ADALBERTO VIANNA
“Falta conteúdo”
Para presidente da Americel, língua portuguesa pode inibir desenvolvimento da Internet no Brasil

Sérgio Lírio

Foto: Felipe Barra

O paulistano Adalberto Vianna tem um raciocínio versátil. Há dois anos comanda a Americel, operadora de telefonia celular do Centro-Oeste, mas sua lista de assuntos não se resume a interurbanos, chamadas locais ou sistemas pré-pagos. Vianna gosta de falar sobre Internet, empresas de comunicação, culinária e mercado de ações. Na sua sala, no 11o andar da sede da Americel, em Brasília, a televisão fica ligada o dia inteiro no canal Bloomberg Television, pelo qual acompanha as cotações das ações, qualquer uma, no Brasil e em Nova York. Essa versatilidade tem muito a ver com sua carreira profissional diversificada. Ele foi diretor da Globosat, vendedor de equipamentos de telecomunicação e um jovem e estressado executivo do mercado financeiro paulista. No início dos anos 80, quase trocou o mundo dos negócios pela culinária. Literalmente. Aos 20 anos, cansado do curso de Economia da Unicamp, Vianna arrumou um emprego como cozinheiro do Maksoud Plaza, um luxuoso hotel em São Paulo. Só não continuou na profissão até hoje por causa de um acidente de carro, que o afastou da cozinha e o levou de volta aos bancos da universidade. Aos 37 anos, Vianna só cozinha para amigos (uma de suas especialidades é carne de caça) nos finais de semana. No dia-a-dia, comanda a Americel e acompanha de perto o avanço das telefônicas sobre as empresas de Internet. Para ele, há um próspero caminho pela frente, mas a língua portuguesa é um limitador para quem quer produzir conteúdo no Brasil. “Não há escala. Somos o único mercado realmente consistente que fala português”, afirma. O que isso pode significar? Segundo Vianna, um possível atraso no desenvolvimento da rede mundial de computadores por aqui. Nessa entrevista a DINHEIRO, Vianna diz que o ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta, faz falta e que o modelo de privatização adotado vai permitir uma organização mais racional do mercado de telecomunicações no futuro. Confira:

DINHEIRO – Nas últimas semanas, empresas de telefonia anunciaram grandes investimentos na Internet. Elas vão dominar esse setor?
ADALBERTO VIANNAAinda é cedo para dizer quem vai dominar a Internet no Brasil. Certamente as empresas de telefonia terão uma participação importante, mas a rede contém uma gama de produtos e serviços muito grande. Esse movimento das telefônicas é justamente uma tentativa de se inserir, da melhor maneira possível, no mercado de comunicação de dados. Esse avanço deve ajudar a ampliar o menu de serviços a ser oferecido e os consumidores poderão sentir a diferença a partir do meio do ano. Os negócios deveriam ter acontecido no ano passado, mas a crise econômica e a reorganização das próprias telefônicas adiaram para agora esse processo.
DINHEIRO – Mas os últimos investimentos mostram que grupos tradicionais de mídia, do setor financeiro e de telecomunicações, estão entrando pesado nesse mercado.
VIANNAInternet é um negócio de distribuição. Desse ponto de vista, é tanto uma ameaça a qualquer outro sistema existente quanto uma oportunidade para que os grupos tradicionais se estabeleçam. A questão é descobrir quem será capaz de fazer a ponte entre um e outro. A Globo, por exemplo, está se movimentando. Ela esteve parada nos últimos três anos e precisa voltar a crescer. O que parece claro é que a mídia tradicional vai perder uma fatia significativa de seu espaço para novos produtores de conteúdo. Em poucos anos, pelo menos metade dos dez maiores negócios na Internet serão completamente novos. Ou estão começando agora, do zero, ou ainda não existem. Provavelmente assistiremos no Brasil a um fenômeno semelhante ao do AOL-Time Warner, onde um grupo com menos de duas décadas engoliu uma empresa centenária.

DINHEIRO – Há uma “exuberância irracional” nos milionários negócios na Internet?
VIANNAAs apostas são arrojadas e agressivas. É difícil estabelecer valor futuro para tudo que está sendo criado. Alguns estão errando e errando feio. Vão perder muito dinheiro. Mas as oportunidades de retornos altos também são imensas. Há outro fator: quem não se movimentar agora corre o risco de ficar sem conteúdo ou ser obrigado a gastar muito mais para se estabelecer.

DINHEIRO – Por quê?
VIANNANão é fácil nem barato encontrar ou produzir conteúdo em português. Tirando o Brasil, não há nenhum outro grande mercado consumidor de informação e entretenimento na nossa língua. É um problema de escala, que todas as mídias enfrentam. Basta ver a tevê por cabo, que, apesar dos avanços, não oferece uma quantidade substantiva e diversificada de programas em português. É diferente do que acontece com as línguas inglesa e hispânica, onde há uma enorme rede de distribuição e criação de conteúdo.

DINHEIRO – Essa limitação pode inibir o desenvolvimento da Internet no Brasil?
VIANNAPode atrasar bastante o desenvolvimento da rede no Brasil. Mas há tempo para recuperação. Além disso, existe um trunfo para quem opera na Internet. A rede não só democratiza o conteúdo como, potencialmente, pode reduzir os custos de sua produção. Talvez essa desvantagem brasileira possa ser anulada pelo avanço de novas tecnologias, que irão baratear os custos.

