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  - nº 139
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BASTIDORES/EXCLUSIVO
Sombras de Brasília
Um guia dos nomes mais influentes que estão fora dos holofotes, mas que
fazem a diferença na hora de definir o jogo das decisões no Planalto

Expedito Filho Galeria de Fotos: A Face dos Poderosos

Foto: Anderson Scheneider
PLANALTO CENTRAL: Nomes importantes do poder estão distantes das luzes da imprensa

O poder é feito de luzes e sombras, de ministros e assessores, de presidentes e eminências pardas. Em primeiro plano estão os ministros, sempre expostos à luz dos holofotes. São deles as performances teatrais, embutidas em discursos previamente elaborados. Brilham como astros de primeira grandeza. Mas atrás da cena, escapando de flashes, estão influentes assessores, renomados técnicos, homens e mulheres que fazem o poder e vivem refrigerados em seus gabinetes. São os sombras. No jogo real, eles formulam grandes planos, controlam a agenda, aceleram projetos, rabiscam números, criam medidas que mexem com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Conhecê-los representa desvendar o mapa da mina. O quem é quem nesse jogo de sombra e luzes revela uma galeria de personagens muito próximos dos poderosos e distantes do grande público.

O Ministério do Desenvolvimento, de Alcides Tápias, é um desses pedaços governistas em que só há força interna por ausência de brilho exterior. Por se organizar para dentro da máquina, é o mais apropriado esconderijo dos sombras de Brasília. Somente o ministro aparece, ainda assim se fizer muito barulho acaba caindo. Basta lembrar o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, defenestrado antes da posse. Ali, estão os formuladores da estratégia desenvolvimentista, coordenados pelo secretário-executivo Milton Seligman, que tem fama de tocar a máquina com velocidade incomum ao serviço público. “Aqui nós precisamos ser rápidos porque para os empresários tempo é dinheiro”, diz Seligman. Nesse ritmo, a meta é exportar 100 bilhões de dólares por ano em 2002.

Um trio, formado por Roberto Giannetti, da Camex, Litha Spíndola, secretária de Comércio Exterior e Hélio Mattar, secretário de Política Industrial, comanda as ações. Responsável pela política de comércio exterior, Spíndola é encarregada dos acertos da pauta de exportação, simplificando as rotinas. Oriunda da Receita Federal, ela elege as prioridades, defende as exportações, identificando e denunciando dumping contra os produtos brasileiros. O trabalho é complementado pela política industrial, chefiada por Hélio Matar, que está realizando uma radiografia da cadeia produtiva nacional. O objetivo é identificar os gargalos, avaliar preços e detectar dificuldades de crédito. Na sua gestão, por meio das câmaras setoriais, já foram levantadas e esquadrinhadas 12 cadeias produtivas. Avalia-se cada setor da cadeia, desde o transporte até a comercialização, passando pela produção de matéria-prima até a industrialização. Busca-se a recuperação da competitividade do produto nacional lá fora. No Ministério da Fazenda há também sombras. Diplomata de renome, que ainda não se tornou embaixador por lhe faltar apenas um dia de serviço no exterior, Marcos Caramuru de Paiva já experimentou o calor dos holofotes. Ele foi porta-voz do Ministério da Economia durante a desastrosa gestão de Zélia Cardoso de Mello e demorou para decodificar os sinais daqueles tempos. Amigo pessoal do ministro Pedro Malan, Caramuru ocupa, atualmente, função em que domina todos os códigos. Seus olhos estão voltados para o mundo. Suas avaliações sobre o Mercosul, União Européia e Estados Unidos ilustram as opiniões públicas de Malan e as avaliações estratégicas do Ministério.

