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Visto de entrada para Wall Street
Não há barreiras para o brasileiro investir no coração financeiro do mundo. Mas, definitivamente, esse não é um negócio para qualquer um

Box 1: Você tem estômago para o sobe-e-desce dos pregões?

Laura Somoggi

ALTO CACIFE: Para os especialistas, aplicar menos de US$ 500 mil nas bolsas americanas pode não ser vantajoso

Você já pensou em comprar ações na Bolsa de Nova York ou na Nasdaq? Gostaria de aplicar parte do seu patrimônio em papéis como Cisco, Dell ou Amazon.com? Bom, mesmo que você acredite que as ações da nova economia estão supervalorizados, poderia ainda optar por nomes como General Motors, Wal-Mart e Exxon – as três maiores empresas americanas segundo o último levantamento da revista Fortune. Os retornos nos últimos anos têm sido atraentes, mas lembre-se de que um bom desempenho no passado não é garantia de resultados atraentes no futuro. Se em seus planos está a diversificação do seu portfólio nas terras do Tio Sam, temos uma boa e uma má notícia. A boa é que não há nenhum impedimento legal para que você faça isso. A má é que acompanhar os pregões lá fora exige uma dose extra de dedicação e conhecimento do mercado externo. Se não fosse assim, como seria possível ter sucesso num mercado com regras e taxas desconhecidas? Ainda hoje, quando se fala em mandar dinheiro para fora do País, muita gente olha com desconfiança. “Não há nada de errado”, diz Elton Cruz, diretor do private bank do Citibank, em São Paulo. “Desde que a origem do dinheiro seja declarada e tudo seja feito de forma oficial (câmbio, a remessa para o exterior, o pagamento dos impostos etc.).”

E nada disso é exatamente simples. Primeiro, é preciso abrir uma conta no exterior. Depois, procurar uma corretora de valores na qual você confie. Assim que você escolher os papéis com base em objetivos de longo prazo, começa uma certa burocracia. Aqui no Brasil você precisa fechar o câmbio com o banco que vai enviar seu dinheiro (o que pode custar até US$ 800 ao ano, segundo Marcos Shalders, diretor do private bank do Lloyds). Além disso, é preciso levar em conta alguns custos:

Corretagem – essa taxa varia de acordo com o volume aplicado e, geralmente, é cobrado em centavos de dólar por ação. “Em média, elas variam entre 5 e 15 centavos”, afirma Cruz, do Citi.
Custódia – também varia em função de quanto se investe. Costuma ficar entre 0,3% e 0,5% do total investido ao ano.
CPMF – toda vez que o dinheiro entrar e sair da sua conta aqui no Brasil.

Até aqui, não há nada de tão diferente de investir no mercado local. Mas, note: você deve conhecer os mecanismos e burocracias externas. Há mais dois aspectos a serem levados em consideração: a variação cambial e a tributação. Todos esses elementos somados fazem com que comprar papéis em Wall Street seja recomendado apenas para grandes investidores. “Não é um bom negócio para quem tem menos de US$ 500 mil”, diz Sérgio Kulikovsky, um dos sócios do portal financeiro Patagon. “Quanto menor o investimento, maior o peso de todos esses custos.” E esse valor não se refere ao patrimônio total, apenas à parte que será destinada ao investimento em ações. Há especialistas no mercado que acreditam que um volume de US$ 300 mil já justifica uma diversificação global da carteira de investimentos. Ainda assim, uma quantia mais do que respeitável.

BOLSA DE CÁ E DE LÁ

Veja quais foram as variações reais médias do índice da Bolsa de Valores de São Paulo e dos principais Índices do mercado acionário americano em diferentes períodos:

Ibovespa (1) Nasdaq (2) Dow Jones (2) S&P 500 (2)
Desde o Plano Real 16,6% 34,8% 18,0% 20,3%
Desde a queda da Bolsa de Nova York em 1987 17,9% 16,0% 7,4% 8,1%
De 1990 a 1999 14,8%

18,7%

10,0% 9,9%
De 1995 a 1999 18,7% 47,0% 30,7% 32,4%
De 1997 a 1999 26,9% 65,9% 37,2% 42,2%

(1) Variação real (descontada a inflação do período)
(2) Variação real e em reais (descontada a inflação e a variação cambial no período)

Fonte: Hedging-Griffo

Impostos. A tributação é um dos aspectos mais controversos. Se você perguntar a quatro profissionais, ouvirá cinco teorias. De acordo com a advogada tributarista Nicole Borger, os ganhos de capital são taxados em 15%. Já os dividendos seguem a tabela progressiva do imposto de renda, que vai de 0% a 27,5%. Além disso, é preciso pagar tributo sobre os eventuais ganhos com a variação cambial. Detalhe: pela legislação americana, mesmo os investidores não residentes têm de pagar imposto sobre a compra e venda de ações de empresas locais – alíquotas que podem chegar a 30%. Há, portanto, bitributação. “A solução é pagar lá e pedir para a receita brasileira ressarcir”, afirma Nicole. O resumo da ópera é que se você não tiver uma boa assessoria tributária e de investimentos, pode ter muita dor de cabeça. Outro aspecto fundamental: tanto trabalho é uma razão a mais para colocar o seu dinheiro lá fora e deixar por um bom tempo (leia quadro).

Mas se você não tem interesse em aplicar nos pregões, há um outro investimento atraente para quem quer ter parte da sua carteira de aplicações lá fora. São os bradies, títulos da dívida externa brasileira negociados nos EUA. “É uma boa opção para quem confia no País e quer ter parte dos seus investimentos dolarizados”, afirma Luiz Stuhlberger, um dos sócios da corretora Hedging- Griffo, de São Paulo. Isso porque a sua valorização está atrelada à percepção que o mercado tem do risco Brasil e, por isso, pode oscilar bastante. Trata-se também de uma boa alternativa de investimento de longo prazo. Portanto, quem precisar vender no curto prazo pode perder dinheiro. O C-Bond, um dos títulos mais negociados, tem vencimento em 2014 e pagava juros de 13,9%, de acordo com dados levantados no mercado no dia 24 último. Há opções que vencem antes, como o IDU (em 2001) que paga juros de 7,6%, em dólar. Ou o EBI que vence em 2006 e paga 12,5%.

Como no investimento em ações, aplicar em bradies significa correr riscos também com a variação cambial. Outro ponto em comum: é indicado apenas para grandes investidores. “É um mercado sofisticado, e que exige muita informação”, afirma Diógenes Raineri Fiocco, vice-presidente da Finasa Asset Management. Os especialistas sugerem essa aplicação para quem pode investir no mínimo US$ 100 mil. Para quem não pertence a esse seleto grupo há uma alternativa: os fundos de investimento no exterior que recheiam suas carteiras com esses títulos e que estão disponíveis no Brasil – em reais e cobrando taxas locais.

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