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MERCADO FINANCEIRO
As ações que o urso comeu
Queda nos papéis de tecnologia já fez algumas companhias virarem pó. E acionistas também

Lucia Kassai

Na gíria dos investidores americanos, é dia de urso quando o mercado entra em queda livre (porque, quando ataca, o urso dá patadas para baixo). Nas últimas semanas, o sobe-e-desce das ações de tecnologia levou os analistas a decretar que a “bolha” ainda não havia estourado de vez – afinal, a queda acumulada da Nasdaq é de apenas 8,6% no ano. Mas, para investidores que viram seus papéis perderem até 91% de seu valor, foi temporada de caça – e o urso os engoliu. “Comprei um papel que antes valia US$ 330 por US$ 110, achando que estava fazendo o melhor negócio da minha vida”, conta o publicitário paulista Paulo Giovanni, sócio da agência Giovanni FCB, que resolveu fazer uma ousada aposta no cassino virtual da Nasdaq, a bolsa eletrônica dos Estados Unidos. O papel, da empresa de software MicroStratregies, hoje vale US$ 8, ou seja, quase 14 vezes menos do que o investidor pagou por ele. “Foi o pior negócio da minha vida”, suspira Giovanni, que nem olha mais para o monitor do computador para não ter desgosto.

Os especialistas acreditam que a bolha das ações de tecnologia não vá estourar, mas certamente murchar ainda mais um pouco. As empresas que não tiverem capacidade para converter os prejuízos em lucros no futuro deverão morrer num impiedoso jogo de seleção natural. Esse movimento começou com a última safra de balanços, divulgada no final do primeiro trimestre. Até o momento, o número 1 da lista de perdedores é a Offical Payments Corporation, que tem um sistema que permite que as pessoas paguem impostos ou bilhetes de estacionamento com o cartão de crédito, pela Internet, mediante o pagamento de uma taxa. As ações da Official Payments, que chegaram a valer US$ 57 no final do ano passado, derraparam feio e hoje são negociadas a US$ 4,25, com desvalorização de 91% somente neste ano. O diretor financeiro, Brian Nocco, renunciou no dia em que a companhia anunciou o prejuízo do primeiro trimestre – de US$ 9 milhões, muito superior aos US$ 121 mil do mesmo período de 1999.

Outra vítima do urso foi a InsWeb Corp., que vende seguros pela Internet. Seus papéis acumulam queda de 89% no ano. As ações caíram após o anúncio de um prejuízo de US$ 13,1 milhões no primeiro trimestre, e o rompimento com um importante parceiro comercial, a State Farm Mutual Automobile Insurance, maior seguradora de carros e casas dos Estados Unidos. Mesmo entre as patas do carnívoro, há quem tente se manter otimista. “A Nova Economia sai de um período de hipercrescimento para um de crescimento racional”, prega Gregory Hawkins, presidente da Buy.com. As ações de sua empresa, que chegaram a valer US$ 35 na abertura de capital, em fevereiro, eram cotadas a US$ 8 na semana passada. A eToys, que já teve valor de mercado de US$ 8 bilhões, caiu para US$ 1 bilhão. Papéis da Talk City, um site de chats, recuaram 86%, para desespero da Starbucks, maior rede de cafeterias dos Estados Unidos, que investiu US$ 8 milhões no negócio. Mas nem todas as quedas são fruto apenas de balanços ruins. No caso da MicroStrategies, a SEC, comissão de valores mobiliários americana, anunciou que investigaria a companhia porque seu balanço havia sido maquiado para apresentar um prejuízo menorzinho. A notícia vazou e aí sim os papéis despencaram mesmo.

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