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ADALBERTO
VIANNA
Falta
conteúdo
Para presidente
da Americel, língua portuguesa pode inibir desenvolvimento
da Internet no Brasil
Sérgio Lírio
O paulistano Adalberto Vianna tem um raciocínio versátil.
Há dois anos comanda a Americel, operadora de telefonia
celular do Centro-Oeste, mas sua lista de assuntos não
se resume a interurbanos, chamadas locais ou sistemas pré-pagos.
Vianna gosta de falar sobre Internet, empresas de comunicação,
culinária e mercado de ações. Na sua sala,
no 11o andar da sede da Americel, em Brasília, a televisão
fica ligada o dia inteiro no canal Bloomberg Television, pelo
qual acompanha as cotações das ações,
qualquer uma, no Brasil e em Nova York. Essa versatilidade tem
muito a ver com sua carreira profissional diversificada. Ele foi
diretor da Globosat, vendedor de equipamentos de telecomunicação
e um jovem e estressado executivo do mercado financeiro paulista.
No início dos anos 80, quase trocou o mundo dos negócios
pela culinária. Literalmente. Aos 20 anos, cansado do curso
de Economia da Unicamp, Vianna arrumou um emprego como cozinheiro
do Maksoud Plaza, um luxuoso hotel em São Paulo. Só
não continuou na profissão até hoje por causa
de um acidente de carro, que o afastou da cozinha e o levou de
volta aos bancos da universidade. Aos 37 anos, Vianna só
cozinha para amigos (uma de suas especialidades é carne
de caça) nos finais de semana. No dia-a-dia, comanda a
Americel e acompanha de perto o avanço das telefônicas
sobre as empresas de Internet. Para ele, há um próspero
caminho pela frente, mas a língua portuguesa é um
limitador para quem quer produzir conteúdo no Brasil. Não
há escala. Somos o único mercado realmente consistente
que fala português, afirma. O que isso pode significar?
Segundo Vianna, um possível atraso no desenvolvimento da
rede mundial de computadores por aqui. Nessa entrevista a DINHEIRO,
Vianna diz que o ex-ministro das Comunicações, Sérgio
Motta, faz falta e que o modelo de privatização
adotado vai permitir uma organização mais racional
do mercado de telecomunicações no futuro. Confira:
DINHEIRO Nas últimas semanas, empresas de
telefonia anunciaram grandes investimentos na Internet. Elas vão
dominar esse setor?
ADALBERTO VIANNA Ainda é cedo para dizer
quem vai dominar a Internet no Brasil. Certamente as empresas
de telefonia terão uma participação importante,
mas a rede contém uma gama de produtos e serviços
muito grande. Esse movimento das telefônicas é justamente
uma tentativa de se inserir, da melhor maneira possível,
no mercado de comunicação de dados. Esse avanço
deve ajudar a ampliar o menu de serviços a ser oferecido
e os consumidores poderão sentir a diferença a partir
do meio do ano. Os negócios deveriam ter acontecido no
ano passado, mas a crise econômica e a reorganização
das próprias telefônicas adiaram para agora esse
processo.
DINHEIRO Mas os últimos investimentos mostram
que grupos tradicionais de mídia, do setor financeiro e
de telecomunicações, estão entrando pesado
nesse mercado.
VIANNA Internet é um negócio de
distribuição. Desse ponto de vista, é tanto
uma ameaça a qualquer outro sistema existente quanto uma
oportunidade para que os grupos tradicionais se estabeleçam.
A questão é descobrir quem será capaz de
fazer a ponte entre um e outro. A Globo, por exemplo, está
se movimentando. Ela esteve parada nos últimos três
anos e precisa voltar a crescer. O que parece claro é que
a mídia tradicional vai perder uma fatia significativa
de seu espaço para novos produtores de conteúdo.
Em poucos anos, pelo menos metade dos dez maiores negócios
na Internet serão completamente novos. Ou estão
começando agora, do zero, ou ainda não existem.
Provavelmente assistiremos no Brasil a um fenômeno semelhante
ao do AOL-Time Warner, onde um grupo com menos de duas décadas
engoliu uma empresa centenária.
DINHEIRO Há uma exuberância
irracional nos milionários negócios na Internet?
VIANNA As apostas são arrojadas e agressivas.
É difícil estabelecer valor futuro para tudo que
está sendo criado. Alguns estão errando e errando
feio. Vão perder muito dinheiro. Mas as oportunidades de
retornos altos também são imensas. Há outro
fator: quem não se movimentar agora corre o risco de ficar
sem conteúdo ou ser obrigado a gastar muito mais para se
estabelecer.
DINHEIRO Por quê?
VIANNA Não é fácil nem barato
encontrar ou produzir conteúdo em português. Tirando
o Brasil, não há nenhum outro grande mercado consumidor
de informação e entretenimento na nossa língua.
É um problema de escala, que todas as mídias enfrentam.
Basta ver a tevê por cabo, que, apesar dos avanços,
não oferece uma quantidade substantiva e diversificada
de programas em português. É diferente do que acontece
com as línguas inglesa e hispânica, onde há
uma enorme rede de distribuição e criação
de conteúdo.
DINHEIRO Essa limitação pode inibir
o desenvolvimento da Internet no Brasil?
VIANNA Pode atrasar bastante o desenvolvimento
da rede no Brasil. Mas há tempo para recuperação.
Além disso, existe um trunfo para quem opera na Internet.
