, mais do que para o seu interior. O candidato do presidente é Tasso Jereissati, do Ceará. As grandes lideranças industriais de São Paulo, procuradas por DINHEIRO, preferiram nem falar sobre o assunto – provavelmente porque não iriam se derramar em elogios ao ministro, como alguns demonstraram em conversas privadas. Na última semana, quando Malan pôs-se a falar claramente como candidato, manifestando a chamada “preocupação social” inclusive em reuniões fechadas com políticos do PFL, colheu uma única adesão conhecida, a do economista Gustavo Franco, uma das pessoas mais impopulares nos meios econômicos do País.

Foto: Joedson Alves
O ANTI-SLOGAN: “Se estabilidade fosse suficiente, a Libéria seria o melhor país do mundo”

Na ponta do lápis, o instituto de pesquisas Vox Populi, de Belo Horizonte, descobriu que 20 dias atrás o ministro com maior exposição de mídia do governo tinha apenas 2% das intenções de votos para presidente. Para que se tenha uma idéia da magreza desse número, basta lembrar que o senador Eduardo Suplicy, do PT, que só aparece na TV quando passa um cometa, tem 8% dos eleitores do País. “O ministro pode ter sido encorajado pela falta de opções ao redor do Presidente”, especula João Francisco Meira, presidente do Vox Populi. O especialista em pesquisas diz que o futuro de uma eventual candidatura Malan está ligada de forma indissolúvel a dois fatores: a retomada do poder de compra da moeda e a redução do medo do desemprego. São os mesmos fatores que irão decidir o futuro do ministro nos meios políticos de Brasília. Se a economia crescer, o desemprego cair e o salário real aumentar, Malan vai virar um bilhete premiado. Será abraçado pelo PFL e o PSDB. Como isso está longe de acontecer, ele é um Branca Leone a procura de um exército. Tem apoio conhecido apenas na cúpula do PMDB, mas o partido também namora Ciro Gomes, dono de 25% das intenções de votos para presidente. É de se imaginar, aliás, o que o agressivo candidato do PPS faria durante um debate com o ministro da Fazenda que detém o recorde histórico de desemprego no Brasil -- 7,6%, em 1999.

Falta voto. Informalmente, Malan costuma dizer o seguinte: “Tenho todas as qualidades para ser presidente da República, menos uma -- os votos”. O ministro deveria acrescentar que lhe falta currículo. Sua intensa preocupação social dos últimos dias, por exemplo, não encontra amparo nos números da sua gestão. Pelo contrário, Malan pode entrar para a história como o homem que conduziu a maior transferência de recursos da área social para o pagamento de rentistas. No orçamento da União deste ano, 78,3% do total de R$ 1 trilhão são destinados ao pagamento do principal e à rolagem das dívidas, interna e externa. Quando Malan tornou-se ministro, em 1995, a dívida consumia 46,4% do total das verbas públicas. O aumento explica-se tanto pela explosão das taxas de juros quanto pela decisão de priorizar o serviço da dívida sobre os demais compromissos do governo. “O orçamento está totalmente voltado ao pagamento da dívida, principalmente após o acordo com o FMI”, afirma Aurélio Vianna Filho, diretor do Inesc, uma ONG voltada para a análise do orçamento. “O pouco que sobra vai para investimentos, onde o social disputa dinheiro com estradas.” No orçamento do ano passado, do total de R$ 634 bilhões ficaram apenas R$ 9 bilhões para investimentos. Em tudo.

Foto: Ricardo Stuckert
SERRA, O RIVAL: Ambos vieram da esquerda, mas Malan virou o homem de uma idéia só

É claro que o ministro pode alimentar suas ambições como o homem da estabilidade, o discreto e eficiente exterminador da inflação. Há o exemplo de Domingo Cavallo, na Argentina, que fundou um partido político com base na convertibilidade. Mas ao contrário de Malan, que até a pouco se apresentava como “um simples servidor público”, Cavallo sempre teve personalidade política própria. Ele rivalizava em brilho com o ex-presidente Carlos Menen quando era seu subordinado. Malan não. Aos 56 anos, o mais duradouro ministro da Fazenda brasileiro em tempos recentes tem muito poder, mas se perdesse o emprego amanhã daria palestras mais concorridas em Washington do que em Brasília. É diferente do que ocorre com o ministro José Serra, da Saúde, cujas ambições presidenciais também são conhecidas. Serra não tem muito mais votos que Malan, mas sua trajetória de 40 anos na política e seu acervo de idéias econômicas são um patrimônio intransferível. Ambos começaram na esquerda, mas Malan mudou de lado nos anos 80 e hoje tornou-se um conservador de uma só idéia: o equilíbrio das contas públicas como forma de controlar a inflação. Para ministro da Fazenda de uma país que vinha da anarquia inflacionária, é um programa razoável. Para dirigente do Fundo Monetário ou do Banco Mundial já está ficando anacrônico. Para um candidato à presidência é pouco. Vale lembrar uma frase do próprio Malan: “Se estabilidade fosse suficiente, a Libéria seria o melhor país do mundo”. E Malan o melhor candidato à presidência.

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