DINHEIRO – Como se organizará o mercado de telefonia nos próximos anos?
VIANNAClaramente estamos caminhando para duas vertentes. Transmissão de voz e de mensagens curtas será um negócio da telefonia celular. Por uma questão de lógica: as pessoas se locomovem e desejam ser encontradas a qualquer hora e em qualquer lugar. É um serviço pessoal. Cada membro de uma família terá seu próprio celular. Isso é coisa para o final desta década ou pouco depois. Nesses cenários, os telefones fixos terão outras funções. Raramente serão usados para comunicação de voz pura e simples. Seu negócio será transmissão de dados de alta densidade, como imagem. Do ponto de vista empresarial, teremos um processo de concentração das companhias. Precisamos de escala nesse mercado, para termos penetração e oferecermos serviços de transmissão de voz massivamente. Nas grandes e médias cidades, a demanda já está atendida. Mas há uma infinidade de pequenos municípios, e o Centro-Oeste, onde a Americel opera, é um bom exemplo onde o celular ainda não chegou. Para oferecer nossos serviços, precisaremos baratear os custos, o que se consegue com evolução tecnológica e uma base grande de clientes. Por isso, as fusões são inevitáveis. Restarão quatro ou cinco grandes grupos operando telefonia no País.

DINHEIRO – Estamos prestes a assistir a uma nova rodada de licitações para telefonia celular, na banda C. Há espaço para mais empresas nessa área?
VIANNANão creio que teremos novos competidores. A maioria das licenças da banda C deve ficar nas mãos de grupos já presentes no Brasil. Servirão como uma complementaridade aos negócios atuais dessas operadoras. Muita gente grande, como a At&T, está fora do mercado, mas eles devem chegar em uma próxima etapa, quando começarem as fusões e aquisições.

DINHEIRO – Várias pesquisas de opinião recentes indicam que o consumidor está insatisfeito com os serviços de telefonia pós-privatização. Onde estão as falhas?
VIANNANão há grandes erros, mas uma quebra de expectativa da população. Durante o período anterior à liberalização e à privatização da telefonia, criou-se a idéia de que, da noite para o dia, os serviços ficariam maravilhosos. Essas expectativas não poderiam ser correspondidas em tão pouco tempo. Era humanamente impossível atender à demanda de uma vez com empresas começando do nada. A privatização da telefonia fixa tem 18 meses. A primeira operadora de banda B, que fomos nós, começou a funcionar há 26 meses. Mas a evolução tecnológica e de prestação de serviços é indescritível. Veja o caso do Rio de Janeiro, um dos centros mais problemáticos. Se a Telerj não tivesse sido privatizada, o déficit em telefones levaria 20 anos para ser suprido. Agora, ele estará zerado em três anos. Acho que a sociedade já começa a perceber essa evolução.

DINHEIRO – A Anatel tem condições de regular e fiscalizar a telefonia?
VIANNAA Anatel faz parte de uma concepção nova de Estado, mas está subordinada a todas as indiossincrasias do Estado antigo e ineficiente. Ela não tem dinheiro, nem condições de atrair e reter bons funcionários. Além disso, ela está pressionada pelo jogo político, o que atrapalha seu desempenho. Se o Sérgio Motta (ex-ministro das Comunicações) fosse vivo, talvez o setor estivesse melhor protegido dos conflitos do Estado. Ele tinha influência nesse governo e um projeto muito claro para as telecomunicações no Brasil. Os empresários do setor se preocupam muito com a Anatel. Se ela não der certo, nós também não daremos certo. Dependendo de como a agência ande, poderemos ter obstáculos ao desenvolvimento do mercado.

DINHEIRO – Por falar em Sérgio Motta, o modelo de privatização adotado foi o melhor do ponto de vista empresarial?
VIANNAFoi. Ele criou um campo muito fértil, onde as empresas puderam se posicionar. Permitiu uma diversidade de ações e de formação societária. O modelo adotado permitiu que todas as possibilidades fossem testadas. Teremos, com isso, um modelo muito mais racional no período de consolidação, com as empresas se agrupando de acordo com suas afinidades. Há muito discussão sobre participações societárias nesse momento, mas isso não representa o fracasso do modelo. Ao contrário. É uma evolução esperada.

DINHEIRO – As telefônicas tendem a ser grandes corporações do País?
VIANNATelecomunicações, no mundo inteiro, está entrando para o primeiro time das corporações. Na economia da virada do século, uma empresa não vale o faturamento dela, mas seu preço percebido nos mercados de ações. E hoje as que mais valem nas bolsas são companhias ligadas a telecomunicações. Se pegarmos as dez que mais valem no mundo, seis delas estão ligadas a negócios de telecomunicações ou tecnologia. No Brasil, a Telebrás sempre foi a maior empresa listada em bolsa. E as teles privatizadas tendem a permanecer nessa posição. É o setor que consegue atrair recursos de várias fontes. Outros setores podem ser muito grandes, mas não conseguem atrair, nas bolsas, os investimentos de aplicadores pequenos, do cidadão comum.

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