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EMPREENDEDOR DESTEMIDO Ping-pong: "Sempre invisto o lucro obtido nas empresas" Ricardo Osman, do Recife
O chapéu de couro não é parte de sua vestimenta habitual, mas João Santos, o rei do cimento nordestino, patrono da indústria de cidades como Mossoró (RN) e Barbalha (CE), acostumou-se a projetar uma imagem de coronel empresarial entre os conterrâneos. Nascido no município sertanejo de Serra Talhada (PE), terra de Lampião, João Santos é chamado por seus pares de empreendedor destemido. Os concorrentes, há quatro anos, chegaram a decretar o seu fim. O Grupo João Santos, segundo maior produtor de cimento do País e um dos três mais importantes conglomerados do Nordeste, ao lado do Odebrecht e do Queiroz Galvão, estava atolado em dívidas. Em 1996, a fábrica Ribeirão Grande, em Capão Bonito, sua unidade de produção mais promissora e única em São Paulo, foi entregue aos bancos credores para estancar prejuízos que chegavam a R$ 430 milhões. João Santos amargou uma retirada dolorosa do maior mercado consumidor do País. Deixou o território sob domínio absoluto dos Ermírio de Moraes do Grupo Votorantim, líder do setor e cujo patriarca é seu conterrâneo. João foi forçado a reassumir, com rédeas firmes, a direção do conglomerado, que já compartilhava com os filhos Fernando e José, vice-presidentes. Mas, como a vida no rude sertão ressurge da seca, o sertanejo, um forte, reaparece na paisagem econômica. João Santos levantou-se, sacudiu a poeira com o gibão, e anuncia a recuperação de suas empresas, coroada com a volta ao mercado de São Paulo. Aos 92 anos, ele vem a galope. Vai construir a nova fábrica em Capão Bonito, sudoeste do Estado, onde já tem jazida de calcário. Além disso, comanda a construção de três outras unidades de produção pelo País afora, uma na margem do Rio Tapajós, no Pará; outra em Ituaçu, na Bahia, e a terceira no Piauí. Atualmente, com dez mil funcionários, oito fábricas em pleno funcionamento, o faturamento previsto para este ano é de R$ 900 milhões no patamar de uma multi regional. É a reconquista do patrimônio dos bons tempos: 12 unidades de produção. Santos passou os últimos quatro anos reorganizando as empresas, enxugando o quadro de funcionários e diversificando sua atuação nos setores de papel e comunicação. Ainda em 2000 vai lançar um jornal regional em Pernambuco, que se juntará às duas emissoras de TV do grupo, com sedes em Recife e Vitória (ES), e a outro jornal com circulação no Espírito Santo. Com inabalável capacidade de inovar, este senhor nonagenário pôs fim, na semana passada, a um silêncio de 40 anos e concedeu entrevista exclusiva à DINHEIRO. O segredo do modesto sucesso que alcancei está no devotamento ao trabalho, no rigor da poupança e na máxima vigilância das aplicações do que ganhava, conta ele, que caminha com vigor. A fonte da vitalidade é o trabalho. O labor constante e agradável é renovador. Inclusive, estimula e rejuvenesce. A fama de seu nome e a notoriedade de sua riqueza contrastam com a vida discreta e a aversão a compromissos sociais. João Santos não vai a festas e raramente freqüenta recepções de autoridades. Muito a contragosto, compareceu recentemente a solenidade em sua homenagem na sede da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe). Vestia, como sempre, terno de corte simples, convencional. Personagem de conversa agradável, de clara devoção ao Nordeste, é severo na contenção de despesas. Conta-se que, certa vez, agachou-se para pegar um clipe no chão e entregou-o à recepcionista dizendo: Guarde, pode servir ainda para alguma coisa. Todas as manhãs comparece à sede do conglomerado, o edifício Nassau, no centro antigo do Recife, para mais um dia de trabalho. Diante do velho porto, o patriarca dos Santos assiste, com confiança, a chegada de sua terceira geração aos altos postos da empresa. O neto João Carlos Noronha, ainda 30 anos incompletos, é o superintendente da fábrica da Ilha de Itapessoca, a primeira a ser construída, em 1951. João Santos trabalha ininterruptamente há 84 anos. Filho de um fazendeiro do Interior, mudou-se ainda garoto, com a morte do pai, para Alagoas. Pobre, começou a trabalhar como menino de recados do industrial Delmiro Gouveia, na fábrica de Linhas da Pedra. Aos 11 anos, a família mandou-o estudar no Recife. Passou por vários empregos e, com afinco, formou-se em 1930 em Economia, pela Faculdade de Comércio de Pernambuco. Foi contador e sócio da firma Adriano Ferreira & Cia e da usina de açúcar Santa Tereza. Depois de se casar, em 1934, deu início à sua trajetória de empresário arrojado tornando-se o dono da usina. Autodidata em idiomas, músico desde a infância, no tempo da Banda Operária, João Santos incomodou pela primeira vez a elite do Estado. O fato de assumir a usina teve grande impacto na conservadora oligarquia rural da década de 30, lembra um ex-assessor. Santos não vinha da Casa Grande. Amigo do jornalista Assis Chateaubriand, que estudara no Recife, e admirador de Maurício de Nassau, o fidalgo holandês, que administrou Pernambuco no século XVII, Santos inaugurou no início da década de 50 a Fábrica de Cimento Nassau. E, desta vez, realmente incomodou a elite industrial. Adentrou terreno ocupado e hostil, o do emergente mercado dos fornecedores da construção civil. O patriarca dos Ermírio de Moraes, José, já produzia nesta época, no Recife, o cimento Poty. A venda do primeiro saco de cimento Nassau deflagrou uma disputa entre as famílias, recheada de momentos de ousadia e de escapadas, por todo o País. A história recorrente é de que Ermírio de Moraes teria baixado artificialmente os preços do seu cimento para deter o adversário na largada. Mas Santos teria revidado com a mesma moeda, ao enviar toneladas do produto, por meio de chatas (pequenas embarcações de carga), para o Rio de Janeiro, mercado cativo dos Moraes. Nenhum dos dois lados comenta o assunto. Nossas relações são amistosas, guardadas as distâncias de ser o grupo que dirijo pequeno e modesto quando comparado a esse gigante da empresa nacional que é o Votorantim, ameniza João Santos. Ambos os grupos cresceram na década de 70 ao fornecer cimento para o sonho desenvolvimentista do regime militar, que incluía grandes hidrelétricas e pontes. A vida do empresário foi abalada na década seguinte por uma tragédia. O primogênito, João Santos Filho, faleceu em acidente de avião no Paraguai, onde o grupo construía uma fábrica. João deu a um dos prédios da empresa no centro antigo do Recife o nome do filho perdido. João cultiva um jeito singular de mover seus negócios: sempre coloca a emoção em primeiro lugar. E é dado a gestos emblemáticos. A cada avanço, na abertura de fábricas, por exemplo, ele arremessa o chapéu na fornalha onde é feito o cimento. O chapéu agora é de São Paulo. |
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