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ELETROELETRÔNICOS
Fusão - este é o canal?
Relatório
do BNDES mostra como seria a união da CCE, Sharp e Gradiente
Joaquim Castanheira
| Foto:
Bio Bar |
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FUSÃO
VIRTUAL: Sharp, Gradiente e a CCE teriam 5.500 funcionários
e faturamento de R$ 1,5 bilhão
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O setor eletroeletrônico brasileiro vive uma situação
semelhante à descrita por Carlos Drummond de Andrade em
seu poema Quadrilha:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim
que amava Lili que não amava ninguém ...
No mercado, todos querem fazer negócio com todos, encontrar
um parceiro com quem dividir os custos e aumentar a fatia de mercado,
embora oficialmente jurem que não têm essa intenção.
Mas, ao contrário dos versos do poeta mineiro, não
há uma gota de paixão nesses desejos. Existe, sim,
uma premente necessidade de sobrevivência.
O mais espetacular lance nessa movimentação é
a possível fusão entre três das maiores empresas
brasileiras desse setor: a Sharp, a Gradiente e a CCE. Forjada
com o apoio do BNDES e assessorada pelo Garantia First Boston,
essa parceria criaria uma organização de 5.500 funcionários,
faturamento de R$ 1,5 bilhão e fatia de mercado superior
a 20%, brigando com a Philips pela liderança. O lado ruim:
juntas, suas dívidas somariam mais de US$ 500 milhões.
Os barões das companhias (Eugênio Staub, da Gradiente,
Sergio Machline, da Sharp, e Isaac Sverner, da CCE) dizem que
nada existe de concreto. Nos bastidores, porém, os três
movimentam-se freneticamente. Com aparente desinteresse, dois
outros grandões do setor (Paulo Setubal, da Itautec-Philco,
e Affonso Hennel, da Semp-Toshiba) acompanham cada passo dos concorrentes.
O interesse agora está voltado para um relatório
preparado pelo BNDES e enviado recentemente ao Ministério
do Desenvolvimento. Nele, os técnicos do banco analisam
o setor, concluem o óbvio (há muita empresa para
pouco mercado) e apresentam alguns desenhos para a união
de algumas das companhias. Um deles é a criação
de uma linha de montagem única, com a manutenção
da independência de cada marca. Outra alternativa seria
uma Sociedade de Propósito Específico, que compraria
ações das companhias dispostas a se unirem, assumindo
seus passivos. No final de 1999, dirigentes do BNDES comentavam
com empresários do setor que haveria R$ 200 milhões
disponíveis para essa união. É uma dinheirama,
mas insuficiente para tapar os rombos dos participantes.
Há diversos obstáculos, porém. Como reunir
sob o mesmo teto donos de empresas sem o hábito de dividir
o poder? Qual seria o encaminhamento para a dívida das
empresas? Outro: os estudos do banco foram iniciados sob o comando
do então presidente Andrea Calabi, um entusiasta da idéia.
Francisco Gros, o novo chefão do BNDES, teria o mesmo entusiasmo?
Essa movimentação pode ser compreendida pela análise
dos números do setor. Em 1997, foram vendidos no Brasil
8,5 milhões de televisores, o carro-chefe das indústrias
do setor. Em 1999, as vendas caíram para 4 milhões,
segundo a Eletros, entidade que reúne as empresas. A capacidade
instalada dos 12 fabricantes é de 13 milhões de
unidades.
As dificuldades tiveram sua origem paradoxalmente no momento
de maior euforia. Em 1996, ainda impulsionada pelos ventos do
Plano Real, as vendas de tevês bateram seu recorde. Por
isso, as empresas investiram no aumento de capacidade e de produção.
A felicidade, no entanto, foi fugaz. Os consumidores não
acompanharam o entusiasmo dos fabricantes. As vendas caíram,
os estoques aumentaram e, com a alta dos juros, as dívidas
explodiram. Como boa parte dos componentes é importada,
a desvalorização do real piorou o quadro.
A situação mais grave é a da Sharp
por isso, os Machline são os maiores interessados no sucesso
da fusão. A empresa tem dificuldade até de obter
componentes para montar seus produtos, pois não possui
crédito junto aos fornecedores. Além disso, a empresa
é cobrada na Justiça pela Philips por uma dívida
de R$ 90 milhões. Internamente, a união é
considerada a última esperança, antes de uma concordata.
É a tentativa de virar o jogo aos 45 minutos do segundo
tempo.
Já a Gradiente tem muito interesse, mas nega qualquer
negociação. Staub reduziu a dependência da
área de tevês e som, investindo em entretenimento
e telecomunicações. Mas gostaria de resolver seus
problemas no setor de imagem e som. Por isso, é um dos
mais assíduos freqüentadores dos escritórios
do BNDES, onde tem conversado sobre a fusão e outras saídas
para o setor. Ele vive na ponte aérea, diz
um analista.
E a CCE? Extremamente discreto, Isaac Sverner criou uma empresa
à sua imagem e semelhança. Poucos conhecem sua real
situação financeira. Negociador hábil, Sverner
faz charme diante da possível fusão. Em seus contatos
com os capitães do setor diz que o negócio não
lhe interessa. Não coloco um tostão nessa
história, costuma afirmar, para completar, em seguida:
Mas se houver algum tipo de financiamento .... Leia-se
dinheiro do BNDES. Ao mesmo tempo, seu principal executivo, Nelson
Worstman, conversa com os concorrentes. No final de 1999, Worstman
visitou representantes da Sharp, Gradiente, Semp-Toshiba e Itautec-Philco.
Quem assiste de camarote (mas com muita atenção)
é Paulo Setubal, da Itautec-Philco. Depois de anos de prejuízo,
a empresa voltou ao azul em 1999. Setubal encontra-se numa situação
privilegiada diante dos concorrentes (ou futuros parceiros?) Fiz
a lição de casa, limpei o balanço,
diz. Agora que pus o nariz para fora, vou me juntar aos
moribundos? Posso, no máximo, acender uma vela. Há
quem não acredite nesse desprezo. Setubal deixaria que
o desgaste das negociações contaminasse as relações
entre os empresários para aparecer como uma via independente.
Essa movimentação parece ser a parte mais visível
da reestruturação do setor. Algumas companhias,
como a Samsung, abandonaram a montagem de tevês. Certamente
haverá incorporações, vendas e concordatas.
Em meio às dúvidas, a única certeza é
que nada será como antes.
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