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DÍVIDA
Rombo histórico
União
se prepara para pagar correção bilionária
do FGTS
Sérgio
Lírio
| Foto:
Anderson Schneider |
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OS
DONOS DA DECISÃO: Os ministros do Supremo
devem divulgar parecer final do processo em maio
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Os
11 juízes do Supremo Tribunal Federal ainda não
manifestaram sua decisão, mas o governo FHC já
considera parcialmente perdida a causa em torno do Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço, o FGTS. Prevendo derrota
no que deve ser a maior causa trabalhista da história,
o Ministério do Trabalho já se prepara para
lidar com a questão na base do Devo, não
nego. Pago quando puder empurrando para as calendas,
com parcelamento ao longo dos anos, o desembolso de uma quantia
que pode chegar, segundo os cálculos aparentemente
exagerados do próprio governo, ao patamar fantástico
de R$ 70 bilhões. Um grupo de correntistas do Fundo
exige na Justiça a reposição de perdas
causadas por quatro planos econômicos, editados entre
1987 e 1991. O Supremo deve se pronunciar sobre o caso até
maio.
A equipe econômica do governo tem se esforçado
em demonstrar que uma derrota dessas proporções
poria em risco o ajuste fiscal e a estabilidade da economia.
Quem está julgando deve se perguntar de onde
virá todo esse dinheiro, afirma o advogado-geral
da União, Gilmar Mendes, o general governista na batalha
jurídica. Na terça-feira, 25, em um evento para
advogados realizado na cidade de São Paulo, o presidente
do STJ, Paulo Costa Leite, deixou bem claro que o Poder Judiciário
não pensa com a calculadora na mão. Não
podemos ceder a questões de ordem econômica,
disse Costa Leite. Esse é um problema do Malan
e de sua equipe econômica. Levar o caso para o
Supremo faz parte da estratégia da advocacia-geral
da União, que estava tomando uma surra em outras instâncias
judiciais. No Supremo Tribunal de Justiça (STJ), onde
tramitam cerca de 4 mil ações, os juízes
concederam reajustes de até 76,05%. Lá, os apelos
à ordem macroeconômica nunca fizeram sucesso.
Desde que os apelos chegaram às mãos dos ministros
José Carlos Moreira Alves e Ilmar Galvão, em
abril, acompanhar o desenrolar do processo no STF passou a
ser um esporte de economistas e analistas financeiros. O Banco
Central apontou a indefinição sobre o resultado
do julgamento como motivo para não derrubar os juros,
hoje em 18,5%. As bolsas caíram e o dólar subiu
logo que os três primeiros votos no Supremo reconheceram
que a União será obrigada a conceder parte do
reajuste exigido. Há um certo terrorismo na estratégia
oficial para evitar a correção das contas do
FGTS. Apesar de falar em até R$ 70 bilhões
valor superior ao saldo atual do Fundo, de R$ 64 bilhões
, nem a Caixa Econômica Federal nem os advogados
da União sabem ao certo a dimensão do rombo.
Existem hoje 600 mil ações na Justiça
exigindo a correção das contas. O advogado dos
trabalhadores, Roberto Caldas, diz que a dívida não
deve ultrapassar os R$ 2,3 bilhões. Seu número
é baseado em um cálculo feito por especialista
da Universidade de Brasília, partindo de dados da própria
CEF. O governo exagera nos cálculos para criar
pânico, afirma. Gilmar Mendes, o defensor do governo,
rebate: O caso não pode ser encarado como simples
correção de conta corrente. O FGTS é
o maior fundo do País. O que acontece se ele quebrar?.
O mais impressionante, neste caso, é que as coisas
só chegaram a esse ponto devido à negligência
do governo. Por muito tempo, a União tratou a questão
como de responsabilidade exclusiva da Caixa Econômica
Federal, como se qualquer rombo no banco oficial não
tivesse que necessariamente ser coberto com dinheiro público.
No governo, atribui-se a culpa pelo cochilo ao ex-advogado-geral
da União, Geraldo Quintão, hoje ministro da
Defesa, que teria feito corpo mole no combate aos inúmeros
processos. A ação do governo só ganhou
força em janeiro, com a nomeação de Gilmar
Mendes. Com o acúmulo de derrotas no STF, Mendes montou
uma equipe exclusiva para cuidar do caso. Eu ressuscitei
um cadáver, tem afirmado o advogado a amigos.
O grande temor do governo é que uma decisão
favorável aos trabalhadores provoque uma avalanche
de ações com pedidos de reajuste. Até
agora, ele está perdendo a batalha bilionária.
O voto de três dos 11 ministros do STF, justamente os
considerados mais alinhados com o Palácio do Planalto.
O julgamento foi interrompido a pedido do ministro Maurício
Côrrea, que solicitou mais tempo para tomar uma decisão.
Seu prazo termina em quatro semanas. E o governo corre contra
o relógio.
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