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EMPRÉSTIMOS
Todos de olho no BC
Acompanhar juros vira esporte nacional

Sergio Leo e Fabiane Stefano

"VIÉS DE BAIXA": BC não baixou a taxa de juros, mas há fortes chances de recuo

Como Alan Greenspan, no Federal Reserve dos EUA, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, conseguiu transformar as decisões do governo sobre a taxa de juros em um evento com sucesso garantido de público. Na quarta-feira 22, ao sair da reunião do Copom, comitê encarregado de fixar a taxa, o diretor de Política Monetária, Luís Fernando Figueiredo, já encontrou à sua espera uma aglomeração de repórteres. Assim como Greenspan, que se desdobra em declarações antecipando a tendência da taxa, o BC brasileiro faz o possível para evitar surpresas. Esperava-se que os juros tivessem, no máximo, uma pequena queda, de 0,25 ponto percentual.

Apesar da torcida, o banco preferiu a inércia, mantendo os juros básicos da economia em escorchantes 19%. Mas Fraga e seus auxiliares resolveram também mudar o “viés” da taxa. Agora é um “viés de baixa”, o que, na novilíngua das autoridades significa que há fortes chances de que haja um recuo a qualquer momento. Esse “viés” promete fazer a festa dos analistas nos próximos dias. Há interpretações de todo o gênero para a futura taxa. A mais irônica, como sempre, é do ex-ministro Antônio Delfim Netto: “Os sacanocratas do governo vão fazer um salário mínimo de R$ 155,00, não baixam os juros, e, quando se confirmar o valor do mínimo, anunciarão a queda dos juros”. A explicação oficial é mais comedida: “Os fundamentos macroeconômicos melhoraram, mas notamos que algumas incertezas persistem e poderão ser quantificadas nos próximos dias”, disse Figueiredo.

Não é só a curiosidade sobre o futuro o que alimenta a expectativa em torno do Copom. Prevenindo-se contra prejuízos, empresários e investidores apostam milhões no mercado de juros. Na quarta-feira, o mercado estava “comprado” – a maioria dos 47 mil contratos negociados renderia lucros se o BC cortasse a taxa, e prejuízos se fizesse o contrário. Se, como indica o BC, os juros forem reduzidos nos próximos dias, ainda há tempo para que esse pessoal não perca. O mercado aposta que, neste ano, os juros ficarão abaixo de 19%, mas acima dos 18,5%.

A timidez do Copom juntou-se a outra má notícia no dia seguinte, contida num relatório do próprio BC: afetados pelas novas regras de segurança de crédito, os bancos nem esperaram o mês de junho, quando as normas entram em vigor, e aumentaram as taxas cobradas no mês passado. O custo do crédito para as empresas passou de 47% ao ano em fevereiro para 49%. E os cheques especiais passaram dos extorsivos 126% para proibitivos 134%.

O coro dos descontentes, que inclui moderados como o ex-secretário de Política Econômica, José Roberto Mendonça de Barros, repete quase em uníssono que o BC vem pecando por excesso de conservadorismo. Afinal, a queda da inflação para próximo de zero, a entrada de dólares e a baixa na cotação do dólar endossam os argumentos de quem defende uma mudança mais corajosa. “O BC está excessivamente lento”, critica o economista Paulo Nogueira Batista Júnior. O maior problema, como nota o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, é que todo o circo montado em torno do BC acostumou-se a esperar por pouco. “Uma queda de 0,25 ainda não é nada. Com uma inflação de 7% ao ano, talvez uma taxa anual de 15% surtisse um efeito razoável na indústria.” Infelizmente, não parece haver no BC ninguém que considere esses 15% mais que um sonho de economistas da Unicamp.

 


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