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REUNIÃO
DO FUNDO
Malan no inferno
Uma viagem
com o ministro da Fazenda, da globalização ao
caos em Washington
Galeria
de Fotos: Ensaio exclusivo de Wahington
Estela
Caparelli e Régis Filho (fotos), de Washington
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MALAN:
Na companhia de seu cachimbo enquanto esperava por uma
chance de voltar à reunião do FMI
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O
ministro Pedro Malan bem que tinha sido avisado. Seu amigo
Stanley Fischer dissera a ele para chegar às 5 horas
da manhã na reunião de domingo, dia 16, no prédio
do Fundo Monetário Internacional. Malan não
acreditou. Hospedado com a mulher Catarina na casa do embaixador
do Brasil, Rubens Barbosa, achou que Fischer estava exagerando,
e acordou, tranqüilo, por volta das 6 horas. Erro. Uma
hora e meia depois, junto com Armínio Fraga, viu seu
carro ser parado e cercado pelos manifestantes a três
quarteirões do Fundo. Começava, para o veterano
e urbaníssimo funcionário brasileiro, uma jornada
de provações que só terminaria com sua
ida a Nova York, dois dias depois. Malan, como outras autoridades
financeiras mundiais, viu-se em meio a um campo de batalha
nas ruas da capital política mais importante do mundo.
Dois mil policiais e centenas de militares tentavam conter,
a golpes de cacetete e bombas de gás, uma multidão
de manifestantes disposta a fincar pé. Eles xingavam,
empurravam, sacudiam carros e deitavam-se à frente
dos veículos. Foi um inferno, que confirmou, para quem
tinha alguma dúvida, que depois da reunião da
Organização Mundial do Comércio em Seattle,
no ano passado, e depois de Davos, em fevereiro, não
haverá mais como evitar o confronto direto entre os
protagonistas da globalização e seus adversários.
Malan que o diga.
Na
segunda tentativa de chegar à reunião, o ministro
e o presidente do Banco Central pegaram uma perua na porta
do hotel Watergate (sim, o mesmo cenário do escândalo
que levou à renúncia o presidente Richard Nixon),
de onde saíam os ônibus que levavam os 750 participantes
para a sede do FMI. Usar esse transporte era, aparentemente,
a única forma de furar o bloqueio dos milhares de ativistas
que faziam cordões humanos em torno do edifício
do Fundo. Eles atacavam com palavrões ou empurrões
quem ousasse chegar perto. Quando as peruas chegaram próximo
ao prédio, um grupo de ativistas deitou-se em frente
delas, enquanto outros sacudiam os veículos e colocavam
adesivos nas janelas. Diante da situação, o
motorista voltou ao Watergate. Fraga desistiu da aventura
e foi direto para a embaixada brasileira. Não
há necessidade de eu e o Malan ficarmos juntos aqui.,
disse.
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PELA
FORÇA: Cerca de 1.300 pessoas foram detidas durante
os protestos contra o FMI e o Banco Mundial
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Enquanto
Fraga preparava sua volta, Malan esperava de pé, na
porta do edifício Watergate, por uma chance de voltar
ao Fundo. Em sua companhia estava gente de relevo como o ministro
das Finanças da França, Laurent Fabious, e da
China, Xiao Gong. Fumando cachimbo, o ministro brasileiro
manteve a fleuma. Era a primeira vez que passava por uma situação
como essa na cidade onde morou entre 1986 e 1993. Perguntado
se gostava de morar ali, respondeu, displicente: Tanto
faz. Já morei em muito lugares. Mau humor evidente.
Às 11h40, Malan, os ministros e vários outros
participantes entraram em um carro para descansar e evitar
a proximidade incômoda da imprensa. Dentro do carro,
uma van, os 11 passageiros ficaram por uma hora e vinte minutos,
sem água, jornais ou boletins on line do mercado financeiro.
Privação absoluta. O que eles conversaram lá
dentro? Nada, aparentemente. A única coisa que o ministro
Malan fez foi responder, com um bilhete, o que achava do protesto.
