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DINHEIRO - Quais serão os grandes desafios para o e-commerce nos próximos tempos no Brasil?
Gates - Acredito que a Internet passará para uma nova fase em breve. Na primeira fase, ela era utilizada apenas para mostrar informações da empresa, sem grande interação com o usuário. Na segunda, as empresas começaram a trocar informações, mas sem realizar efetivamente negócios. A terceira foi a fase de realização de negócios, que está em curso agora e em grande desenvolvimento. A próxima será aquela em que as empresas intercambiarão dados complexos entre si, permitindo realizar qualquer tipo de negócio. A Internet será capaz de realizar qualquer sonho no futuro. Mas o grande desafio da rede não está dentro dela. Há pelo menos duas grandes questões envolvidas. Uma delas é a logística, que terá de ter a capacidade de levar as mercadorias até o consumidor. Outra questão a ser resolvida é sobre a tributação.

DINHEIRO - Fala-se muito no impacto da Internet nas relações comerciais. O sr. vê necessidade de as empresas terem um novo desenho para atuar nesse novo cenário?
Gates - Será necessário mudar todos os processos dentro da empresa para se adaptar ao mundo digital. As empresas terão de ter menos papel. Haverá menos reuniões, mas que serão melhores. Como será muito ágil e mais democratizada, a comunicação obrigatoriamente terá de ser bem coordenada, sob o risco de surgirem informações desencontradas dentro da empresa.

DINHEIRO - Esse novo mundo fez com que a Microsoft se estruturasse de uma maneira diferente?
Gates - A Microsoft se redesenha a cada 18 meses, em média. O que não muda é nossa filosofia de atrair e motivar os melhores talentos para nossos grupos de pesquisa. Não há empresa mais generosa no mundo na concessão de ações para seus funcionários do que a Microsoft.

DINHEIRO - Sua nova função como arquiteto-chefe tem relação com esse redesenho?
Gates - Essa é a parte do trabalho da qual eu gosto. Hoje, 90% de meu tempo é consumido junto aos grupos de produtos. Vivo permanentemente nas fronteiras do conhecimento e do desenvolvimento.

DINHEIRO - A Microsoft é uma empresa preparada para a concorrência?
Gates - Tenho estudado isso com muito cuidado. A Microsoft sempre enfrentou concorrência. Nós já concorremos com a IBM, lembra-se? O Windows é infinitamente melhor do que o concorrente. Se você pegar o Linux e incluir os aplicativos e todos os mecanismos de segurança e infra-estrutura para que ele chegue ao nível do Windows, pagará cinco vezes mais o valor de nosso produto. Além disso, o usuário não tem certeza de como os aplicativos vão funcionar com o Linux. Mais: esse concorrente não tem uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, para revolucionar o que é um software. Ele não tem pesquisa para, por exemplo, incorporar recursos de reconhecimento de voz em seu software. Nós fazemos isso como ninguém. Por isso temos uma participação alta e estamos bem colocados no mercado.

DINHEIRO - O sr. acredita numa divisão da empresa por ordem da Justiça?
Gates - Não haverá divisão. Quem especular com isso pode cair na irresponsabilidade. O cliente escolhe nossos produtos. Nós não pretendemos desenvolver nossos softwares para outra plataforma que não seja o Windows.

DINHEIRO - Qual sua posição a respeito do Application Server Provider?
Gates - Temos condições de oferecer o que o cliente deseja e necessita. Temos entregado softwares para nossos clientes com o direito de uso. Ele poderá acessar a Internet para atualizar o software que já tem. Em casos como esses ele paga por mês. Estamos em situação confortável.

DINHEIRO - O senhor tem falado muito no mundo sem papel. O senhor acredita que ele realmente existirá?
Gates - É claro que haverá uma substituição da leitura em revistas e jornais impressos por meios eletrônicos. Mas nada disso acontece da noite para o dia. Além disso, as empresas de comunicação não têm seu foco na impressão de jornais e revistas, mas na elaboração do conteúdo. A necessidade desse conteúdo permanecerá, e, por isso, vejo uma oportunidade de grandes negócios para o setor de comunicação. As empresas não perderam sua capacidade de enviar notícias de forma cada vez mais agradável e eficiente. E podem fazer isso através dos meios eletrônicos.

DINHEIRO - Alguns especialistas, entre eles Allan Greespan, presidente do FED, têm alertado para o que consideram a valorização excessiva das ações das empresas de tecnologia. O senhor concorda que há algo de artificial nessa valorização?
Gates - Vivemos um período de entusiasmo com a Internet. Todos, inclusive os analistas, vêem pais e crianças utilizando computadores para todas suas tarefas profissionais, pessoais e de lazer. O número de computadores nas casas continua crescendo. Isso tudo beneficia as pessoas e as empresas. Por isso surge essa euforia. Eu não sou especialista, não entendo de bolsa de valores. Se alguém entende disso, então, boa sorte…

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