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CAPA DA SEMANA

MERCADO
Nasdaquito
Latinos querem bolsa virtual

Lucia Kassai

Arte: Tato
BOLSA ELETRÔNICA: Brasil e Argentina decidem atender ao capital de risco

Estão no forno duas versões tropicais da Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos Estados Unidos. Decididos a impedir a fuga maciça de empresas da “nova economia” para a bolsa do Norte, a Bovespa e a Bolsa de Buenos Aires decidiram atender ao chamado do capital de risco e montar seus “Nasdaquitos” - o apelido dado ao projeto da capital portenha. Serão pregões para empresas novas, sujeitas a regulamentação menos rígida e prontas a receber capital de risco. No Brasil, a sugestão foi fruto de um estudo encomendado pela Bovespa ao professor José Alexandre Scheinkman, da conceituada Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e ao economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações. A recomendação vem na hora certa para revitalizar o pregão, que hoje negocia R$ 400 milhões por dia, depois de chegar a movimentar R$ 1 bilhão três anos atrás, antes da crise da Ásia.
Perto de 10 empresas de Internet, entre elas UOL, Submarino e iG, já manifestaram o desejo de abrir o capital na Nasdaq, em busca dos dólares dos investidores americanos. Não apenas porque lá há mais dinheiro. Tecnicamente, elas não poderiam lançar ações no Brasil porque um dos pré-requisitos aqui é que tivessem publicado balanços auditados nos três anos anteriores. O portal iG, por exemplo, sequer tem um ano de idade.

A bolsa eletrônica poderia ser uma bolsa independente ou um subsistema da Bovespa. Ela negociaria apenas empresas que se encaixassem num perfil pré-estabelecido. As empresas teriam que ser mais transparentes na divulgação de informações ao mercado, criariam dividendos especiais para papéis sem direito a voto e colocariam no mercado mais ações ordinárias do que preferenciais. Na Bovespa ninguém quer comentar o assunto. Houve mal-estar com a divulgação das informações por Scheinkman e Mendonça de Barros.

O desconforto não é casual. O Brasil já tem, na prática, uma bolsa eletrônica chamada Sociedade Operadora do Mercado de Ativos (Soma), da qual a própria Bovespa é acionista. A Soma foi fundada em 1996, mas ainda não decolou. Ali, as empresas apresentam menos informações e a anuidade é menor. Apesar de várias vantagens para as companhias listadas (ou justamente por causa delas) o investidor não se mostrou muito receptivo. O volume diário não passa de R$ 6 milhões, o mesmo que a Bovespa negocia em aproximadamente seis minutos. O diretor-geral da Soma, Romeu Pasquantonio, não gostou nem um pouco da possibilidade de uma concorrente. “É um equívoco. A Bovespa acaba de promover a fusão entre as bolsas de todo o Brasil. Por que criar uma outra?”. Pasquantonio ainda não havia sido informado das conclusões do estudo. A Bovespa mexeu em um vespeiro e precisará se explicar.

Qualquer que seja sua decisão – criar uma bolsa eletrônica independente ou investir na Soma –, a Bovespa precisa agir rápido. É que a Bolsa de Buenos Aires está prestes a colocar no ar o seu “Nasdaquito”. Caso a Nasdaquito dê certo, vai permitir que pequenos investidores apostem no setor de tecnologia, antes restrito apenas a grandes fundos de investimento. Antes, porém, é preciso criar uma regulamentação para permitir que os fundos de pensão argentinos, donos de um patrimônio de US$ 18 bilhões, invistam no negócio. A Bolsa de Buenos Aires está correndo contra o tempo. Duas empresas argentinas – a Impsat e o site El Sitio – pavimentaram o caminho e abriram o capital em Nova York. Outras poderão pegar a mesma estrada, se as vantagens de ficar em casa não forem significativas.

Outra saída para a Bovespa pode ser uma associação com a Bolsa de Nova York. “Estamos conversando, mas nada muito sério”, diz Richard Grasso, manda-chuva da NYSE. O projeto é a criação de um pregão conjunto. A NYSE está em negociação com as bolsas de Toronto, México, Santiago e com a Euronext. As conversas estão mais frias com Buenos Aires e São Paulo. Mas, dependendo do andar da carruagem, podem voltar a esquentar.

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