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CRISE
A
concordata explosiva da Arapuã
Empresa
afunda em meio a operações suspeitas e investigação
da CVM
Lucia
Kassai
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Fotos:
Prensa Três / Masao Goto Filho-AE
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RENATO
E JORGE SIMEIRA JACOB, OS DONOS:
3 anos sem publicar balanço |
Um processo que corre em sigilo na Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) pode jogar alguma luz numa das concordatas
mais polêmicas da história do varejo brasileiro,
a das Lojas Arapuã. Sob investigação
estão empréstimos suspeitos, remessas de dinheiro
para o exterior, atraso de entrega dos balanços e maus
tratos aos acionistas minoritários, daquela que já
foi uma das maiores redes varejistas do País. A investigação
da CVM surge num momento crítico. A juíza Cláudia
Longobardi Campana, da 6ª Vara Cível de São
Paulo, decidiu que se a empresa não depositasse até
sexta-feira, 28 de abril, uma parcela no valor de R$ 260 milhões,
teria sua falência decretada. A Arapuã, sem dinheiro
e atolada em dívidas de quase R$ 1 bilhão, entrou
na Justiça em busca de uma liminar que ao menos retarde
a sentença final.
Balanços
maquiados. A investigação da CVM teve origem
em uma queixa encaminhada por um acionista minoritário,
Antônio Martins, dono de 0,0016% das ações
da companhia e superintendente da Evadin, uma das maiores
credoras. Ele alega que a abertura de capital da Arapuã,
feita em 1995 e que arrecadou R$ 200 milhões, foi feita
com base em balanços maquiados. Na época, sustenta
ele, a empresa já viveria sérias dificuldades
financeiras, e os investidores atraídos para as bolsas
estariam sendo convocados apenas para absorver o prejuízo.
Se isso for confirmado, trata-se de crime do colarinho branco.
Nas últimas semanas a CVM intimou os principais executivos
da empresa para depor e alguns já pediram adiamento,
alegando que estão sobrecarregados por causa do processo
de concordata. O advogado da Arapuã, Ricardo Tepedino,
garante que não houve nenhuma irregularidade no lançamento
de ações.
A Evadin também lançou suspeitas pesadas no
processo de concordata. Tadeu Laskowski, advogado da fábrica
de eletroeletrônicos, anexou aos autos um dossiê
na qual acusa a família Simeira Jacob, controladora
da Arapuã, de ter pego emprestados da própria
empresa R$ 235 milhões, exatos dois meses antes de
pedir a concordata. Emprestar dinheiro da empresa para os
próprios controladores é uma irregularidade
que pode ser enquadrada como apropriação indébita,
passível de punição com até 4
anos de reclusão. Laskowski também diz que,
dias antes da concordata, a Arapuã teria emprestado
R$ 1,5 milhão para empresas offshore, em condições
suspeitas sem juros. E repete a acusação
de que a abertura de capital teria base em balanços
feitos com dissimulação, o que pode
ser enquadrado como falsificação de documento
público pena de até seis anos de reclusão.
A Arapuã garante, no processo, que o empréstimo
foi uma mera operação financeira para garantir
o pagamento de alguns credores. E, para rebater as acusações,
contratou uma auditoria da Trevisan e Associados. Enquanto
isso, a Arapuã segue sem publicar balanço desde
1997.
Inimigos
mortais. Por trás da guerra de lama há uma
história de amigos que se tornaram inimigos mortais.
De um lado estão Jorge Simeira Jacob, fundador da Arapuã,
e seu filho Renato, o atual presidente. Do outro, Leo Kryss,
dono da marca Evadin e fabricante dos produtos Mitsubishi,
terceiro maior credor da rede e aquele que será mais
prejudicado se a Arapuã for à falência.
Kryss, que tinha um relacionamento no fio do bigode
com os Simeira Jacob, transformou as lojas no principal canal
de vendas de seus televisores. Chegou a criar modelos e linhas
que eram vendidos apenas nas lojas da rede. Entregava mercadorias
em consignação, com prazos de até um
ano para o pagamento, exigindo pouquíssimas garantias.
Hoje tem R$ 82 milhões a receber, e, em caso de falência,
será um dos últimos a pôr a mão
em algum dinheiro. A questão virou pessoal. Leo
achou que deveriam tê-lo informado, com antecedência,
que a Arapuã estava quebrada, diz uma fonte próxima
do investidor. A maioria dos credores, donos de 84% dos créditos,
está solidária com os Simeira Jacob. A
empresa sempre foi correta e merece uma segunda chance,
diz Fernando Mendes Almeida, advogado da Semp Toshiba, comissária
da concordata, com R$ 100 milhões a receber. Segundo
ele, a Arapuã é recuperável, mas precisaria
de 5 anos para se colocar de pé. Dificilmente terá
tanto tempo.
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