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AQUISIÇÕES
O
Efeito boato
Plantação
de rumores através da Internet afeta preços
de ações e preocupa as autoridades
Ernesto
Bernardes
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| PROFISSIONAL:
Internet incrementa a divulgação de boatos
que afetam o mercado |
Bolsas e boatos são colegas desde o tempo em que os
pregões tinham cotações riscadas a giz
no quadro-negro. Rumores sempre ajudaram a levantar ou derrubar
companhias. Com a Internet, porém, boataria virou negócio
de profissional. Agora difama-se a concorrência em tempo
real, e zunzuns são espalhados pelo mundo inteiro,
provocando fatos e valorizando ações
enquanto os mercados estão abertos. Como resultado,
a repressão a essa indústria entrou na lista
de prioridades das autoridades reguladoras nos Estados Unidos.
E já existem até empresas especializadas em
rastrear a origem dos e-boatos. No Brasil, os casos de plantação
conhecidos são poucos o mais grave foi o que
envolve o empresário Ricardo Mansur, ex-dono da Mesbla/Mappin,
acusado de lançar na rede e-mails difamando um credor,
o Bradesco. Segundo o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva,
chefe do setor de crimes eletrônicos da Polícia
Civil de São Paulo, essa é a modalidade que
mais tem crescido na sua área.
Há muito problema com e-mails negativos, distribuídos
por ex-funcionários ou concorrentes, para prejudicar
empresas, explica Lima e Silva. O mais recente tinha
na mira a Ericsson, gigante sueca da telefonia. Uma mensagem
em forma de corrente prometia, a quem passasse o texto adiante,
um celular grátis. Obviamente, era mentira. No ano
passado, circulou um outro que acusava a Nestlé de
ser responsável por milhares de mortes de crianças
na África numa história inacreditável
que envolvia distribuição de leite em pó
para entidades assistenciais.
Nos Estados Unidos, uma empresa chamada eWatch já oferece
pacotes para enfrentar a boataria virtual. Eles vão
da vigilância e classificação
do que se fala na rede sobre determinada empresa até
neutralização das mensagens e contra-ataque,
com medidas jurídicas e proteção contra
hackers. Ela cobra taxas de no mínimo US$ 13 mil ao
ano por seus serviços, e tem mais de 800 clientes,
que pagam em função do volume de trabalho. Aparentemente,
vale a pena. Durante a crise da Ásia, a Global Equities,
um administrador de fundos americano com US$ 6 bilhões
em carteira, foi vítima de um boato que dizia que 25%
de seus ativos estavam naquela região. A eWatch rastreou
os boateiros, enviou desmentidos e ainda ameaçou, com
processos, quem havia divulgado as informação.
Apagou-se o incêndio.
Em geral, porém, o boato não é detido
a tempo. A Securities & Exchange Comission (SEC), equivalente
americana da Comissão de Valores Mobiliários,
abriu no início do mês processo contra um tal
Stephen Sayre, de Los Angeles. Ele enviava falsos comunicados
à imprensa, em nome de uma empresa de avaliação
de risco chamada Independent Financial Reports que
existe de verdade, mas com a qual não tinha nenhuma
ligação. Nas mensagens, analistas
recomendavam a compra de ações de uma companhia
chamada eConnect. O que aconteceu com esses comunicados? Um
deles chegou a uma agência de notícias, a Business
Wire, e daí foi distribuído para o mundo
todo. Foi parar em sites de aconselhamento de investimentos,
como Thestreet.com
e Marketwatch.com,
e até em agências de notícias econômicas
respeitáveis, como a Bloomberg. As ações
da eConnect, que nunca haviam passado do patamar do US$ 1,
chegaram a US$ 22. O presidente da companhia jura que nunca
viu Sayre mais gordo, e os sites que publicaram as análises
falsas limitam-se a lamentar o acontecido. Mas muita gente
foi enganada e perdeu dinheiro. As ações, hoje,
voltaram a valer US$ 0,80.
Chutômetro.
Esse tipo de fraude atinge principalmente a Nova Economia.
Como ninguém sabe avaliar com exatidão o valor
de uma empresa do setor, muito da estimativa de potencial
das ações é baseado em chute. Os investidores
passam horas por dia lendo notícias on line e trocando
mensagens, mas os dados que circulam na rede em geral são
menos confiáveis que os da mídia tradicional
porque muitas vezes não se sabe quem é
responsável por eles. Para piorar, parte dos boatos
vem de fontes oficiais. Em março passado
a ZixIt, uma empresa de segurança na Internet, disparou
um comunicado à imprensa que dizia: Grupo Perot
adota ZixMail para comunicações seguras.
A Perot Systems, que pertence ao ex-presidenciável
americano Ross Perot, é uma das maiores companhias
de tecnologia dos Estados Unidos. A notícia era propositalmente
dúbia, dando a entender que o grupo, como um todo,
adotara os sistemas ZixIt. As ações da companhia
de informática, que custavam US$ 16, explodiram para
US$ 96,50. Na verdade, um único diretor de uma subsidiária
da Perot havia contratado os serviços da companhia.
Apenas quando a mentira foi descoberta a ZixIt publicou um
comunicado esclarecendo as coisas.
Não foi apenas a Internet que fez com que a divulgação
de boatos passasse da área dos amadores para a dos
profissionais. É que nos Estados Unidos, nos últimos
anos, virou costume entre as companhias contratar empresas
de relações públicas e pagá-las
com participação acionária. Assim os
PRs, como são chamados, passam a ter interesse pessoal
na valorização dos papéis de seus clientes.
Como têm um enorme trânsito junto à mídia
e aos sites, os relações-públicas possuem
um poder de fogo bem maior que os fofoqueiros da antiga. A
coisa chegou a tal ponto que a Securities & Exchange Comission
já pensa em regulamentar os comunicados à imprensa.
Enquanto eles não tiverem de obedecer a uma série
de regras, estaremos vulneráveis a fraude e manipulação,
diz Chris Ullman, porta-voz da SEC.
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