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A nova vida de Rogério
O defensor do “imexível” mexeu muito na própria rotina. Perdeu a cadela Orca, que ele considerava ser humano, e está ganhando R$ 2 mil como assessor do sindicato dos trabalhadores da construção civil

Box: “Quem coloca um milhão de pessoas
na rua? Só Fidel Castro e nós”

Joaquim Castanheira

Foto: Ciete Silvério
MAGRI: "Não dou entrevista desde que saí do Ministério."

Nos últimos tempos, a vida não tem sido tão “imexível” para Antônio Rogério Magri. Sua cadela Orca morreu anos atrás, como aliás acontece a qualquer ser humano. Seu dia-a-dia também nada lembra os momentos de glória vividos em Brasília, como ministro do Trabalho e da Previdência Social entre 1990 e 1992. Hoje, Magri não despacha no luxuoso e amplo gabinete ministerial. Seu local de trabalho é uma modesta sala de cerca de 12 metros quadrados no 5º andar da sede do sindicato dos trabalhadores da construção civil, localizada no bairro do Glicério, no centro de São Paulo. Lá, ele cumpre expediente de 8 a 10 horas diárias, pelo qual recebe pouco menos de R$ 2 mil mensais – complemento para sua aposentadoria de R$ 2,7 mil.

Cercado por divisórias de fórmica e vidro, seu escritório é despojado de sofisticação. Uma escrivaninha divide o espaço com quatro cadeiras revestidas com curvim preto e um pequeno armário deteriorado. O chão de tacos de madeira não é coberto por carpete ou tapete. A vista da janela mostra a típica paisagem paulistana, de prédios altos e cinzentos. Essa mudança brusca seria capaz de jogar qualquer sujeito num estado de angústia e perda de auto-estima. “Depressão, eu? De jeito nenhum”, diz ele. “Aliás, peão não tem depressão”, explica ele, arriscando uma lição de psicologia. A seguir, salta para outra área do conhecimento humano, a filosofia. “O homem sábio é aquele que não precisa passar sede no deserto para dar valor à água”, diz. “Eu não precisei passar pelo poder para saber que ele é efêmero.” E completa com uma imagem poética. “Esta pequena sala significa para mim a liberdade.” Ufa!!!

Do período de Brasília, Magri carrega um processo por corrupção passiva, em função de uma fita em que ele teria admitido o recebimento de US$ 30 mil para liberar verbas para o Canal da Maternidade, no Acre, sob a responsabilidade da Construtora Norberto Odebrecht. Em fevereiro último, ele foi condenado em primeira instância e recorreu.

De resto, Magri fez uma opção preferencial pelo isolamento. Não compareceu às comemorações do 1º de Maio, embora tenha participado ativamente da organização. “Não dou entrevistas desde que saí do Ministério”. Daquela época, garante, não carregou uma só amizade. Fernando Collor? “Nunca mais falei com ele. Minhas amizades são aquelas que fiz no sindicalismo.”

Agora, está de volta às origens. Além da assessoria ao sindicato dos trabalhadores da construção civil, Magri ainda dá “consultoria” ao sindicato dos eletricitários e à Força Sindical. Magri sente-se à vontade nesse mundo. Ao entrar no sindicato, aperta as mãos de quem encontra, pergunta “como vai?” e retribui a resposta com um sorriso. Para as mulheres, reserva um “minha querida” no início da conversa. Com todos, usa um fraseado rebuscado, quase discursivo. Sua presença ganha destaque graças ao corpanzil de atleta. Magri aparenta bem menos do que seus 59 anos de idade. Os cabelos levemente grisalhos estão cuidadosamente penteados. Ainda exibe a mesma musculatura de 40 anos atrás, quando se tornou faixa preta de judô e campeão de luta greco-romana. De vez em quando, ergue a manga da camisa, fecha o punho e mostra o muque. “Maior do que o de muito garoto de 20 anos”, diz ele. “Mas um dia desses tentei rasgar uma lista telefônica e não consegui”, comenta, levemente desiludido. Explica-se: anos atrás ele gostava de dividi-las ao meio, geralmente em público. “Acho que hoje há mais assinantes e as listas são mais grossas.”

Magri mantém a forma em sua casa, no bairro da Aclimação. Lá, depois de uma caminhada de uma hora pelo Parque da Aclimação, dedica-se a dar sopapos em um saco de areia na garagem e exercitar-se em aparelhos de ginástica. Depois vai para o trabalho a bordo de sua perua Versailles, ano 94. “Foi um presente de minha filha”, diz. À noite, Magri navega pela Internet à cata das notícias que serão publicadas nos jornais do dia seguinte. Compromissos sociais, como jantares cinemas etc., estão fora de sua agenda. “Sou um sujeito caseiro”, afirma. Magri mora com sua mulher e sete cachorros. “E continuo tratando-os como se fossem seres humanos”, diz ele.

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