A rede não só democratiza o conteúdo como,
potencialmente, pode reduzir os custos de sua produção.
Talvez essa desvantagem brasileira possa ser anulada pelo avanço
de novas tecnologias, que irão baratear os custos.
DINHEIRO Como se organizará o mercado de
telefonia nos próximos anos?
VIANNA Claramente estamos caminhando para duas
vertentes. Transmissão de voz e de mensagens curtas será
um negócio da telefonia celular. Por uma questão
de lógica: as pessoas se locomovem e desejam ser encontradas
a qualquer hora e em qualquer lugar. É um serviço
pessoal. Cada membro de uma família terá seu próprio
celular. Isso é coisa para o final desta década
ou pouco depois. Nesses cenários, os telefones fixos terão
outras funções. Raramente serão usados para
comunicação de voz pura e simples. Seu negócio
será transmissão de dados de alta densidade, como
imagem. Do ponto de vista empresarial, teremos um processo de
concentração das companhias. Precisamos de escala
nesse mercado, para termos penetração e oferecermos
serviços de transmissão de voz massivamente. Nas
grandes e médias cidades, a demanda já está
atendida. Mas há uma infinidade de pequenos municípios,
e o Centro-Oeste, onde a Americel opera, é um bom exemplo
onde o celular ainda não chegou. Para oferecer nossos serviços,
precisaremos baratear os custos, o que se consegue com evolução
tecnológica e uma base grande de clientes. Por isso, as
fusões são inevitáveis. Restarão quatro
ou cinco grandes grupos operando telefonia no País.
DINHEIRO Estamos prestes a assistir a uma nova
rodada de licitações para telefonia celular, na
banda C. Há espaço para mais empresas nessa área?
VIANNA Não creio que teremos novos competidores.
A maioria das licenças da banda C deve ficar nas mãos
de grupos já presentes no Brasil. Servirão como
uma complementaridade aos negócios atuais dessas operadoras.
Muita gente grande, como a At&T, está fora do mercado,
mas eles devem chegar em uma próxima etapa, quando começarem
as fusões e aquisições.
DINHEIRO Várias pesquisas de opinião
recentes indicam que o consumidor está insatisfeito com
os serviços de telefonia pós-privatização.
Onde estão as falhas?
VIANNA Não há grandes erros, mas
uma quebra de expectativa da população. Durante
o período anterior à liberalização
e à privatização da telefonia, criou-se a
idéia de que, da noite para o dia, os serviços ficariam
maravilhosos. Essas expectativas não poderiam ser correspondidas
em tão pouco tempo. Era humanamente impossível atender
à demanda de uma vez com empresas começando do nada.
A privatização da telefonia fixa tem 18 meses. A
primeira operadora de banda B, que fomos nós, começou
a funcionar há 26 meses. Mas a evolução tecnológica
e de prestação de serviços é indescritível.
Veja o caso do Rio de Janeiro, um dos centros mais problemáticos.
Se a Telerj não tivesse sido privatizada, o déficit
em telefones levaria 20 anos para ser suprido. Agora, ele estará
zerado em três anos. Acho que a sociedade já começa
a perceber essa evolução.
DINHEIRO A Anatel tem condições de
regular e fiscalizar a telefonia?
VIANNA A Anatel faz parte de uma concepção
nova de Estado, mas está subordinada a todas as indiossincrasias
do Estado antigo e ineficiente. Ela não tem dinheiro, nem
condições de atrair e reter bons funcionários.
Além disso, ela está pressionada pelo jogo político,
o que atrapalha seu desempenho. Se o Sérgio Motta (ex-ministro
das Comunicações) fosse vivo, talvez o setor estivesse
melhor protegido dos conflitos do Estado. Ele tinha influência
nesse governo e um projeto muito claro para as telecomunicações
no Brasil. Os empresários do setor se preocupam muito com
a Anatel. Se ela não der certo, nós também
não daremos certo. Dependendo de como a agência ande,
poderemos ter obstáculos ao desenvolvimento do mercado.
DINHEIRO Por falar em Sérgio Motta, o modelo
de privatização adotado foi o melhor do ponto de
vista empresarial?
VIANNA Foi. Ele criou um campo muito fértil,
onde as empresas puderam se posicionar. Permitiu uma diversidade
de ações e de formação societária.
O modelo adotado permitiu que todas as possibilidades fossem testadas.
Teremos, com isso, um modelo muito mais racional no período
de consolidação, com as empresas se agrupando de
acordo com suas afinidades. Há muito discussão sobre
participações societárias nesse momento,
mas isso não representa o fracasso do modelo. Ao contrário.
É uma evolução esperada.
DINHEIRO As telefônicas tendem a ser grandes
corporações do País?
VIANNA Telecomunicações, no mundo
inteiro, está entrando para o primeiro time das corporações.
Na economia da virada do século, uma empresa não
vale o faturamento dela, mas seu preço percebido nos mercados
de ações. E hoje as que mais valem nas bolsas são
companhias ligadas a telecomunicações. Se pegarmos
as dez que mais valem no mundo, seis delas estão ligadas
a negócios de telecomunicações ou tecnologia.
No Brasil, a Telebrás sempre foi a maior empresa listada
em bolsa. E as teles privatizadas tendem a permanecer nessa posição.
É o setor que consegue atrair recursos de várias
fontes. Outros setores podem ser muito grandes, mas não
conseguem atrair, nas bolsas, os investimentos de aplicadores
pequenos, do cidadão comum.
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