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O Evangelho do exílio segundo Chico Lopes
Um ano depois de sair preso de uma sessão da CPI dos Bancos, o ex-presidente do BC entrega-se à religião e aos livros em seu amargo exílio

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Joaquim Castanheira e Calé (fotos)

LOPES: há um ano, a figura pública mais comentada do País

Quinta-feira santa, 20 de abril. O economista Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, ex-presidente do Banco Central, sobe lentamente os degraus que levam à pequena Igreja do Divino, na cidade de Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Metido em calça de tergal, em mangas de camisa clara, ele caminha solitário e reflexivo para se juntar a uma pequena multidão que aguarda o início da missa do lava-pés. O templo não tem capacidade para abrigar os cerca de 100 fiéis e a celebração acontece em um pequeno pátio anexo. Em lugar dos bancos de madeira, são utilizadas cadeiras de ferro pintadas de branco. Em vez de genuflexórios almofadados, o cimento frio e áspero que cobre o chão. As paredes não são decoradas com murais de motivos religiosos, mas com orações escritas a mão em cartazes de cartolina. Nada disso, porém, inibe Chico Lopes. Rosto contrito, mãos entrelaçadas junto à boca, olhos cerrados, ele ajoelha-se e reza fervorosamente. Ali, Chico é um pessoa anônima, tão desconhecido como a senhora de braços abertos e vestido simples ajoelhada a seu lado. Trata-se apenas de mais um entre os milhões de cristãos brasileiros que aproveitam o feriado religioso para orar e pedir perdão por seus pecados.

A cena desperta a atenção pelo que ela tem de comum e pelo contraste que representa na vida de Chico Lopes. Comum porque ir à missa é atualmente um compromisso literalmente religioso de Lopes aos domingos ou em qualquer dia santo. O contraste nasce da comparação com o que ocorria há exatamente um ano, quando ele estava longe de ser apenas um entre os fiéis de uma humilde igreja católica de uma cidade do Interior. Na ocasião, acusado de favorecer dois bancos durante a crise cambial de janeiro de 1999, esse mineiro de 54 anos era talvez a figura pública mais comentada do País, o mais assíduo freqüentador das manchetes dos jornais e dos noticiários de tevê, um dos rostos mais conhecidos na interminável maré brasileira de escândalos políticos.

Assim que sua imagem saiu do foco da imprensa e dos políticos, Chico Lopes partiu para um exílio voluntário. Não mudou de casa, cidade ou país, mas foi “em direção a si próprio”, como diz um de seus amigos, ou “passou a recolher os cacos de sua alma depois do massacre público do qual foi vítima”, como prefere seu advogado, Luís Guilherme Vieira. Lopes afastou-se da maioria de seus amigos, deixou de freqüentar locais públicos e refugiou-se em casa. Desde então, sua principal companhia é a mulher Araci Pugliese, a Ciça, a filha do primeiro casamento Estefânia, e os dois enteados, Bruno e Sérgio.

RECUPERAÇÃO: Religião foi um ponto de apoio

Abatido, quase dez quilos mais magro, Chico passou dias e dias escondido em casa. Seu refúgio preferido, porém, foi o sítio de sua propriedade, localizado no bairro de Carangola, em Petrópolis. Somente após seu depoimento na CPI, em agosto do ano passado, ele começou a reconstruir sua rotina. Entre abril e o final do ano passado, leu continuamente a Bíblia. Preferia o Antigo ao Novo Testamento, particularmente o Livro de Jó, no qual há a parábola do “homem justo e temente a Deus” que perde a família e a riqueza, mas mantém a fé em Deus. Como recompensa, recebe tudo de volta. Essas leituras também o levaram de volta às missas. A Igreja do Divino é sua predileta. O padre Antônio Carlos Cardoso o vê por lá há cerca de um ano, mas nunca trocou uma palavra sequer com o economista.

Os livros foram assíduos companheiros nesse período. Além da Bíblia, habituou-se a ler biografias de grandes personagens da História. Recentemente leu avidamente o Papa de Hitler – a história secreta de Pio XII, do jornalista inglês John Cornwell. O período sabático também o levou de volta aos estudos daquele que continua sendo o assunto que mais lhe interessa, a Macroeconomia. Não se trata apenas de diletantismo, mas sim a preparação para um projeto ao qual pretende se dedicar no futuro: o retorno à cátedra. É um assunto que Lopes trata com reservas, porque vê uma série de dificuldades para voltar à atividade de professor. “Mas ele gostaria de retomar suas origens profissionais, unir as duas pontas de sua vida”, diz um amigo, utilizando uma frase de Machado de Assis.

Como fruto desses estudos, Lopes voltou a escrever. Os textos não são publicados na imprensa como antigamente. Servem mais para sistematizar suas idéias e raciocínios. Alguns deles vão parar nos boletins publicados mensalmente por sua empresa de consultoria econômica, a Macrométrica.

Ao longo do segundo semestre de 1999, Lopes recuperou paulatinamente sua auto-estima. O sinal mais visível dessa reviravolta foi a volta ao batente. Em outubro, retomou suas atividades na Macrométrica e estabeleceu uma rotina diária, marcada pela discrição e parcimônia. Lopes mora em um confortável (mas não sofisticado) apartamento de mais de 200 metros quadrados. Avaliado em cerca de R$ 250 mil, o imóvel ocupa um dos 11 andares de um antigo edifício na rua Sá Ferreira, em Copacabana, bairro de classe média do Rio de Janeiro. A tranqüilidade da região volta e meia é quebrada pelos tiroteios na favela no morro do Pavão, o que, segundo corretores, desvaloriza os imóveis do local – os moradores sempre lembram que ali, anos atrás, o ator Cazarré morreu com uma bala perdida, enquanto dormia em seu apartamento.

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