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ELEIÇÕES
O salvador da Rússia?
Favorito
nas sondagens terá de administrar um país que
caminha para o terceiro mundo
Daniela
Fernandes, de Moscou
| Foto:
Reuters |
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HABILIDADE:
Vladimir Putin mostra disposição de esportista,
mas esconde projetos para reerguer a economia
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Se
não fossem pelos pouquíssimos posters nas ruas
de Moscou com imagens de candidatos e, mais raro ainda, alguns
panfletos distribuídos, ninguém lembraria que
a Rússia irá eleger, no próximo domingo,
26, o novo presidente. A paixão dos russos em tomar
sorvete o tempo todo, mesmo quando está nevando e a
temperatura é de dez graus abaixo de zero, parece esquentar
bem mais os ânimos da população do que
a escolha, pela terceira vez, do próximo chefe de Estado.
A falta de interesse da sociedade e também de
energia dos candidatos, que enviam porta-vozes aos debates
na tevê pode ser facilmente explicada: a vitória
de Vladimir Putin, atual presidente interino, é tida
como certa. Com 53% das intenções de voto, segundo
as últimas sondagens, Putin, o desconhecido ex-chefe
do serviço secreto russo FSB (herança da KGB),
deverá continuar desempenhando a mesma função
desde a demissão de Boris Yeltsin, em dezembro de 99.
Habilidoso em pilotar aviões e derrubar adversários
no tatame, o candidato dá demonstrações
que os brasileiros já conhecem desde o governo Collor.
Sem nenhum programa econômico divulgado, a não
ser algumas (e vagas) declarações sobre o papel
ativo do Estado na economia por meio de investimentos e subsídios,
além da necessidade de reforma do sistema fiscal e
bancário, Putin, 47 anos, terá como missão
erguer um país que ainda sente no cotidiano os efeitos
da crise financeira de agosto de 1998. O PIB da Rússia,
de US$ 338 bilhões, é inferior ao da Holanda
e, calculado por habitante (US$ 2,3 mil), ocupa a 104ª
posição no ranking mundial. Um estudo da empresa
de consultoria McKinsey, divulgado no final do ano passado,
ilustra o atual estado da antiga superpotência, que
se transformou em um país de terceiro mundo: o PIB
russo representa hoje apenas 40% de seu valor em 1990. A desvalorização
de 60% do rublo após a crise dilapidou o poder de compra
da população. Em Moscou, onde se concentra a
atividade industrial e financeira, apenas 6% dos moscovitas
ganhavam menos de US$ 50 em agosto de 1998. Em janeiro de
2000, esse número passou para 64%. Apesar dos indicadores
alarmantes, a miséria não está presente
nas ruas de Moscou. O metrô da cidade tem muito menos
mendigos do que o de Paris durante o gélido inverno.
Mas é certo que boa parte da população
passa longe da famosa galeria Goum, na praça Vermelha,
onde todos faziam fila. Freqüentada hoje apenas por distintas
senhoras em casaco de pele, as lojas praticam preços
(em dólar, claro) de fazer inveja aos lojistas da Champs-Elysées.
A Goum é sentida hoje, pelos russos, como o exemplo
de que a economia de mercado não deu certo. Ao mesmo
tempo, um olhar rápido nos principais monumentos culturais
do país, como o teatro Bolshoi e o museu Hermitage,
em São Petersburgo, mostra que o Estado não
tem dinheiro para fazer obras nem manutenção.
Neste ano, a Rússia deverá desembolsar cerca
de US$ 10 bilhões de sua dívida total de US$
142 bilhões. E o ministro das Finanças, Mikhaïl
Kassianov, já avisou, no início de janeiro,
que será difícil reunir tal soma de dinheiro.
Alguns
fatores positivos surgiram, no entanto, no horizonte da ex-potência.
O país registrou um superávit comercial de US$
33,2 bilhões em 1999, devido principalmente à
redução drástica das importações.
Neste ano, o saldo positivo continua na casa dos US$ 3 bilhões
por mês. O rublo vem se valorizando pouco a pouco. A
valorização é devida, no entanto, a um
controle mais estrito do câmbio e não a uma confiança
na moeda nacional, ressalta o economista francês
Patrick Berger. A produção industrial, que já
havia aumentado cerca de 10% em 1999, em razão da substituição
das importações, continua crescendo. Além
disso, o recente acordo com os bancos privados do Clube de
Londres resultou em uma redução de US$ 10,6
bilhões do montante da dívida. Em razão
do acordo, o banco americano JP Morgan reviu, no último
dia 17, sua previsão de crescimento da economia russa
em 2000 de 2,2% para 4,5%, diz o economista russo Ralph Süppel.
Mesmo com alguns sinais econômicos favoráveis,
a tarefa de Putin não será das mais fáceis:
os empresários internacionais não apostam que
ele fará grandes mudanças na atual situação.
E não parecem nada dispostos a ampliar os poucos investimentos
no país antes de saber exatamente o que ele pretende
fazer. Mas, se as previsões se confirmarem, Putin poderá
repetir aos credores e empresários internacionais a
frase de Winston Churchill sobre os russos: Não
é possível derrotar uma nação
que gosta de tomar sorvete mesmo a 40 graus abaixo de zero.
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