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GUERRA DAS CERVEJAS
A visita secreta da Heineken
Vice-presidente mundial da cervejaria holandesa vem ao Brasil para negociar compra da Kaiser

Juliana Almeida

Foto: Calé
RUYS: Reuniões com executivos da Coca-Cola e da Kaiser

Quinta-feira, 23, 00h30 – Abordado no elevador do hotel Intercontinental, no Rio de Janeiro, Anthony Ruys desconversa, em bom holandês: “Sou da KLM”. A tentativa de convencer que era funcionário da companhia de aviação holandesa não funcionou. Ruys, na verdade, é o vice-presidente da Heineken. Ele chegou ao Brasil na terça-feira 21, acompanhado do diretor de marketing, René Graafland, do advogado Lewis Willing e do novo vice-presidente da Heineken para a América Latina, Michiel Egeler. O quarteto teria vindo em missão especial: colocar a Kaiser nas mãos da cervejaria holandesa.

Quinta-feira, 23, 7h50 – Ruys deixa o quarto 1707, no último andar do Intercontinental. Interpelado novamente na porta do elevador, reage, irritado: “O que você quer saber?”. Ali mesmo, no hall do 17º andar, trava com a reportagem de DINHEIRO um rápido diálogo, sempre em holandês:

– O senhor concluiu a compra da Kaiser?
– Não viemos aqui para comprar nada. Estamos numa visita de rotina.

– Em meio à decisão do caso AmBev?
– Não tenho comentários a fazer sobre o assunto. Sou responsável por mais de 60 países e preciso visitar todos eles.

– O senhor e mais três executivos?
– Não consigo dar conta de tudo. Graafland é o homem de Marketing, Egeler, o responsável pela América do Sul, e Willing, o jurídico.

– É necessário um diretor jurídico em viagens como essa?
– Ele sempre me acompanha.

– Quais os planos da Heineken no País?
– O Brasil é um grande mercado, importante para nós, e onde queremos aumentar a participação da nossa marca.

Quinta-feira, 23, 10h00 – Ruys e seus escudeiros hospedam-se no Sheraton Mofarrej, em São Paulo. Às 10h30 tem início uma reunião no salão Alamedas. O encontro com cinco executivos dura sete horas e meia. No sábado, 25, partem para a Argentina.

A julgar pela expectativa do mercado, o quarteto da Heineken pode estar levando a Kaiser na bagagem, ao final de uma “visita de rotina” cercada de coincidências. A chegada de Ruys e equipe acontece três semanas após o presidente mundial da Heineken, Karel Vuursten, afirmar, em entrevista à Bloomberg, que queria reforçar suas posições no Brasil. “Na confusão que está o mercado brasileiro, vamos tentar uma solução que seja benéfica para nós”, disse Vuursten. E concluiu: “Poderia ser um aumento de participação acionária na Kaiser”. Ruys apressou-se em desdizer o chefe. Mas não é só. Há tempos a cervejaria holandesa acompanha com atenção os movimentos da AmBev, rival maior da Kaiser. Curiosamente, no mesmo momento em que os executivos da Heineken voavam do Rio para São Paulo, surgia em Brasília o mais forte indício de que o governo pode vir a dar sinal verde para a fusão de Brahma e Antarctica (leia mais).

A companhia holandesa possui 14% da Kaiser. Dez por cento das ações estão nas mãos da Coca-Cola Company e o restante, 76%, diluídas entre os engarrafadores da Coca-Cola no Brasil. Ruys estaria no Brasil justamente para comprar o montante de ações pertencente ao sistema Coca-Cola, ou pelo menos parte dele – o suficiente para lhe dar o controle da cervejaria carioca. Nesta operação, acreditam analistas de mercado, a Heineken poderia concentrar esforços em duas frentes: com negociações diretas em Atlanta e aproveitando-se das confusões entre Coca-Cola e seus engarrafadores no Brasil.

Caminho aberto. Não é de hoje que os acionistas da maior fabricante de refrigerantes do mundo querem desvincular o nome Coca-Cola do de uma produtora de cerveja. Por aqui, a relação entre a Coca e seu engarrafadores continua cada vez mais tensa. O motivo é simples: a empresa estaria interessada em formar um tripé de engarrafadores âncoras. Seriam eles, a Panamco, Andina e a engarrafadora pertencente a Tasso Jereissatti (que atua no Norte e Nordeste do País). Nos últimos meses, as “âncoras” partiram para as compras de engarrafadores menores, como a Mineira, a Perma e a Refrigerantes do Oeste. Isto deixaria aberto o caminho para a Heineken entrar com propostas aos excluídos do sistema Coca-Cola.

“Estive com o pessoal da Heineken. Eles vieram para cá apresentar o novo comandante para a América Latina (Michiel Egeler está substituindo Lex Heuven, que faleceu no ano passado)”, explica Luis Octávio Passos Gonçalves, fundador da Kaiser e dono da engarrafadora Remil. A Coca-Cola preferiu responder, através da assessoria de imprensa, que não comenta especulações. Humberto Pandolpho, presidente da Kaiser, foi enfático: “Isso é papo da AmBev”. A negativa é praxe em situações desse tipo. E estratégica para Kaiser e Heineken. De acordo com Bruno Zaremba, analista do setor de bebidas do Banco Pactual, o tiro pode sair pela culatra, caso anunciado antes da decisão do Cade: “Se a Heineken assumir a participação da Coca e de seus engarrafadores na Kaiser, será mais um motivo para a criação da AmBev ser aprovada”. Heineken e Kaiser, pelo visto, já devem saber o veredicto.

Com reportagem de Darcio Oliveira, Paula Pacheco e Sérgio Lírio

 


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