Outro poderoso da Fazenda é o secretário do Tesouro, Fábio Barbosa. É o dono da chave do cofre porque é o burocrata que mais diz não na Esplanada do Ministério. Em um governo em que o ajuste fiscal se faz praticamente na boca do caixa, Barbosa reina. A vocação para a negativa já o levou a ser escolhido para missões impossíveis. Saiu ileso. Negociou com sucesso a rolagem das dívidas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, de Itamar Franco. Forte também está Domingo Poubel de Castro, secretário federal de Controle. É fiscal dos empréstimos federais. Agora mesmo está investigando os desvios do FAT. Se você empregou mal dinheiro público, cuidado.

Dois outros sombras estão por trás de planos de investimentos como Avança Brasil. José Guilherme Reis, chefe da assessoria econômica de Martus Tavares, do Planejamento, é um deles. O ministro não toma uma decisão sem ouvi-lo. Sombra, sombra mesmo, é o secretário-executivo Guilherme Dias. Ele se esconde tanto que concedeu entrevista para um jornal de grande circulação, mas a foto que ilustrou a matéria foi a de seu homônimo, que à época trabalhava no Ministério da Agricultura. Continuou inédito, mas é o homem que toca com mão de ferro a máquina do Planejamento. No Palácio do Planalto, o secretário-executivo do Gabinete Civil, Silvano Giane, um ex-piloto, substituiu Pedro Parente, ministro-chefe do Gabinete Civil, e quase ninguém soube. Continuou à sombra, confundindo-se com a decoração do quarto andar do Palácio do Planalto. Dividindo a sombra ao seu lado está Marcelo Cordeiro, sub-secretário geral. “Ele é meu segundo”, resume Aloysio Nunes, secretário-geral. Cordeiro é uma usina de boas idéias. Uma delas inspirou o Refis da Receita Federal. No terceiro andar, José Lucena Dantas, chefe do gabinete de FHC, tem outra missão. Encarregado da agenda, Lucena encaixa políticos, empresários e amigos pessoais de FHC para audiências no Planalto e conversas no Palácio da Alvorada. Ele conhece as preferências, relacionando os que importam, decidem e os que são íntimos de FHC.

O que poucos empresários sabem, por exemplo, é que FHC tem no Planalto um sociólogo, especializado no acompanhamento dos investimentos da área social do governo. Vilmar Faria. Através de pesquisas, ele aponta carências e acompanha o desempenho dos ministros sociais. Sabe quem vai bem, quem vai mal. O ministro da Saúde, José Serra, até agora tem apresentado o melhor desempenho. Explica-se: economista que já passou pelo Planejamento, Serra tem Barjas Negri como secretário-executivo e maior sombra de seu Ministério. Existem aqueles sombras que já entraram para a mitologia do poder, como Eduardo Hitiro Nakao, operador da mesa de câmbio do Banco Central no Rio de Janeiro. Nakao participa das reuniões do Copom. Pilota a mesa de câmbio do BC com a frieza de um cirurgião. Nakao sobreviveu a crises como a de 98, quando o câmbio derrubou Gustavo Franco e implodiu Francisco Lopes. Sua opinião é fundamental para construir juízos durante as reuniões do Copom, que decide a taxa de juros. Via Nakao a diretoria do BC tem um desenho preciso e confiável do mercado.

Alguns são mitos em construção. Carlos Eduardo de Freitas, diretor de Regimes Especiais, já experimentou os efeitos da luz, mas funciona melhor no lusco-fusco do prédio do BC em Brasília. É um velho conhecido dos banqueiros nacionais. Ex-professor da FGV, hoje é o homem que cuida dos processos falidos. Pelo BC, conduz a privativação do Banespa, a maior já feita no Brasil. Ainda no BC, Daniel Gleizer é o garoto-propaganda do Brasil no exterior. Na sua bagagem, não estão apenas roupas, mas principalmente a boa imagem do Brasil, feita para estrangeiro ver e comprar. Ele cuida dos contatos com os investidores estrangeiros, controla as reservas e quando pode ainda dá expediente no Banco Central. São esses os personagens que, no coração do poder, conduzem e formam a moderna burocracia brasileira.

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