|
FINANCEIRO
Bancos
- ser ou não ser, eis a questão
Instituições
podem virar corretoras ou companhias de investimento, para
fugir da regulamentação e dos custos
Ernesto
Bernardes e Marcelo Aguiar
|
Arte:
Tato
|
|
|
|
NOVO SALTO: Dezenas de instituições devem
trocar o status de banco |
O Brasil é um país coalhado de bancos. Antes
do Plano Real contavam-se 261 deles, entre os múltiplos,
comerciais e os de investimento. Hoje, depois de quebradeiras
e fusões, restam 220, mas esse número deve encolher
nos próximos meses. Várias instituições
já fizeram consulta ao Banco Central para operar a
transformação de seu status para o de simples
corretoras o que, no caso de muitos, significa voltar
às origens. Além de corretagem de títulos,
algumas cogitam mudar a situação jurídica
para a de companhia de investimentos, o que permitiria
drástica redução de custos. Poucas organizações,
como o Síntese, de São Paulo, já abdicaram
de fato da condição de banco. Mas, entre os
possíveis candidatos, há peixes grandes, como
o Matrix e o Icatu, e instituições menores,
como o Prósper e o Prime, do Rio.
Há vários motivos para esperar a virada. A primeira
é que, até 31 de agosto, os bancos precisam
se enquadrar nas novas normas do Banco Central que estabelecem
limites mínimos de capital e de patrimônio para
as instituições. O capital mínimo para
um banco comercial, por exemplo, passa a ser 32% maior do
que é hoje. De acordo com a última estimativa
do BC, feita em meados do ano passado, 89 instituições
ainda não tinham condições de se enquadrar
nesses limites. Soma-se a isso uma outra resolução,
que exige um volume maior de provisões para os créditos
de liquidação duvidosa. O resultado é
que, para os pequenos e para boa parte dos grandes, ser banco
se tornará um negócio menos compensador. A
tendência é clara. A maioria das corretoras que
viraram bancos nos últimos anos tende a virar corretora
novamente, explica Alberto Borges Matias, sócio
da Austin Asis Consultoria. A estrutura ficou pesada.
E os pequenos quase sempre podem continuar fazendo a mesma
coisa que fazem hoje, sem a carta de banco, diz Paulo
Roberto Simões da Cunha, diretor da KPMG.
Para muitos, as exigências de estrutura de controle
do Banco Central se tornaram sufocantes. Apenas o Cadoc, o
Catálogo de Documentos que o BC exige de cada instituição
financeira, possui 40 páginas. O diretor de um banco
de investimentos carioca conta que preenchia um dos questionários
exigidos pelo BC quando descobriu que somente uma das perguntas
tinha 25 sub-itens. Levei uma semana para preencher.
É muito ônus para um banco pequeno, reclama.
Nessa situação, pode ser mais negócio
se transformar em companhia de investimento, que, por não
ser classificada como instituição financeira,
fica fora da alçada de fiscalização do
BC.
Na sede do Matrix, em São Paulo, os executivos admitem
que o título de banco pode não ser necessário
para o funcionamento da empresa. Mas dizem que ainda não
há consenso entre os sócios sobre se vale a
pena devolver a carta-patente. Temos muitas análises
a fazer antes de chegar a uma conclusão, explica
um diretor. O mercado especula sobre a possibilidade de o
carioca Icatu, da família Almeida Braga, transformar-se
também em companhia de investimentos. Mas os executivos
da empresa negam a possibilidade.
Pelo menos um banco múltiplo carioca admite a idéia
de mudar de status. O Prime, dissidência da antiga corretora
Marka, existe como banco desde 1990, mas ainda tem a corretagem
como maior fonte de lucro. A tesouraria (que aplica no mercado
os recursos próprios de uma instituição)
tira algum proveito da condição de banco para
conseguir crédito no mercado, e se beneficia da liberdade
para captar recursos emitindo certificados de depósitos.
Mas não são mecanismos vitais. Se concluirmos
que o custo não compensa, voltamos atrás,
resume Leonel Machado, superintendente administrativo e financeiro.
A diferença entre o patrimônio do banco e necessário
para se enquadrar às novas regras do BC é de
cerca de R$ 1 milhão. Caberá ao controlador,
o presidente da Bolsa do Rio, Carlos Reis, decidir se o negócio
vale o preço.
A dúvida sobre as vantagens de continuar como banco
surgiu também no Prosper, da família Peixoto
de Castro. As fontes de receita do banco podem ser mantidas
sem uma carta-patente nas mãos: gestão de recursos,
corretagem, tesouraria e crédito para pequenas e médias
empresas. Essa atividade, mesmo envolvendo crédito,
pode ser feita com uma empresa de factoring, que dá
dinheiro em troca de recebíveis e duplicatas. Mas os
sócios dizem que manter o banco valoriza o passe na
negociação da entrada de um sócio estrangeiro.
Prefiro me associar a alguém que traga uma placa
forte e me permita ganhar escala, diz o diretor executivo
André Petersen. Ele admite, porém, que se isso
não ocorrer, a desativação da patente
entra no cardápio. Se a carta só implicar
custo, seria uma alternativa espetacular. Mas ainda não
fizemos a conta, afirma.
|
LEIA
MAIS
Bancos - ser ou não
ser, eis a questão
Cavaleiros do apocalipse
A bolsa do Rio na linha
de tiro
Mais milionários
no mundo
|