|
ALERTA
NO MERCADO
Sobe, desce, sobe...
A instabilidade
como sempre vem de fora e lança Fraga
e o País na gangorra
Fabiane
Stefano e Ivan Martins
| Foto:
Joedson Alves |
 |
|
FRAGA:
Declarações sobre queda nos juros não
convencem
|
Quinta-feira
4, 15h30. Em São Paulo, o mercado financeiro vai à
loucura. Acaba de terminar em Brasília uma entrevista
coletiva de 40 minutos com Luiz Fernando Figueiredo, diretor
de Política Monetária do Banco Central, e o
ex-executivo do BBA não disse o que o mercado queria
ouvir. Os operadores e as instituições financeiras
esperavam que o BC, diante da incerteza do ambiente externo
e do futuro das taxas de juros, passasse a oferecer ao mercado
mais papéis pós-fixados, que pagam a taxa de
juro da data de resgate e dão total segurança
ao investidor. Figueiredo, porém, insistiu em que os
papéis serão mantidos como estão. E a
punição veio a galope. Os títulos de
dívida pública pré-fixados, com prazo
de resgate de um ano (as chamadas LTNs, que pagam um juro
fixo e deixam todo o risco com o investidor), saltaram para
22,70%. Dois dias antes, no último leilão realizado
pelo BC, esses títulos haviam sido vendidos a 20,31%
e em 28 de março, há pouco mais de um
mês, o valor era de 18,22%. A evolução
da taxa mostra que nesse período o mercado saiu da
lua-de-mel com o BC para a mais aberta desconfiança.
Ninguém acredita que o governo conseguirá baixar
as taxas de juros rapidamente nos próximos 12 meses,
e os papéis pré-fixados podem se transformar
em mico.
Na manhã da mesma quinta-feira, sentindo a temperatura
subir ao seu redor, o presidente do Banco Central, Armínio
Fraga, fora à televisão para uma longa entrevista.
Tentou acalmar os ânimos dizendo que os fundamentos
brasileiros estão ótimos. Afirmou que a instabilidade
externa não afetou o País porque já não
se depende de capital de curto prazo. Finalmente, garantiu
que o governo manterá a política de queda de
juros no longo prazo, repetindo o que o presidente Fernando
Henrique havia dito à DINHEIRO na semana anterior.
Mas Fraga fez uma ponderação nova: No
curto prazo é preciso ter cautela.
O presidente do BC está vivendo um momento difícil.
O dólar, termômetro sensibilíssimo da
economia brasileira, fechou a quinta-feira em R$ 1,81. Quarenta
dias atrás, estava em R$ 1,72. Veio subindo à
medida em que crescia a inquietação com as finanças
brasileiras e sua arrancada, embora beneficie as exportações,
coloca em risco direto as metas de inflação
e machuca as contas do governo, que tem 25% das suas dívidas
em papéis dolarizados.
Por trás da elevação da moeda americana
está um outro movimento defensivo de mercado. Instituições
e investidores antecipam escassez dessa moeda e apostam na
valorização futura. Na quarta-feira 3, quando
o dólar atingiu a cotação mais alta na
semana, os especialistas identificaram um súbito sumiço
das ofertas de hedge operação que oferece
cobertura ao risco de variação cambial. A
falta de hedge no mercado é a somatória das
expectativas negativas, resume Natan Blanche, da consultoria
Tendências. Mas, afinal, por que o pessimismo? A resposta
a isso, como a tudo que é turbulência na economia
brasileira, vem de fora.
Espera-se para o próximo dia 16, quando o Federal Reserve
de Alan Greenspan se reúne, um aumento de 0,5% na taxa
de juro básica americana. Há quem acredite,
como Paulo Leme, diretor de pesquisa de mercados emergentes
da Goldman, Sachs em Nova York, que uma segunda rodada de
0,5% de elevação está nas cartas para
o verão do Hemisfério Norte, entre julho e agosto.
O movimento defensivo de Greenspan, cujo objetivo é
aterrissar em segurança a hiperaquecida economia americana
evitando que ela desabe repentinamente na cabeceira
da pista , vai inevitavelmente retirar dólares
dos mercados emergentes, afetando diretamente o Brasil. O
País tem uma enorme necessidade de capital externo
para fechar suas contas. Apenas este ano, a diferença
entre o que o Brasil vai gerar em dólares e as dívidas
em moeda americana que ele tem a saldar é de US$ 24
bilhões. Como ninguém imagina que a balança
comercial vá produzir mais que US$ 3 bilhões
de superávit no momento, quase metade do ano,
ela acumulou US$ 209 milhões positivos... o
temor dos efeitos de uma possível revoada de dólares
não pode ser exagerado. Precisamos de capital
externo em escala imprudente, afirma o economista Luciano
Coutinho, da consultora LCA. DINHEIRO apurou que o Palácio
do Planalto também está preocupado com a situação,
mas não em pânico. O presidente FHC sabe que
o modelo é dependente, mas acredita que não
está vulnerável como no passado, quando o País
fechava suas contas com hot money.
A avaliação do presidente, baseada no que lhe
diz a equipe econômica, pode ser muito otimista. Os
fundamentos da economia brasileira não são tão
bons quanto Fraga alardeia e nem poderiam, com tamanha
dependência externa. O insuspeito professor Afonso Celso
Pastore observa que a dívida externa é alta
e tem prazo de pagamento muito ruim. O keynesiano Luiz Gonzaga
Belluzzo diz exatamente a mesma coisa, com outras palavras.
O País precisa captar quantias enormes e depende
totalmente dos humores do mercado internacional, diz
o professor da Unicamp. A eliminação da dependência
do hot money, ao contrário do que o governo
martela, também não foi suficiente para tornar
o País num Super-Homem verde-amarelo das finanças
globais. A questão não é mais o
dinheiro de curto prazo, disse à Estela Caparelli,
de DINHEIRO, o economista Ilan Goldfajn, especialista em câmbio
da PUC do Rio de Janeiro. A crise afeta os capitais
de longo e médio prazo.
Como
tudo na economia aberta do Brasil se liga a tudo que acontece
no exterior, a redução no fluxo de entrada de
capitais pode tornar inevitável o que ninguém
deseja: a elevação das taxas de juros nacionais.
Fraga tem insistido que, no longo prazo, o País chegará
a um dígito de taxa de juros. Hoje, a taxa básica
anual encontra-se em 18,5%. Baseado na meta inflacionária
de 6% e na inflação real que foi de 0,97%
no primeiro trimestre o Copom poderia tranqüilamente
derrubar o juro em sua próxima reunião, marcada
para os dias 23 e 24 de maio. Mas dificilmente o fará.
Há um efeito colateral da globalização
econômica que Fraga raramente discute em público:
a competição com o juro americano. Independente
dos indicadores internos da economia brasileira, se o juro
aqui baixar e o dos EUA subir, o dinheiro voa para lá.
Eu aposto que a taxa de juro vai subir aqui em resposta
ao que acontecer nos EUA, diz Belluzzo. Mais cauteloso,
Pastore recomenda que o BC, pelo menos temporariamente,
deixe as taxas onde estão. Em duas semanas se saberá
a reação do Copom. O que é certo é
que o romance do mercado com a equipe do BC parece ter chegado
ao fim. Agora a relação é na ponta do
lápis, de calculadora na mão.
Com
reportagem de Estela Caparelli (DF)
|
LEIA
MAIS
A nova vida de Rogério
Sobe, desce, sobe...
O adeus de Gesner
As ações
que o urso comeu
|