(Protestos) Podem ajudar quando se consegue saber o
que estão propondo os manifestantes. A van só
partiu às duas horas da tarde. À noite, depois
de jantar com representantes de países que estariam
na reunião do Comitê de Desenvolvimento do Fundo,
no dia seguinte, Malan foi dormir à uma hora, imaginando
descansar. Tudo indica que não conseguiu. Um despacho
da agência Reuters informou que o ministro foi acordado
às quatro da manhã, assim como os demais participantes
da reunião. De acordo com essa versão, Malan
teria protestado contra a falta de modos e seguido para o
trabalho com três horas de sono. A embaixada brasileira
afirma que a história é fantasiosa, que o ministro
dormiu bem e acordou no horário normal para o evento.
Sabe-se que ele participou do encontro do Comitê de
Desenvolvimento e discursou, atacando os subsídios
agrícolas dos países desenvolvidos, que distorcem
os preços do mercado internacional e fazem com que
produtos sejam exportados abaixo do seu custo de produção.
Na
terça-feira, dia 18, deixando a conclusão de
Washington para trás, Malan embarcou às 2:30
da tarde, num vôo da Delta com destino a Nova York.
Estava acompanhado de sua filha Cecília e do embaixador
Rubens Barbosa. Durante o trajeto, Malan preparou parte da
palestra que viria a dar às 6 horas de tarde no Council
of Américas, um think tank que promove debates sobre
a economia do continente. Durante a palestra, Malan demonstrou
estar feliz por voltar à velha e boa rotina. Bem humorado,
falou da recuperação dos indicadores da economia
brasileira, citando o ingresso de US$ 6,5 bilhões este
ano e a melhoria do déficit em conta corrente. Na platéia,
havia pessoas como James Nash, economista senior do Federal
Reserve para América Latina, e Catherine Barrios, ex-chefe
da Standart and Poors no Brasil e atual diretora da agência
em Nova York. Malan citou Moliére e Luiz Fernando Veríssimo.
Deu uma pequena derrapada ao se referir a Gustavo Franco.
Disse que era seu former friend, mas logo corrigiu.
Ex-amigo não, ex-presidente. Ele ainda é
meu amigo. No dia seguinte, Malan continuou vendendo
o Brasil para os americanos. Em um clube de campo a uma hora
de Nova York, participou de um evento promovido pela embaixada
brasileira e pela USA Business, um agremiação
de empresários. Ao que conste, não havia gás
lacrimogênio, bombas e nem xingamentos.
Mas, afinal, quem eram os baderneiros que infernizaram a vida
do ministro e seus pares? Ben, um californiano de 19 anos,
estava satisfeito com o sucesso de sua primeira empreitada
revolucionária. Seus gritos e sua fantasia, Being
Mike Moore (Quero ser Mike Moore, o diretor da Organização
Mundial do Comércio), juntaram-se ao ruído da
massa jovem de 10 mil pessoas que transtornou a reunião
do Fundo e fez com que o governo americano gastasse US$ 5
milhões em segurança. A polícia chegou
a isolar 90 quarteirões no dia 16. E os manifestantes
estavam tão determinados a fazer barulho que chegavam
a se atirar à frente dos carros da polícia em
movimento. No final, contabilizava-se a prisão de cerca
de 1.300 pessoas incluindo as 600 que se entregaram
à polícia na noite de segunda-feira, 17, depois
de cercadas pelo aparato policial e, claro, pelas câmeras.
Elas foram libertadas na manhã seguinte, depois de
pagarem US$ 50. Mas será que o tumulto e a disposição
dos jovens sensibilizaram os presentes à reunião
do FMI? Stanley Fischer, o diretor-gerente interino do Fundo,
resumiu tudo dizendo que a agenda das reuniões não
foi mudada. Ponto. Mas certamente a voz das ruas, reproduzida
fartamente por 1.700 jornalistas, deixou clara a necessidade
de reforma no Fundo ou, pelo menos, alguma mudança
drástica em sua política de relações
públicas.
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