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GOVERNO
Novo
BC de Armínio
O
presidente do Banco Central planeja a reforma da instituição,
reforçando a área de fiscalização
e transformando a CVM na superagência do setor financeiro
Sérgio Leo
| Foto:
Andrea Hagge |
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| AGENDA
POLÍTICA: Nos próximos dias, Armínio
deve ir ao Planalto para discutir como encaminhar a proposta
das mudanças no BC ao Congresso |
Um ano após domar a desvalorização do real,
o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, vem anunciando,
em conversas reservadas com senadores, que está pronto
para mexer em outro ninho de marimbondos. Ele quer, ainda neste
ano, mudar a estrutura do Banco Central, mantida com poucas alterações
desde sua criação, em 1964. Sob a mira do Congresso,
onde tramitam projetos de reestruturação do banco
inspirados nos últimos escândalos financeiros, Armínio
Fraga quer manter sob seu controle o poder de fiscalizar a solidez
das instituições do sistema financeiro, mas já
negocia a transferência de uma parte da fiscalização
para outras mãos. O presidente do BC quer transformar a
Comissão de Valores Mobiliários em uma superagência.
Será a nova CVM, com novas funções e funcionários
transferidos do BC, quem acompanhará o comportamento dos
bancos em relação ao consumidor.
Questões microeconômicas, como o tipo de
contrato firmado entre investidores e o banco, a composição
das carteiras de investimentos e outros assuntos relacionados
aos clientes, podem passar para a CVM, confirmou para DINHEIRO
o diretor de Assuntos de Política Econômica, Sérgio
Werlang. Transferir os assuntos ligados aos consumidores para
fora do BC, como definem os auxiliares de Armínio
Fraga, significa que, se for concretizado o projeto, os clientes
com reclamações contra irregularidades em aplicações
financeiras, desrespeito às normas bancárias ou
comportamento inadequado de gerentes deverão se queixar
à nova agência, e não mais ao BC. Será
ela, também, que irá fiscalizar as tarifas bancárias.
Passariam para a CVM, também, a fiscalização
dos fundos de renda fixa, de ações e os mercados
futuros; inclusive a regulamentação das instituições
que atuam neles, como a Bolsa de Mercadorias e de Futuros.
A mudança planejada por Armínio Fraga deverá
aumentar a transparência de operações como
as realizadas após a desvalorização cambial,
quando o BC foi obrigado a explicar aos senadores as negociações
com a BM&F que levaram o governo a socorrer os bancos Marka
e Fonte Cindam, levantando acusações de favorecimento
aos donos dessas instituições. Decisões antes
tomadas em salas fechadas, seriam, no futuro, obrigatoriamente
acompanhadas por uma agência independente. O Banco Central,
no modelo imaginado no próprio BC, se concentraria no que
os técnicos chamam de risco sistêmico,
a situação das contas e os desequilíbrios
que ameacem a sobrevivência de instituições
financeiras.
Dependendo do rumo que tomarem as discussões com outras
áreas do governo e com os políticos, poderia sair
do BC, para a nova agência, até a investigação
sobre operações irregulares e de lavagem de dinheiro,
atividade que provocou a criação, no ano passado,
de um departamento de combate a ilícitos cambiais
e financeiros no banco. Esse assunto ainda não foi
discutido pela diretoria do BC, que prefere manter na instituição
o controle sobre o sigilo bancário. Nos próximos
dias, Armínio Fraga deve discutir com o secretário-geral
da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, como encaminhar
a proposta sobre as mudanças do banco ao Congresso. Às
vésperas do Carnaval, o presidente do BC recebeu em Brasília
o senador Paulo Hartung, autor de um projeto bem mais radical,
que prevê a transferência de todas as atividades de
fiscalização bancária do BC para uma agência
independente. Fraga expôs ao senador a tese de que, por
ser o banco dos bancos, responsável pela manutenção
da saúde financeira no setor bancário, seria necessário
manter no BC tarefas de fiscalização. Fraga defendeu
seu modelo de mudança parcial do trabalho dos fiscais e
foi bem recebido. Parece uma boa idéia. Ponham no
papel e vamos conversar, aceitou o senador.
Trabalho duplo. O modelo elaborado por Armínio Fraga dependerá
de uma emenda constitucional já aprovada no Senado e, hoje,
parada por ordem do próprio governo na Câmara. Além
disso, será necessário regulamentar as mudanças
por uma lei complementar. Temos de ter cuidado para não
aproveitar estruturas já existentes e não criar
novas que só aumentem os custos, alerta o diretor
de Normas do BC, Sérgio Darcy. Na Inglaterra, onde
há uma agência independente, notei uma certa duplicidade
de trabalho, comenta.
Funcionários da CVM se queixam que, embora tenha arrecadado
para o Tesouro em multas e taxas quase R$ 500 milhões no
ano passado, a comissão teve um orçamento próximo
a R$ 100 milhões. A proposta de mudanças encontra
resistência também em outros ex-presidentes do BC.
Tudo depende do projeto que sair do Congresso. Para o BC,
seria mais confortável ficar sem o ônus da fiscalização,
mas, para o sistema financeiro, seria mais interessante mantê-la
onde está, com quem tem independência e conhecimento,
avalia o presidente do BBA, Fernão Bracher. O economista
Affonso Celso Pastore até aceita a criação
de uma nova agência, mas só com total independência:
O importante é que seja parte do sistema de autoridades
monetárias, dirigida por técnicos como os do BC,
disse Pastore a DINHEIRO. Ninguém vai colocar o cunhado
do presidente para presidi-la, ironizou.
O assunto promete voltar nesta semana ao Congresso, quando Armínio
Fraga levará, ao Senado, a indicação de Tereza
Grossi para a diretoria de Fiscalização do BC. Rejeitada
inicialmente pelos senadores por ter participado das negociações
com o Marka e o Fonte Cindam, Tereza deve ser aprovada. Em um
obstinado trabalho de negociação, Fraga já
obteve o apoio explícito do presidente do Senado, Antônio
Carlos Magalhães, e não deverá ter problemas
com o presidente do PMDB, Jader Barbalho, e com o senador Pedro
Simon, dois dos maiores críticos à atuação
de Tereza. A aprovação da nova diretora deve confirmar
a habilidade política do economista que chegou ao BC enfrentando
fortes críticas no Congresso e que, hoje, arranca elogios
até da oposição. Será o fôlego
que Armínio Fraga espera para se lançar no próximo
desafio.

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