|
EDUCAÇÃO
Seu filho sabe o quanto vale 1 real?
Se ainda
não, talvez seja a hora de começar a ensinar.
Veja por que e como
Marta
Barbosa
|
Fotos:
Ciete Silvério
|
|
|
| BRUNO
CHAHINE: Sete meses sem lanches no McDonalds e acordo
com a família para pagar conta de telefone |
Ensinar
seu filho a lidar com dinheiro não é tarefa
fácil. Mostrar o verdadeiro valor das coisas é
um desafio. Mas quanto antes você se preocupar com isso,
melhor será a relação dele com dinheiro.
As lições precisam começar nos
primeiros anos de idade em casa, na escola e, principalmente,
com o exemplo dos pais, explica a consultora Cássia
DAquino, autora de um programa de educação
financeira para escolas de São Paulo. Mesmo que o seu
pequeno não receba mesada (ou semanada), ele provavelmente
exerce influência na hora de comprar um brinquedo ou
escolher um restaurante. Basta lembrar a quantidade de produtos
no mercado de olho nesse potencial de consumo.
Que
é difícil você já sabe. Então,
como fazer isso? Comece ensinando a diferença entre
querer e precisar. A criança deve ter noção
de que quando quer uma coisa, mas ela não é
essencial, precisará esperar algum tempo entre a escolha
e a compra. A noção do tempo é importante
na educação financeira.
A criança precisa saber esperar para ter dinheiro,
assim como qualquer trabalhador aguarda um mês para
receber seu salário. Especialistas defendem que a partir
dos 2 anos (isso mesmo, 2 anos) o dinheiro comece a fazer
parte do vocabulário. Nessa idade, elas já
podem aprender o significado da moeda, afirma a professora
Neide Noffs, da Faculdade de Educação da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
A partir dos 3 anos, dê ao seu filho uma moeda uma vez
por semana. Que tal deixar que ele entregue as notas para
pagar o pão no balcão da padaria? Nessa idade,
a criança ainda não tem noção
de valor (algumas moedas para ele valerão sempre mais
que uma cédula). É um bom momento de explicar
o significado de caro e barato. A bióloga Cláudia
Kohler e o oceonógrafo Paulo Harkot escolheram o supermercado
para iniciar a aula. Sempre levamos a Marina (8 anos)
e o Fábio (4) para as compras, conta Cláudia.
E estimulamos a comparação de preços.
|
|
| MARINA
E FÁBIO: Aulas no supermercado para aprender a
diferença de caro e barato |
Marina
começou a receber semanada na idade certa, a partir
dos cinco anos. Uma dúvida que Cláudia e Paulo
tiveram, e que a maioria dos pais tem, é como estipular
quanto seu filho precisa. É claro que o cálculo
depende de uma série de fatores: se ele vai pagar o
lanche da escola, por exemplo. A consultora Cássia
sugere, como regra geral, 1 real por ano de vida por semana.
Sendo assim, um garoto de seis anos receberia 6 reais por
semana. Você acha muito? Então dê a idéia
de fazer uma pequena poupança com metade do dinheiro.
E não esqueça de aproximar o objetivo da poupança
da realidade da criança. Como guardar duas semanas
para comprar um álbum de figurinhas.
Outro
ponto fundamental, segundo a psicóloga Ceres Araújo,
é o risco de transferir responsabilidades. Roupas,
calçados e alimentação são obrigações
dos pais. Se a criança quiser participar dessas compras,
ela pode mas sem comprometer sua semanada. O que a família
pode fazer é estabelecer uma remuneração
variável, sugere Ceres. Funciona quase como numa
empresa: a criança ganha um valor fixo por semana e
pode receber mais se tirar boas notas na escola ou conseguir
conservar os brinquedos. Só não vale diminuir
a remuneração se ele não cumprir o objetivo.
E observe que a orientação dos gastos não
pode tirar a liberdade da criança de usar o dinheiro
da forma que quiser. Se ela errar, melhor que erre enquanto
é apenas uma criança.
| BEABÁ
DO DINHEIRO |
A
idade certa para aprender
| Dos
2 aos 3 anos |
| É
hora de dar a noção mais
básica: que dinheiro compra coisas.
Isso pode acontecer naturalmente no
dia-a-dia da família. Explicando,
por exemplo, que o pipoqueiro não
a pipoca e sim que ela foi comprada,
trocada por dinheiro. Já nessa
idade é importante mostrar que
nem tudo que o pequeno quer pode ser
comprado na hora. |
|
| Dos
5 aos 10 anos |
| Agora
sim seu filho já deve receber
a semanada. Uma boa dica para avaliar
quanto ele precisa receber é
considerar R$ 1 por ano de idade, por
semana. Oriente seu filho, mas deixe
que ele mesmo administre seu dinheiro.
Outro detalhe: estimule a poupança,
mas para um curto prazo e sempre com
objetivos. Exemplo: poupar metade da
semanada por quinze dias para comprar
um álbum de figurinhas. |
|
| Dos
3 aos 5 anos |
| É
a fase em que a quantidade tem mais
importância. A criança
prefere ter cinco moedas de R$ 0,05
do que uma de R$ 1. Aproveite esse momento
para apresentar o dinheiro para seu
filho. Mostre as cédulas e moedas
e comece a dar noções
de conservação do dinheiro,
ensinando que é errado rasgar
as cédulas ou escrever nelas.
Introduza também os significados
de caro e barato. |
|
| A
partir dos 11 anos |
| Nessa
idade, seu filho já deve ter
todas as noções de uso
do dinheiro. É o momento, por
exemplo, de trocar a semanada pela mesada.
A poupança já pode sair
do cofrinho para uma caderneta em um
banco. Estimule também que seu
filho contribua com o dinheiro dele
na compra de roupas, sapatos e gastos
com lazer. |
|
|
|
Foi o que fez a engenheira Sumaya Chahine quando notou que
o filho Bruno, de 8 anos, quis participar de um programa de
televisão ligando para um 0900. Mostrei para
ele o quanto era caro, diz ela. Mas não
bloqueei o telefone porque queria que ele aprendesse sozinho.
Foi o que aconteceu. Quando a conta do telefone chegou, só
as ligações para o 0900 somavam 150 reais. Sumaya
disse ao Bruno que era ele quem deveria pagar. Mas como ele
iria pagar uma dívida de 150 reais se sua semanada
não ultrapassa 10 reais? Fizemos um cálculo
de quanto ele gastava cada vez que ia ao McDonalds e
quantos meses ele deixaria de ir para pagar a conta,
lembra Sumaya. Bruno ficou sete meses sem ir ao McDonalds
e nunca mais a conta de telefone foi tão alta.
Pode parecer cruel, mas é melhor que a criança
sofra com dívidas durante a infância, para que
isso não aconteça quando ela tiver dependentes
e obrigações muito mais sérias. Crescer
sem saber lidar com o dinheiro pode ter conseqüências
graves: consumir compulsivamente, ficar o tempo todo no vermelho
e não conseguir educar seus filhos de forma adequada.
Talvez seja a hora de fazer uma auto-avaliação...
|
LEIA
MAIS
Manual do vilão
Seu filho sabe o quanto
vale 1 real?
Abra o olho enquanto
é tempo
Alugar ou comprar?
|