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IB TEIXEIRA
O alarmante custo da violência
Pesquisador da FGV-RJ revela que o País gasta R$ 37 bilhões por ano para se proteger de crimes e perde muito dinheiro com a fama de inseguro

Simone Goldberg

Foto: Calé

O pesquisador Ib Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, estudou os efeitos danosos da violência urbana sobre os cofres públicos e privados e chegou a conclusões preocupantes. Aos 59 anos, esse carioca apaixonado pelo mar e por barcos revela que no ano passado o Brasil desembolsou R$ 37 bilhões para se proteger da violência, o equivalente à metade do PIB do Chile. “Os prejuízos não se restringem aos gastos. O País perde com a atrofia do setor turístico”, diz. Para ele, são cerca de US$ 10 bilhões por ano que poderiam chegar com o turismo, mas que esbarram na insegurança urbana e são desviados para outros destinos. Formado em Direito, com pós-graduação em Economia, ele foi deputado pelo PTB de 1962 a 1964, quando o golpe militar lhe cassou o mandato. Dedicado a pesquisas sobre temas sociais para o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, Teixeira está indignado com a escalada da criminalidade e impressionado com a grandeza dos números que descobriu. Para dar idéia do tamanho do mercado de segurança, ele levanta dados interessantes: cerca de um milhão de pessoas trabalham como vigilantes, quase a metade clandestinamente. “Temos um exército de vigilantes que equivale a um terço da população do Uruguai”, comenta. Segundo Teixeira, o faturamento de empresas de segurança privada e vigilância eletrônica pode chegar a R$ 8 bilhões e a perspectiva é cada vez melhor, com taxas de crescimento de 10% ao ano, o dobro do que aconteceu no ano passado. “Em 1999, diversos setores da economia registraram desempenho negativo, mas o ramo da prevenção à violência se destacou com taxas altíssimas de crescimento, entre 4% a 5%”, diz Teixeira. Na semana passada, ele recebeu DINHEIRO para a seguinte entrevista:

DINHEIRO – Quanto o Brasil gasta para se proteger da violência?
IB TEIXEIRA –
O setor privado e o público desembolsaram juntos, ano passado, segundo minhas estimativas, cerca de R$ 37 bilhões. O País perde o equivalente de 6% a 7% do PIB, de acordo com dados de dezembro de 1999, ou a metade do produto interno do Chile. Só em segurança privada foram gastos R$ 6 bilhões. Em vigilância eletrônica, outros R$ 2 bilhões. Outro bilhão correspondeu a despesas com gradeamento de edifícios, casas e blindagem de carros. Há despesas enormes com seguros, principalmente contra roubo de carros e casas. Há cinco anos, fiz um primeiro estudo sobre este assunto. O número de empresas de segurança se limitava a algumas dezenas. Hoje, são centenas.

DINHEIRO – Quem gasta mais em proteção, o setor público ou o privado?
TEIXEIRA –
Estão gastando quase o mesmo. O setor privado desembolsou ano passado cerca de R$ 19 bilhões, R$ 1 bilhão a mais do que o setor público.

DINHEIRO – Quais são os maiores desembolsos do setor público?
TEIXEIRA –
Há gastos com segurança pública em São Paulo que chegaram a R$ 4 bilhões no ano passado. Já no Rio de Janeiro esse volume de dinheiro foi de R$ 2 bilhões. Os demais Estados gastaram R$ 6 bilhões. Além disso, levantei na pesquisa gastos de R$ 2 bilhões relacionados a novos presídios, reformas de estabelecimentos depredados, guardas penitenciários e manutenção de presos e outro R$ 1 bilhão referente à ampliação de despesas do poder judiciário e dos Estados relacionadas à criminalidade.

DINHEIRO – Como a violência se reflete na atividade econômica?
TEIXEIRA –
No ano passado, vários setores da economia nacional registraram números negativos. Sabe qual foi o que mais cresceu? O de sistemas de vigilância e segurança. Essa atividade teve uma expansão de 4% a 5%, confirmando uma tendência ascendente. Existem no País cerca de 300 empresas dedicadas exclusivamente à proteção e segurança e número equivalente de empresas não-oficiais, atuando clandestinamente.

DINHEIRO – Além de obrigar os setores público e privado a gastar bilhões, quais os demais prejuízos que a violência urbana traz para o País?
TEIXEIRA –
Calculei apenas os gastos, mas os prejuízos são muito maiores se levarmos em conta o que o Brasil deixa de ganhar por causa da violência urbana nas grandes cidades. O turismo, por exemplo, tem deixado de se desenvolver. Países da União Européia e os Estados Unidos têm recomendado a seus cidadãos que não venham para cá. Isso nos causa perdas enormes em turismo. Perdemos empregos com essa trava à expansão da indústria do lazer, que é o setor que mais cresce no mundo. Chegamos a ter dois milhões de turistas em meados dos anos 80. Esse número caiu para uma milhão nos anos 90 e só agora começamos a recuperar esse volume. Vamos comparar com a Argentina. Em 1987, quando o Brasil tinha dois milhões de turistas, nosso vizinho tinha um milhão e oitocentos mil. Quando caímos para um milhão, a Argentina já contava quatro milhões.

DINHEIRO – Podemos mensurar as perdas em reais?
TEIXEIRA –
Sim, se levarmos em conta que cada turista estrangeiro gasta em média US$ 100 por dia, mais as compras, e tem uma permanência média de sete dias. É só fazer a conta para ver o volume de recursos que deixa de entrar nos cofres brasileiros. Cada um deixa no Brasil cerca de US$ 1.000, entre diárias, refeições e consumo de bens pessoais. O País teria hoje condições de receber de oito a dez milhões de visitantes por ano. Ou seja, de arrecadar US$ 10 bilhões.

DINHEIRO – O sr. falou que a atividade econômica ligada à proteção e prevenção da violência foi a que mais cresceu no ano passado. Algum setor dentro deste segmento se destacou em particular?
TEIXEIRA –
O setor de seguros, no ramo não-vida, anda tendo um bom desempenho. No ano passado, esse ramo – principalmente seguro de automóveis – somado a seguro-saúde, arrecadou em prêmios mais de R$ 10 bilhões.

DINHEIRO – Qual o grau de tecnologia envolvido no mercado de segurança?
TEIXEIRA –
Hoje em dia parece que vivemos num filme de James Bond. Há sistemas de proteção a bancos e carros-forte feitos por helicópteros com GPS, que dão a localização exata, via satélite, dos veículos. Bancos paulistas se protegem com o SPA (Sistema de Proteção a Assaltos), um esquadrão de helicópteros que levantam vôo diariamente no horário comercial e observam rotas previamente combinadas com o cliente. Ao primeiro sinal de alerta, um dos helicópteros parte para o local e acompanha do alto o que acontece. Câmaras de filmar são capazes de flagrar a placa de uma moto em close. As informações captadas são mandadas para uma base em terra e para a polícia, em tempo real.

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