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MERCOSUL
Pânico - Argentinos apelam ao Brasil
Colapso do câmbio fixo do peso com o dólar leva empresas a cruzarem a fronteira entre os dois países do bloco, provoca rebelião das províncias argentinas e faz De La Rúa negociar com FHC

Ivan Martins

Foto: Joedson Alves
DE LA RÚA: Presidente argentino criticou os Estados brasileiros por oferecerem subsídios que teoricamente vêm provocando a migração de empresas

A Argentina descobriu, na semana passada, que o seu maior problema chama-se Brasil. Quem acompanha a vida em Buenos Aires desde a desvalorização do real, em janeiro de 99, sabe que o sentimento não é novo. Os produtores argentinos nunca perdoaram a “traição” representada pela flutuação da moeda brasileira, que lhes roubou competitividade em seu maior mercado externo. Nova é a intensidade histérica e popular que o sentimento antibrasileiro assumiu. Uma pesquisa do diário El Clarin mostrou que 62,7% dos argentinos acreditam que o maior problema econômico do seu país é a fuga de empresas para o Brasil. Novo também, embora nem tanto, é o fato de o governo brasileiro ter decidido ceder ao pânico do vizinho e ajudá-lo com novas restrições comerciais em têxteis, calçados, frangos e aço. “Não adianta jogar na cara deles que já tiveram oportunidades anteriores para se tornar competitivos”, disse na quarta-feira 22 o embaixador José Botafogo Gonçalves, que voou a Buenos Aires para apagar o incêndio. O empresário brasileiro Maurice Costin, diretor de Relações Internacionais da Fiesp, reflete o sentimento de seus pares sobre o episódio: “É melhor um sistema de imposição de cotas do que acabar com o Mercosul”.

Dois eventos levaram a esse desfecho. Primeiro, uma lista divulgada pela UIA com cerca de 30 nomes de empresas que estariam se mudando para o Brasil, atraídas por incentivos fiscais. Embora a relação de empresas tenha sido contestada por vários companhias que dela constavam, e tratada pelo governo argentino como farsa, sua divulgação criou a impressão de que estava havendo um êxodo econômico para o Brasil. De concreto, o que se tem é que a embaixada brasileira em Buenos Aires, até dezembro passado, andava mesmo trombeteando as mamatas fiscais oferecidas pelos Estados brasileiros. Mas isso acabou com a posse de Fernando De La Rúa, que criticou a prodigalidade fiscal dos estados brasileiros. O presidente Fernando Henrique, em um gesto conciliatório, mandou recolher a fanfarra de atração de investimentos. Algumas empresas de autopeças mudaram-se para perto de seus principais clientes brasileiros, mas foi só.

Enganosa mas popular, a bandeira do esvaziamento industrial foi empunhada pelo governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, da oposição peronista ao governo federal. Ruckauf ameaçou sobretaxar a entrada na Província dos produtos de empresas que se mudassem ao Brasil e na semana passada prometia replicar em casa os subsídios oferecidos no Brasil. Tudo falso, porque a legislação fiscal argentina não confere às províncias esse tipo de autonomia. “O governador está fazendo política e exercendo sua liderança”, explica o diplomata Diego Guelar, assessor para questões econômicas e internacionais de Ruckauf. “A mudança de companhias não é um problema, mas será se ninguém disser nada.” Guelar é um velho conhecido dos brasileiros. Peronista, foi um ruidoso embaixador de Carlos Menem em Brasília e Washington. Tudo indica que, agora, é a voz por trás das posições do novo chefe em defesa de “soluções emergenciais” contra a desvalorização brasileira. “Somos 100% pelo Mercosul, mas diante de uma crise é preciso lançar um bote para salvar a própria família”, diz Guelar.

A impressão de que há uma inundação vinda do Brasil ficou ainda mais aguda com o segundo elemento gerador da crise: um boato de que o governo brasileiro seria forçado a uma nova desvalorização de grandes proporções. Não se sabe de onde veio essa idéia estapafúrdia – embora o economista argentino Carlos Calvo, que vive nos EUA, pareça ter lhe dado algum fôlego – mas ela circulou como fato nos jornais e difundiu pânico entre os leitores. “Essa história não tem pé na realidade, mas há jornalistas balançando a árvore para ver se cai alguma coisa”, resume o corretor Luiz Corsiglia, de Buenos Aires. A conseqüência imediata desse novo mal-entendido foi a insistência renovada, inclusive pelo ministro-chefe do Gabinete, Rodolfo Terragno, para que o Brasil se comprometa com compensações caso desvalorize sua moeda – insistência que Botafogo rechaçou na terça-feira como “inaceitável”.

O pano de fundo para essa sucessão de crises é conhecido: a diferença de política cambial entre os dois países. Quando as economias crescem, como deve ocorrer daqui para frente, o Mercosul vira namoro. Quando há uma crise externa e o Brasil mexe na sua moeda, os argentinos perdem outra porção da sua escassa competitividade. E o choro explode. Tem sido inútil lembrar a eles que o Brasil é o único país do planeta com quem têm um superávit de US$ 400 milhões. Os vizinhos sentem-se roubados e não aceitam que a culpa por seus problemas é do seu próprio regime de paridade fixa ao dólar. Apontam, como saída, o processo de convergência de metas macroeconômicas e a criação de uma moeda comum que poria fim ao antagonismo cambial. Mas isso é coisa para 10 anos. Para contornar a crise atual, FHC e De La Rúa vão lançar em Buenos Aires, em abril, um plano de obras conjunto que vai abrir parte do mercado de encomendas públicas do Brasil a empresas do Bloco. O nome do projeto deve ser Avança Mercosul. Um cínico acrescentaria: que o Brasil paga a conta.

Com reportagem de Sergio Leo, Nelson Rocco e Fabiane Stefano

 


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