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CAPA DA SEMANA

SALÁRIO MÍNIMO
A bandeira do mínimo
Para conquistar a batalha do piso de R$ 151, governo abre cofres a parlamentares arredios, dá aumento aos servidores e pune aliados traidores

Expedito Filho

Foto: Folha Imagem
FORÇA OPOSTA: Agricultores engrossaram o coro de trabalhadores, aposentados e sindicalistas contra a proposta governista

O governo montou uma estratégia de guerra para aprovar o salário mínimo e convocou a equipe econômica para agir na infantaria política. Pela primeira vez em seis anos de governo, ela desceu do salto. Até um a imensa fogueira de vaidades foi superada. Na terça-feira da semana passada, um dia antes da votação do salário mínimo, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, manteve um encontro sigiloso com o ministro da Saúde, José Serra. No mundo do tucanato, os dois estavam entre os bicudos que não se beijam. Ao longo dos seis anos do governo FHC quase nunca se encontraram reservadamente. Mas, pela aprovação do mínimo de R$ 151, os dois deixaram diferenças de lado. Na quarta-feira, dia da votação do desidratado salário, boa parte dos parlamentares da base recorria aos cofres do Ministério da Saúde em busca de agrados para as suas bases. “No PTB, alguns deputados comemoram convênios para os seus municípios”, disse um parlamentar governista.

Malan voltaria a atuar ainda naquele mesmo dia. Desta vez, ligou para o presidente da Câmara, Michel Temer. E desatou o nó da reforma tributária, amarrado há meses, com velocidade capaz de impressionar o interlocutor. No novo texto da emenda, as contribuições sociais não incidirão sobre receita da exportação, nem serão objeto de isenção ou não-incidência. Terão alíquotas estabelecidas em lei e recairão, também, sobre o valor de bem ou serviço recebido do exterior. Além disso, o regime de tributação será simplificado. Até uma reivindicação de um cargo para um correligionário do deputado Temer foi assegurado. No Ministério do Planejamento, Martus Tavares se comprometia a sancionar o orçamento o mais rápido possível para liberar as emendas dos deputados governistas. No dia seguinte, lá estava o orçamento sancionado. No Planalto, o ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, pedia votos por telefone, e recebia deputados no corpo a corpo. Todo mundo entrou na dança: correligionários, assessores, economistas e ministros saíram à luta por apoio à proposta do governo. Na Praça dos Três Poderes os adversários da idéia também se contavam aos montes. Trabalhadores, aposentados, sindicalistas, um pelotão de críticos. Misturavam-se a outros protestos: índios, que reclamavam da mudanca no código florestal, e agricultores, que foram buscar um pacote para o setor e acabaram engrossando o coro contra o mínimo.

Na quarta, a equipe econômica reuniu-se, pela manhã, com FHC e os líderes da base governista, quando apresentaram os números otimistas da economia. Durante o encontro, apontaram um decréscimo no desemprego, destacaram o crescimento da indústria e produziram argumentos para que cada líder parlamentar convencesse sua base. “Todo o esforço foi feito sem um arranhão nas metas fiscais”, diz um assessor palaciano. Para se ter um idéia da força política da equipe econômica, basta lembrar que o deputado Rodrigo Maia (PTB-RJ) decidiu votar contra o governo, mas antes ligou para o presidente do BC, Armínio Fraga, para explicar que só estava votando pelo salário de R$ 177 porque seu pai, César Maia, é candidato a prefeito do Rio. Na quinta-feira, FHC anunciou pela tevê o piso salarial federal de R$ 392,60, combinado com a equipe econômica.

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